No Japão, Papa encontra testemunho de fé sólida dos católicos

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23 de novembro de 2019

O Papa Francisco desembarcou em Tóquio, no Japão, na noite deste sábado (5h32 no Brasil), para segunda etapa desta sua viagem apostólica internacional, após ter visitado a Tailândia.

Francisco é o segundo Pontífice romano a visitar o país do sol nascente, que também acolheu São João Paulo II, em 1981.

A presença do sucessor o Apóstolo São Pedro no Japão era aguardada com ansiedade pela minoria católica do país onde predomina o xintoísmo e budismo.

Os católicos do Japão representam 0,42% da população, cerca de 500 mil pessoas, segundo as estatísticas oficiais da Igreja Católica japonesa, o país conta com 440.893 católicos. Esses números, porém, são contestados, pois, segundo uma nota da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris, “não foram considerados os católicos que não estão registrados nas paróquias japonesas”. Portanto o número pode ser bem superior, pelo menos o dobro.

TERRA DE MISSÃO

O catolicismo no Japão tem raízes missionárias, sobretudo após a chegada do jesuíta São Francisco Xavier e seus companheiros, no século XVI.

Em 1588, a Igreja Católica no país já contava com mais de 300 mil fiéis no Japão. Ainda no século XVI, começou uma brutal perseguição que durou praticamente dois séculos e quase exterminou a comunidade católica no Japão.

CRISTÃOS ESCONDIDOS

No entanto, mesmo sem bispos, padres e igrejas onde celebrar as liturