‘Ratzinger é um teólogo que explicou a Palavra de Deus para toda a Igreja’

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05 de mai de 2019

Durante sua passagem por São Paulo para o lançamento do primeiro volume em Língua Portuguesa das “Obras Completas” (“Opera Omnia”) do teólogo Joseph Ratzinger, o Papa Emérito Bento XVI (leia mais na página 22), o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito Emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, concedeu entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO.

Fundador do Instituto Papa Bento XVI e responsável pela edição das “Opera Omnia” de Ratzinger, o Cardeal Müller destacou a relevância dos escritos do Pontífice alemão para o ensinamento da Teologia na atualidade, e a influência do pensamento do Papa Emérito na elaboração de documentos do Concílio Vaticano II, especialmente sobre a Revelação Divina e a natureza da Igreja. Os textos de Ratzinger também ajudaram na assimilação posterior do Concílio a partir do aprofundamento dos próprios documentos conciliares.

Considerando Ratzinger um dos grandes teólogos da história da Igreja, Dom Gerhard destacou a originalidade do pensamento ratzingeriano, que não ensinava apenas com os conceitos das salas de aula, mas de maneira compreensível para o público em geral. Leia a entrevista.

 

O SÃO PAULO - COMO FOI OTRABALHO DE ORGANIZAÇÃO DAS OBRAS DE RATZINGER?

Cardeal Gerhard Ludwig Müller – Foram muitos os livros, artigos e textos produzidos por Joseph Ratzinger ao longo de toda a sua vida como sacerdote, bispo e, sobretudo, professor de Teologia. No entanto, era necessária uma sistematização. Então, organizamos esses textos a partir dos grandes temas, a começar por seus trabalhos acadêmicos, como sua tese sobre Santo Agostinho e a dissertação sobre o pensamento de São Boaventura. Em seguida, seus trabalhos sobre os grandes aspectos da Teologia cristã, dogmática e fundamental, como a questão sobre Deus, a Cristologia, Soteriologia [sobre a salvação], Eclesiologia [sobre a Igreja], a Vida Eterna e a Liturgia. É importante ressaltar que esse não foi um esquema feito apenas por um editor, pois Bento XVI está vivo e concordou com a organização proposta.

 

EM QUE CONTEXTO HISTÓRICO SE DESENVOLVEU O PENSAMENTO TEOLÓGICO DE RATZINGER?

No século XIX, aconteceu uma reorganização da Teologia católica depois da grande ruptura causada pela secularização do Iluminismo e, em seguida, pelo desafio dos sistemas totalitários políticos com ideologias contrárias à fé. No século XX, especialmente depois da Primeira Guerra Mundial, houve uma mudança no estilo dos manuais da Neoescolástica, concentrando-se mais nos grandes desafios e nas questões filosóficas contemporâneas, como o existencialismo, o niilismo de Nietzsche, a crítica da religião, o naturalismo, a compreensão de que todas as religiões são uma expressão autônoma do ser humano, mas que não conduz à transcendência. Nesse período, desenvolveu-se uma nova forma de Teologia, com nomes como Henri-Marie de Lubac, Hans Urs von Balthasar, Romano Guardini e Ratzinger.

 

QUE ASPECTOS DA TEOLOGIA DE RATZINGER LHE CHAMAM MAIS A ATENÇÃO?

São tantos aspectos que é difícil destacar alguns. Considero muito importante a figura de Jesus que ele apresenta na “Introdução ao Cristianismo”. Também a obra “Jesus de Nazaré” é o núcleo de seu esforço para renovar não só a Teologia, mas tornar mais acessível o conhecimento e a fé na pessoa de Jesus Cristo, sobretudo pelas pessoas influenciadas pelo niilismo, pelo secularismo, pelo laicismo, pelo instrumentalismo, pela redução da razão ao funcionalismo. Ratzinger ressalta que somos chamados cristãos porque acreditamos em Jesus Cristo, Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

 

POR QUE INICIAR A PUBLICAÇÃO DAS OBRAS PELA TEOLOGIA DA LITURGIA?

Esse foi um pedido do próprio Papa Bento XVI, que quis sublinhar a absoluta importância da Liturgia. Essa “Opera Omnia” não é uma edição cronológica, mas temática. Ratzinger disse que o futuro da Igreja depende da Liturgia. Podemos escrever livros sobre Deus, discutir vários temas, desafios, mas a nossa relação com Deus não é teórica e ocorre em nível de encontro pessoal. Enquanto as outras religiões cristãs possuem culto, nós possuímos uma liturgia, algo muito diferente. O culto é apenas a expressão de sentimentos, ideias orientadas para uma transcendência. A Liturgia é uma direta consequência da encarnação. Deus veio até nós. Por isso, a Liturgia representa a “união hipostática” entre a divindade e a humanidade de Jesus Cristo. Não é uma expressão de meus próprios sentimentos e ideias individuais ou da sociedade, que mudam de uma fase da história a outra, não é uma “autodivinização” da humanidade.

 

COMO O TEÓLOGO RATZINGER PARTICIPOU E COLABOROU COM O CONCÍLIO VATICANO II?

Ele participou inicialmente como perito do Cardeal Joseph Frings, e depois de diversas comissões. Contribuiu na elaboração da Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre a Revelação Divina, a partir da reflexão de seu trabalho sobre São Boaventura, que destaca que Revelação não é apenas uma informação da parte de Deus, mas um encontro. Deus se revela a nós e nossa resposta faz parte da Revelação, porque nossa incorporação na natureza humana de Jesus Cristo é uma resposta a essa Revelação.

O pensamento de Ratzinger também influenciou significativamente a Constituição Dogmática sobre a Igreja (Lumen Gentium), no que diz respeito ao mistério da Igreja, ao unir as duas dimensões: a visível e a invisível, considerando-a “sacramento universal de salvação”, assim como no mistério da encarnação. Essa sacramentalidade conduz à communio (comunhão) não visível, mas real, com Deus.

 

E COMO ELE CONTRIBUIU NA ASSIMILAÇÃO DO CONCÍLIO APÓS SUA REALIZAÇÃO?

Ratzinger escreveu diversos comentários que contribuíram para a compreensão do Concílio a partir da unidade dos próprios documentos conciliares. Seus textos apresentavam os resultados do Concílio, estimulando o debate e a recepção. Em suas “Obras Completas”, há dois volumes sobre a Teologia do Concílio Vaticano II que ajudam a compreendê-lo em profundidade.

 

COMO DEFINIR O TEÓLOGO RATZINGER?

Joseph Ratzinger não foi apenas um professor na universidade, é um teólogo que explicou a Palavra de Deus para toda a Igreja. Destaco a originalidade de sua Teologia, além do fato de ser uma pessoa muito inteligente, um mestre da palavra e do estilo em sua língua materna, o Alemão. Ele não escreve apenas com os conceitos dos teólogos da sala de aula, mas, sim, de uma maneira compreensível para qualquer pessoa com uma boa formação geral. Por isso, tantos fiéis gostam de ler suas obras. Sua Teologia é tão profunda quanto a dos outros grandes nomes de sua época. No entanto, é mais compreensível para o público em geral. Por isso, ele é considerado um dos grandes teólogos da história da Igreja.

 

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Cardeal Gerhard Müller realiza conferência na Faculdade de Teologia

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26 de abril de 2019

Na manhã desta sexta-feira, 26, o Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito Emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, palestrou à comunidade acadêmica na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção da PUC-SP, no bairro do Ipiranga, sendo recepcionado pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano e Grão-Chanceler da PUC-SP.

Na ocasião, o Cardeal Müller realizou o lançamento do 11º volume das Opera Omnia (Obras Completas), o primeiro em Língua Portuguesa, do teólogo alemão Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Emérito Bento XVI.

O Cardeal Müller é o editor responsável pela tradução e organização da coleção dos escritos teológicos de Ratzinger. Ao todo, serão 16 volumes que reúnem escritos, artigos, conferências, prefácios, resenhas e livros do teólogo que hoje tem 92 anos.

Referindo-se ao pensamento de Bento XVI sobre o tema, o Cardeal Müller ressaltou na Faculdade de Teologia da PUC-SP que na liturgia cristã toda a história da salvação está presente. “É uma liturgia cósmica, abraça toda a criação, que ‘espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus’”.

O Purpurado acrescentou que a Liturgia não deve se transformar em “campo de experimentos e hipóteses teológicas”, mas é a revelação acolhida na fé e na oração e que, portanto, “é a fé da Igreja que é o recipiente da revelação”.

ASSISTA A ÍNTEGRA DA PALESTRA DO CARDEAL MÜLLER

No sábado, 27, às 15h, o Cardeal Müller participará do evento de lançamento do 11º volume das Opera Omnia (Obras Completas) na Faculdade São Bento (Largo São Bento, s/nº, ao lado do Mosteiro de São Bento). No domingo, 28, concelebrará a missa das 11h na Catedral da Sé.

Os detalhes completos da visita do Cardeal Müller poderão ser lidos na próxima edição do O SÃO PAULO.

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Conheça algumas obras sobre o pensamento de Bento XVI

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02 de mai de 2019

Em 16 de abril, o Papa Emérito Bento XVI completou 92 anos de vida. Nascido em Marktl am Inn, na Alemanha, em 1927, o Cardeal Joseph Ratzinger desempenhou diversas funções na Cúria Romana antes de ser eleito Papa, em 2005, entre as quais as de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e de Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica, da Comissão Teológica Internacional e da comissão encarregada da preparação do Catecismo da Igreja Católica, entre 1986-1992.

No sábado, 27, às 15h, no Mosteiro de São Bento, o Cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ao longo do pontificado de Bento XVI, fará o lançamento da tradução em Português do primeiro texto da “Opera Omnia” (leia mais na página 23), obra teológica do Papa Emérito, intitulada “Teologia da Liturgia, o Fundamento Sacramental da Existência Cristã” (Edições CNBB).

OS APÓSTOLOS E OS PRIMEIROS DISCÍPULOS DE CRISTO

Em 160 páginas, a editora Planeta apresenta o conteúdo de catequeses que proporcionaram um conhecimento mais profundo dos apóstolos e de outros personagens importantes da Igreja primitiva. O cerne dessa meditação é a escolha dos Doze, seu ministério de comunhão e verdade e a experiência dos primeiros seguidores de Jesus. O texto oferece uma caminhada por meio dos testemunhos dos primeiros escritos do Novo Testamento.

 

OS PADRES DA IGREJA – DE CLEMENTE ROMANO A SANTO AGOSTINHO

Esta obra reúne as catequeses que o Papa Emérito Bento XVI dedicou aos escritores eclesiásticos dos primeiros quatro séculos cristãos. Na apresentação, há um breve esclarecimento sobre quem foram os Padres da Igreja. Inicialmente, apresenta-se o homem e as problemáticas de sua vida; em seguida, o escritor e a sua produção literária. Por fim, há referência à doutrina teológica desses Padres. Em cada caso, Bento XVI destaca a atualidade da mensagem patrística. Com 232 páginas, a obra é disponibilizada no Brasil pela Paulus.

 

HOMILIÁRIO DE BENTO XVI: UM CAMINHO DE FÉ ANTIGO E SEMPRE NOVO

Em quatro tomos, organizados pelo Prof. Dr. Rudy Albino de Assunção, a Molokai traz a antologia completa das pregações, homilias, discursos e mensagens do Papa Bento XVI para o Ano Litúrgico: Ano A (Tomo I - 676 páginas); Ano B (Tomo II – 816 páginas); Ano C (Tomo III – 664 páginas); e Solenidades (Tomo IV – 520 páginas).

 

O SACRIFÍCIO DA PALAVRA: A LITURGIA DA MISSA SEGUNDO BENTO XVI

O autor, Rudy Albino de Assunção, apresenta aos leitores a compreensão ratzingeriana da liturgia da missa, em seus mínimos e preciosos detalhes. Trata-se de uma pesquisa profundamente embasada, que busca evidenciar a natureza autêntica da liturgia por meio de uma “re-tradução” dos textos do missal.

 

BENDITA HUMILDADE – O ESTILO SIMPLES DE JOSEPH RATZINGER

Em 200 páginas, a obra apresenta a humildade e a simplicidade de Bento XVI. Para o autor, Andrea Monda, a humildade e o humor estão fortemente relacionados e presentes na pessoa, na vida e na obra do Cardeal Joseph Ratzinger. O livro com 160 páginas foi apresentado pela Paulinas.

BENTO XVI, A IGREJA CATÓLICA E O ‘ESPÍRITO DA MODERNIDADE’

A obra é fruto da tese de doutorado de Rudy Albino de Assunção. Segundo o autor, a pergunta da qual nasce o livro é: para Ratzinger, a palavra modernidade fere ainda os ouvidos da Igreja? Afinal, Igreja e modernidade são duas realidades colocadas habitualmente em oposição. Nessa perspectiva, a obra trata da sociologia do catolicismo em perspectiva global. O livro, com 356 páginas, apresentado pela Paulus, traz uma análise sociológica do intelectual Bento XVI e uma sociologia da teologia ratzingeriana.

 

ESCATOLOGIA – MORTE E VIDA ETERNA

“Se o cristão não está seguro do conteúdo das palavras ‘vida eterna’, então se esvaem as promessas do Evangelho e o sentido da criação e da redenção, e até mesmo a vida terrena se vê privada de toda esperança”. Assim Joseph Ratzinger abre esta obra. O tema central do livro, apresentado pela Molokai, é uma pergunta que todo cristão é convidado a fazer todos os dias: o que se passa entre a morte e a vida eterna?

 

MINHA HERANÇA ESPIRITUAL

Esta obra, dividida em seis partes, apresenta uma síntese dos valores e fundamentos do magistério de Bento XVI, em especial o convite para que cada pessoa busque a Deus e seja testemunha autêntica da fé. O leitor encontrará temas como fundamentos em Cristo, na escola de Maria, na fé da Igreja, nutridos pela oração, além de uma cronologia sobre o Papa Emérito. Com 80 páginas, o livro foi organizado por Giuliano Vigini e é disponibilizado no Brasil pela Paulus.

 

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São José, o inspirador dos Papas

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19 de março de 2019

A silhueta de São José estendida no sono, ao lado da mesa onde estuda e assegura as necessidades da Igreja universal, está ali para recordar que também em um sonho pode se esconder a voz de Deus. Papa Francisco tem ao seu lado, desde sempre, nos quartos onde morou e estudou a pequena estátua de São José dormindo.

O “solucionador”

Até hoje a estátua de São José está sobre a sua escrivaninha na Casa Santa Marta. Esta imagem, e a devoção de Francisco por aquilo que representa, teve uma imprevista popularidade mundial quando alguns anos atrás o próprio Papa falou durante o Encontro Mundial das Famílias em Manila.

Uma confidência que revelou uma confiança total na força mediadora do pai putativo de Jesus e uma admiração pelo papel e pelo estilo que José sempre encarnou:

Amo muito São José, porque é um homem forte e silencioso. Na minha escrivaninha, tenho uma imagem de São José que dorme e, quando tenho um problema, uma dificuldade, escrevo um bilhetinho e meto-o debaixo de São José, para que o sonhe. Este gesto significa: reza por este problema! (Encontro com as famílias em Manila – 16 de janeiro de 2015).

Um nome para muitos Papas

Depois de Pedro, muitos Joãos, Bentos, Paulos, Gregórios, mas nenhum José. Nunca teve um Papa com este nome. Porém, muitos deles, especialmente no último século, o tiveram como nome de Batismo, como se os homens chamados para custodiar Jesus fosse um viático para os homens chamados para custodiar a Igreja. No início do século XX José Melchiorre Sarto torna-se Pio X e mais tarde sobem ao trono de Pedro Angelo José Rocalli, Karol Józef Wojtyla e Joseph Ratzinger. Francisco não se chama José, mas celebra, agradecido, a sua Missa de início de ministério dia 19 de março. Invocações que recordam o discreto modelo que inspira.

Muitos Papas por um nome

As etapas que levaram a Igreja a estabelecer o culto de São José foram muito longas, desde Sisto V que no final do século XV fixou a data da festa para 19 de março até a última decisão de Papa Francisco que, confirmando a vontade Bento XVI, no dia 1º de maio de 2013 decreta o acréscimo do nome de São José, Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, nas Orações eucarísticas II, III e IV (precedentemente João XXIII tinha estabelecido em 13 de novembro de 1962 a introdução no antigo Cânone romano da Missa, ao lado do nome de Maria e antes dos Apóstolos). Foi também João XXIII, que querendo confiar ao “pai” terreno de Jesus o Concílio Vaticano II, escreveu em 1961 a Carta Apostólica Le Voci, na qual faz um tipo de sumário da devoção a São José sustentada pelos seus predecessores. Não são opacas operações de “burocracia” litúrgica. Por trás de cada novo decreto colhe-se um sentimento e uma consciência eclesial cada vez mais enraizada como por exemplo, como aconteceu a Pio XII, podem chegar a marcar também na vida civil.

Um Santo que trabalha

No dia primeiro de maio de 1955, era um domingo e a Praça São Pedro estava repleta de fiéis. Pio XII faz um discurso enérgico aos presentes exortando todos a se orgulharem da sua identidade cristã frente às ideologias socialistas que pareciam dominar . No final surpreende a multidão com um “presente” que entusiasma todos:

Para que todos entendam este significado (…) queremos anunciar a Nossa determinação de instituir – como de fato instituímos – a festa litúrgica de São José operário, marcando-a no dia 1º de maio. Trabalhadores e trabalhadoras, agrada-vos o nosso dom? Temos certeza que sim, porque o humilde artesão de Nazaré não só personifica junto a Deus e a Santa Igreja a dignidade do trabalhador, mas é também sempre providente guardião vosso e de vossas famílias” (Festa de S. José Operário – 1º de maio de 1955).

“Papa José” não é possível

Quatro anos mais tarde a Igreja estava sendo guiada por um homem que queria se chamar “Papa José”. Renunciou, disse, porque “não é usado entre os Papas”, mas a explicação revela a nostalgia e a forte devoção que João XXIII tinha por São José:

“Faça com que também os teus protegidos compreendam que não estão sós no seu trabalho, mas saibam descobrir Jesus ao seu lado, acolhê-lo com a graça, custodiá-lo com a fé como tu o fazes. E faça com que em cada família, em cada fábrica, oficina, onde quer que trabalhe um cristão, tudo seja santificado na caridade, na paciência, na justiça, na busca do fazer bem, para que desçam abundantes dons da celeste predileção” (19 de março de 1959)

O homem dos riscos

Paulo VI também não se chama José, mas de 1963 a 1969 em particular, não deixa de celebrar uma Missa na solenidade de 19 de março. Cada homilia torna-se uma peça que forma um retrato pessoal com o qual Paulo VI mostra-se fascinado pela “completa e submissa dedicação” de José à sua missão, do homem “talvez tímido” mas dotado “de uma grandeza sobre-humana que encanta”.

São José, um homem ‘comprometido’ como se diz agora, por Maria, a eleita entre todas as mulheres da terra e da história, sempre sua virgem esposa, também fisicamente sua mulher, e por Jesus, em virtude da descendência legal, não natural, sua prole. A ele, os pesos, as responsabilidades, os riscos, as preocupações da pequena e singular sagrada família. A ele o serviço, a ele o trabalho, a ele o sacrifício, na penumbra do quadro evangélico, no qual nos agrada contemplá-lo, e certamente, sem dúvida, agora que tudo conhecemos, chamá-lo feliz, bem-aventurado. Isso é Evangelho. Nele os valores da existência humana assumem medidas diferentes daquela que somos acostumados a apreciar: aqui o que é pequeno torna-se grande” (Homilia de 19 de março de 1969).

O esposo sublime

Em 26 anos de pontificado João Paulo II falou de São José em infinitas ocasiões e, sempre disse que rezava intensamente pelo santo todos os dias. Essa devoção se resume no documento que lhe dedica em 15 de agosto de 1989, com a publicação da Exortação Apostólica Redemptoris Custos, escrita 100 anos depois da Quamquam Pluries de Leão XIII. No documento Papa Wojtyla aprofunda a vida de José em vários aspectos principalmente o do matrimônio cristão no qual oferece uma profunda leitura da relações entre os dois esposos de Nazaré.

A dificuldade de se aproximar ao mistério sublime da sua comunhão esponsal levou todos, desde o século II, a atribuir a José uma idade avançada e a considerá-lo guardião, mais do que esposo de Maria. É o caso de supor, ao invés, que na época ele não fosse um homem idoso, mas que a sua perfeição interior, fruto da graça, o levasse a viver com afeto virginal a relação esponsal com Maria” (Audiência Geral de 1996).

O pai silencioso

De São José não se conhecem as palavras, apenas os silêncios. Bento XVI aprofunda-se na aparente ausência de São José e extrai dela a riqueza de uma vida completa, de um homem fundamental que com seu exemplo sem proclamações marcou o crescimento de Jesus o homem-Deus:

Um silêncio graças ao qual José, em união com Maria, custodia a Palavra de Deus (…) um silêncio marcado pela oração constante, oração de bênção do Senhor, de adoração da sua santa vontade e de confiança sem reservas à sua providência. Não se exagera quando se pensa que do próprio “pai” José, Jesus tenha tomado – no plano humano – a robusta interioridade que é pressuposto da autêntica justiça, a “justiça superior”, que ele um dia ensinará aos seus discípulos”. (Angelus de 2005)

 O Santo da ternura

Da pequena “paróquia” de Santa Marta, Papa Francisco refletiu muito sobre o Santo ao qual confia todas suas preocupações. “O homem que custodia, o homem que faz crescer, o homem que leva adiante toda paternidade, todo mistério, mas não pega nada para si”, disse um uma das Missas matutinas. Por fim, em 20 de março de 2017 sublinha que José é o homem que age também quando dorme porque sonha o que Deus quer.

Hoje gostaria de pedir que nos conceda a todos a capacidade de sonhar, porque quando sonhamos coisas grandes, bonitas, aproximamo-nos do sonho de Deus, daquilo que Deus sonha sobre nós. Que conceda aos jovens — porque ele era jovem — a capacidade de sonhar, de arriscar e de cumprir as tarefas difíceis que viram nos sonhos. E conceda a nós a fidelidade que em geral cresce numa atitude correta, cresce no silêncio e na ternura que é capaz de guardar as próprias debilidades e as dos outros”.

 

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Redescobrindo Bento XVI

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01 de março de 2019

Quando, há seis anos, em 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI anunciou sua renúncia ao papado, muitos acreditaram que estava decretando o fim de sua vida pública, não só como papa, mas também como pensador. O sucesso midiático e o impacto imediato do Papa Francisco aumentaram ainda mais essa impressão.

Contudo, Deus, como Pai amoroso, adora surpreender-nos. O pensamento e a obra de Joseph Ratzinger continuam vivos – e cada vez mais vivos. Liberadas do inevitável peso da oficialidade decorrente do papado, suas ideias estão sendo cada vez mais revisitadas, pela contribuição que trazem à compreensão do que é ser cristão no mundo atual.

Novas gerações, que não foram marcadas pelos embates teológicos (e ideológicos) do fim do século passado, têm a chance de conhecê-lo como um dos grandes nomes do diálogo entre o pensamento cristão, a partir de suas raízes, e a cultura atual – ou, como seu discípulo, o teólogo português Henrique Noronha Galvão, o definiu: “Um místico que acredita no amor” (afinal, não é por acaso que a maioria de suas encíclicas e exortações tem a caridade, o amor, no nome).

Nessa perspectiva, o Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e “A Outra Via”, organização cultural e educacional de inspiração católica, com o apoio da Sociedade Ratzinger do Brasil, estão promovendo o Congresso “Fé, cultura e verdade, o tema da cultura em Bento XVI”.

Para falar dessa redescoberta de Joseph Ratzinger, O SÃO PAULO entrevistou Gabriel de Vitto, coordenador de “A Outra Via”.

 

O SÃO PAULO – PARA COMEÇAR, UMA PERGUNTA DE CARÁTER MAIS PESSOAL: VOCÊ É JOVEM. A MAIOR PARTE DA OBRA DE RATZINGER FOI PRODUZIDA ANTES DE ADQUIRIR INTERESSE POR TEMAS CULTURAIS E DE FÉ. DE ONDE VEM SEU INTERESSE PELO PENSAMENTO DO PAPA EMÉRITO?

Gabriel de Vitto - Atualmente todos os católicos que estão na universidade – especialmente nos cursos da área de Humanas – são como que obrigados a refletir ao menos um pouco sobre os temas relevantes à fé e, por conseguinte, o estudo da doutrina católica, da ética, da antropologia e da cultura acaba sendo indispensável para que se possa viver o catolicismo de maneira autêntica. Eu percebi essa demanda muito jovem, ainda quando não era um católico praticante. Assim que iniciei meus estudos nesses temas, na época do final do pontificado de Bento XVI, a obra do Papa-teólogo me chamou a atenção por sua originalidade. Ele parecia trazer uma resposta sólida e atual às questões que afligiam a mim e aos meus amigos. Com o tempo, essa impressão inicial se confirmou, evidentemente.

 

DIANTE DO CONTEXTO ATUAL, QUAIS ASPECTOS DO PENSAMENTO DE BENTO XVI LHE PARECEM MAIS IMPORTANTES DE SEREM RESGATADOS E APROFUNDADOS? POR QUÊ?

Dois aspectos do pensamento de Bento XVI me parecem essenciais para o debate contemporâneo: sua interpretação da teologia da história de São Boaventura e sua constante afirmação de que a religião cristã não é um conjunto de regras e preceitos, mas, sim, o encontro com a pessoa de Cristo, pessoa da qual emana toda a doutrina.

A meu ver, tanto a teologia da história quanto o encontro pessoal estão intimamente ligados. O homem do século XXI carece de sentido. Precisamos recordá-lo de que ele não está sozinho em um mundo que foi se construindo em meio ao caos das tentativas de sucesso dos homens que o precederam. Antes, há uma unidade na história conferida pela Providência Divina, Providência essa que é governada pelo olhar atento da pessoa de Cristo.

 

E QUAIS SERIAM OS MAIORES DESAFIOS PARA UMA ADEQUADA COMPREENSÃO DA OBRA DE JOSEPH RATZINGER ENTRE NÓS?

Os desafios são inúmeros. O primeiro é a barreira da língua. Boa parte da obra de Bento XVI como teólogo ainda não foi traduzida para o Português, e, portanto, é de difícil acesso ao público não especializado. Ainda há também o problema do estereótipo construído por parte da mídia de que Bento XVI seria uma figura gélida que beira ao tradicionalismo. Muitas pessoas se fecham para a obra do Papa Emérito porque pensam que será impossível para elas compreender o que ele diz. Um dos principais motivos do nosso esforço de divulgação das ideias de Ratzinger é justamente minar um pouco essa “cortina de ferro” que foi construída em torno da sua figura pública. Outro problema que encontro para a boa compreensão da obra de Bento XVI entre nós é a escassez de bons comentadores que introduzam de maneira leve e sistemática os principais temas da pesquisa ratzingueriana. Ou seja, o trabalho a ser feito me parece sobretudo editorial e midiático.

 

A PROVOCAÇÃO PARA A REALIZAÇÃO DESSE CONGRESSO PARTIU DE VOCÊS. COMO FOI A SUA ACOLHIDA PELO NÚCLEO FÉ E CULTURA DA PUC-SP?

Quando levamos a proposta, a coordenação do Núcleo Fé e Cultura ficou entusiasmada com o projeto. Duas coisas lhes chamaram a atenção. A primeira foi a de que a ideia não vinha de um contexto teológico, acadêmico, mas sim de leigos interessados em aprofundar seu diálogo entre a fé e a cultura (que é justamente o nome do Núcleo). Depois, o fato de que os palestrantes convidados são em sua maioria filósofos, ainda que com grande formação teológica. Isso naturalmente direciona a reflexão para o diálogo com as concepções e as correntes filosóficas mais frequentes em nossa sociedade.

 

COMO ESTÁ ESTRUTURADO O CONGRESSO? QUE TEMAS SERÃO ABORDADOS E QUAIS SERÃO OS EXPOSITORES?

O Congresso será dividido em duas partes: na sexta-feira, 8 de março às 19h30, haverá uma mesa-redonda que contará com a presença de Diego Klautau (professor da FEI e profundo admirador de Bento XVI), Henrique Elfes (filósofo e editor da editora Quadrante), Joel Gracioso (professor da Faculdade de São Bento em São Paulo e estudioso dos temas ratzinguerianos), Luiz Felipe Pondé (que, além de tudo que já sabemos, é um grande entusiasta da obra de Ratzinger) e Rudy Albino de Assunção (um dos maiores especialistas brasileiros no pensamento do Papa Emérito). O tema da mesa-redonda será a crise da cultura moderna. No sábado, 9 de março, as atividades começam às 9h com a palestra de Rudy Albino de Assunção sobre “Qual é a ‘Opção Beneditina’ de Joseph Ratzinger?: Cristianismo e Cultura em nosso tempo”; seguido por Diego Klautau, que falará sobre a relação de Joseph Ratzinger e a Modernidade. Na parte da tarde, voltamos às 13h com Henrique Elfes, que falará sobre o importante tema “Memória e Esperança: diretrizes para uma cultura com sentido. Uma análise da Encíclica Spe Salvi”. E, por fim, Joel Gracioso abordará a discussão entre Fé e Razão.

As inscrições para o evento são gratuitas e podem ser feitas no site.

 

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Bento XVI: "diálogo com os judeus, e não missão"

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27 de novembro de 2018

Não se trata de "missão", mas de "diálogo": é o que Bento XVI diz numa "correção" enviada à revista católica alemã "Herder Korrespondenz" sobre um artigo assinado pelo teólogo de Wuppertal, Michael Böhnke, que na edição de setembro da revista havia comentado o pensamento do Papa emérito sobre a relação entre judeus e cristãos.
O judaísmo e o cristianismo - afirma Bento XVI - são "duas maneiras de interpretar as Escrituras". Para os cristãos, as promessas feitas a Israel são a esperança da Igreja e "quem se apega a elas não questiona de modo algum os fundamentos do diálogo judaico-cristão". As acusações contidas no artigo - continua -, são "absurdos grotescos e não têm nada a ver com o que eu disse sobre isso. Por isso rejeito seu artigo como uma insinuação absolutamente falsa".

Entre outras coisas, Böhnke escrevera que Bento XVI teria mostrado, em um artigo publicado em julho passado na revista "Communio", uma compreensão problemática do judaísmo e mantido silêncio sobre os sofrimentos que os cristãos causaram aos judeus.

Na sua "retificação", Bento XVI aborda - ao lado de outros aspectos teológicos – também a delicada questão da missão aos judeus, isto é, à questão se a Igreja deve anunciar aos judeus a Boa Nova de Cristo. "Uma missão aos judeus não está prevista e nem é necessária", escreve literalmente Ratzinger. É verdade que Cristo enviou seus discípulos em missão a todos os povos e culturas. Por essa razão, "o mandato da missão é universal - com uma exceção: a missão aos judeus não estava prevista e não era necessária simplesmente porque só eles, entre todos os povos, conheciam o 'Deus desconhecido'".

Quanto a Israel, portanto - explica Bento XVI - não se trata de missão, mas de diálogo sobre a compreensão de Jesus de Nazaré: é "o Filho de Deus, o Logos", esperado - de acordo com as promessas feitas ao seu próprio povo - por Israel e, inconscientemente, por toda a humanidade? Retomar esse diálogo é "a tarefa que nos coloca o momento presente".

A "correção", relatada por Kna, está incluída na edição de dezembro de "Herder Korrespondenz" e é assinada "Joseph Ratzinger-Bento XVI".

Recordamos que o escrito do Papa emérito na revista "Communio" foi considerado como um aprofundamento de um novo Documento publicado em 2015 pela Comissão da Santa Sé para as relações religiosas com o judaísmo intitulado "Porque os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" Rom 11,29). Reflexões sobre questões teológicas relacionadas às relações católico-judaicas" por ocasião do 50º aniversário da Declaração conciliar Nostra aetate. O documento foi apresentado entre outros pelo cardeal Kurt Koch, presidente da Comissão para as relações religiosas com o Judaísmo. No parágrafo 6 do texto, lemos:

"É fácil entender que a chamada ‘missão dirigida aos judeus’ é uma questão muito difícil e sensível para os judeus, pois, aos seus olhos, diz respeito à própria existência do povo judeu. Também para os cristãos, é uma questão delicada, porque consideram de fundamental importância o papel salvífico universal de Jesus Cristo e a consequente missão universal da Igreja. A Igreja, portanto, deve entender a evangelização dirigida aos judeus, que acreditam no único Deus, de uma maneira diferente daquela dirigida àqueles que pertencem a outras religiões ou têm outras visões do mundo. Isto significa concretamente que a Igreja Católica não conduz ou encoraja qualquer missão institucional dirigida especificamente aos judeus. Tendo presente a rejeição - por princípio - de uma missão institucional dirigida aos judeus, os cristãos são chamados a testemunhar sua fé em Jesus Cristo também diante dos judeus; porém, devem fazê-lo com humildade e sensibilidade, reconhecendo que os judeus são portadores da Palavra de Deus e tendo em mente a grande tragédia da Shoah".

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5 anos da renúncia de Bento XVI: "gesto heróico de amor à Igreja"

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09 de fevereiro de 2018

Cinco anos se passaram desde 11 de fevereiro de 2013, quando Bento XVI anunciou a decisão de renunciar ao Pontificado. Aquele gesto, que pegou o mundo de surpresa, é cada vez mais compreendido como um grande ato de amor pela Igreja.

Alessandro Gisotti, do Vatican News, entrevistou Mons. Alfred Xuereb, hoje Secretário-geral da Secretaria para a Economia, que foi o vice-secretário de Bento XVI de 2007 até o fim do Pontificado.

“Tenho muitas recordações do Papa Bento XVI e não quero esquecê-los, para manter aqueles anos vivos em minha memória. Obviamente, os momentos mais fortes foram ligados à sua renúncia. Lembro-me muito bem quando em 5 de fevereiro de 2013, ele me chamou em sua sala e me anunciou a decisão de renunciar. Naquela hora, pensei em lhe pedir para pensar um pouco mais... mas não o fiz, porque sabia que ele havia rezado muito. E justamente ali me recordei que durante um longo tempo, ele se detinha na sacristia antes de celebrar a missa; ficava rezando inclusive quando o relógio tocava assinalando o início da celebração. Ele o ignorava e permanecia ali, diante do crucifixo, na sacristia. Eu pensava que ele estava rezando por alguma coisa muito importante.

“ Naquele dia 5, enquanto ouvia sua decisão, pensei: 'Então era por isso que ele rezava tanto! ”

 

Quando o mundo inteiro foi informado

“Naturalmente outro momento forte foi o anúncio público, no Consistório de 11 de fevereiro. Eu chorei o tempo todo e inclusive no almoço. Ele entendeu que eu estava emocionado; eu lhe disse: ‘Santo Padre, mas o sr. está tranquilo?’. E ele respondeu com firmeza: ‘Sim’, porque seu trabalho já estava feito. Estava sereno porque sabia que tinha avaliado tudo e que estava em paz, na vontade de Deus”.

 

A despedida e a nova incumbência

“Outro  momento importante para mim foi a despedida, porque ele me disse: ‘Você fica com o novo Papa’. E assim, quando foi eleito o Papa Francisco, ele lhe escreveu uma carta reiterando que me deixaria livre, caso precisasse de mim. E quando chegou o dia de deixar Castel Gandolfo, a Secretaria de Estado me avisou: ‘Corre, faz a mala porque o Papa Francisco está abrindo as cartas sozinho!’. Entrei no escritório de Bento e lhe pedi, chorando, a sua bênção. Ele levantou, eu fiquei de joelhos e com tranquilidade, me deu a bênção e me deixou ir”.

 

A atual condição de Bento XVI 

“Fui convidado por ele no dia de meu aniversário, 14 de outubro passado, para celebrar a missa e tomar café da manhã. Eu o vi bastante lúcido, me perguntou várias coisas. E os olhares que me dirigiu significavam que ele estava contente em me rever. Recordava bem alguns detalhes sobre minha família, minha mãe e até seus gatos!. Obviamente está muito frágil fisicamente. Tem quase 91 anos...”.

 

Nos últimos cinco anos as pessoas entenderam melhor aquele gesto?  

“Algumas pessoas sim, mas penso que outras ainda devem compreendê-lo. Foi um gesto grandioso. Bento XVI entendeu especialmente durante o voo ao México que não poderia mais fazer viagens longas. Em breve chegaria a Jornada Mundial da Juventude no Brasil e ele percebeu que não conseguiria mais viajar e fazer esforços como aquele... Sua atitude foi heroica, a meu ver, porque pensou sobretudo na Igreja, no amor pela Igreja que era muito maior do que o amor por si mesmo, por seu ego. Não se incomodou com o que pessoas ou realidades poderiam pensar sobre ele... que não tinha coragem para prosseguir... Uma vez que entendeu que Deus lhe havia pedido aquele gesto, amando a Igreja, ele se tranquilizou”.

“ Temos, portanto, uma memória histórica viva à qual podemos recorrer. ”

“O Papa Francisco deu-lhe imediatamente a definição certa: ‘Temos o privilégio de ter um ‘vovô’ em casa’. E estou certo de que o Papa Francisco faz isso. Naturalmente, os gestos também falam. Ainda antes de se apresentar ao mundo, na sacada da Basílica de São Pedro, ele tentou ligar para o Papa Bento para cumprimentá-lo. Nós estávamos na sala da TV, onde o telefone estava sempre o volume baixo e por isso não o ouvimos tocar. Este é o motivo porque o Papa Francisco chegou atrasado na sacada. Mais tarde, nos ligaram novamente, durante o jantar, e disseram que Francisco chamaria depois. Quando chegou o telefonema, passei para o Papa Bento e o ouvi dizer: ‘Santidade, prometo desde já minha obediência e orações’. Não posso me esquecer daqueles momentos”.

Enfim, Mons. Xuereb afirma que Bento XVI quis optar por uma vida retirada para justamente se preparar para o encontro final com o Senhor.

“Mas, enquanto o faz, vive esta fase com espiritualidade profunda, oferecendo orações e também a fragilidade de sua condição de saúde, dedicando-a em favor da Igreja... do Papa e da Igreja”. 

 

Vatican News

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Papa Francisco visita Ratzinger

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28 de dezembro de 2017

No ultimo dia 21 de dezembro, o Papa Francisco foi ao Mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, para estar por 30 minutos com Bento XVI e desejar-lhe as felicitações natalícias. Esta visita se tornou uma tradição desde o ano de 2013, quando Bento XVI se transferiu para o mosteiro.

Alguns dias antes, em 18 de novembro, o Papa Francisco fez uma homenagem a Bento XVI por ocasião do prêmio Ratzinger, recordando que “a sua oração e a sua presença discreta e encorajadora nos acompanha no caminho comum”. “E a sua obra e o seu magistério – acentuou -  continuam a ser uma herança viva e preciosa para a Igreja e o nosso serviço.”

A visita a Bento XVI tem sido um “gesto de simplicidade da relação entre o Santo Padre – Francisco – e o Papa emérito”, como informado já em encontros precedentes pela comunicação interna do Vatican News,  principalmente nestas ocasiões importantes para o Cristianismo, como o Natal.

“Quando assistimos a estes encontros, vemos que existe entre os dois um grande afeto. A gentileza, o espirito de oração e a fraternidade é o que sempre conduzem estes momentos especiais”, prossegue a nota. Francisco ressaltou que “Joseph Ratzinger continua a ser um mestre e um interlocutor amigo para todos aqueles que exercitam o dom da razão para responder a vocação humana da busca da verdade”. 

 

Os últimos encontros entre Francisco e Bento XVI

O primeiro – histórico – foi o encontro em Castel Gandolfo, no dia 23 de março de 2013, quando Bento XVI e Francisco rezaram juntos por alguns momentos.

No dia 5 de julho de 2013, Bento XVI apareceu novamente ao lado de Francisco durante a inauguração de um monumento a São Miguel, nos Jardins Vaticanos.

Em 22 de fevereiro de 2014, durante o consistório para a criação de novos cardeais, a Basílica Vaticana teve pela primeira vez na história a presença de dois papas.

Ratzinger voltaria a encontrar o público – e Bergoglio – em 27 de abril de 2014, quando da canonização de São João Paulo II e São João XXIII, na Praça São Pedro.

Dois meses mais tarde, em 28 de setembro, a convite de Francisco, Bento XVI voltou à Praça São Pedro, onde participou do encontro com a terceira idade. O Papa emérito aparecera bem disposto, apesar de caminhar muito devagar e com a ajuda de uma bengala.

Sempre a convite do Papa Francisco, Bento XVI esteve novamente na Praça São Pedro em 19 de outubro de 2014, quando concelebrou o rito de beatificação do Papa Paulo VI.

Em 2015, Bento XVI voltou à Basílica de São Pedro, onde participou do consistório no qual Francisco criou 20 novos cardeais em 14 de fevereiro.

No final de 2015, Bento XVI passou a Porta Santa da Misericórdia da Basílica de São Pedro, aberta pelo P Francisco para o Jubileu, em 8 de dezembro.

Em 20 de novembro de 2016, Francisco foi até o Mosteiro Mater Ecclesia, onde foi recebido pelo Papa emérito junto com os novos cardeais criados no Consistório do mesmo dia.

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Criada a Sociedade Ratzinger do Brasil

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05 de mai de 2017

Durante a 55ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, realizada em Aparecida (SP) entre os dias 26 de abril e 5 de maio, foi criada a Sociedade Ratzinger do Brasil (SRB), que tem como finalidade traduzir e difundir as obras completas do teólogo Joseph Ratzinger, o Papa Emérito Bento XVI.

A sociedade também irá promover atividades de estudo e pesquisa, realizar congressos, seminários, e cursos de atualização teológica, organizar encontros periódicos de caráter regional, nacional e internacional, realizar trabalhos interdisciplinares com outras sociedade e instituições teológicas, publicar obras científicas e de divulgação sobre a teologia de Ratzinger, bem como seu magistério pontifício.

Em entrevista concedida à Rádio Vaticano, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo e um dos membro do comitê fundador da SRB, explicou que a iniciativa da criação da Sociedade partiu de estudiosos, bispos, cardeais e pretende ser ampliada posteriormente convidando mais integrantes para maior difusão da obra de Bento XVI,

“Aqui no Brasil conhecemos poucas obras traduzidas do Papa Bento XVI e realmente creio que vale a pena nós termos um conhecimento maior, uma difusão maior das suas obras teológicas”, afirmou Dom Odilo.

O Cardeal Scherer acredita que, para a história futura, o Papa Bento XVI será um dos grandes papas teólogos da história da Igreja. “Por isso, não vamos esperar 50 anos ou 100 anos para começar a traduzir a sua obra em português, nós vamos começar logo”, disse.

Colaborou Larrisa Freitas, com informações da Rádio Vaticano e CNBB

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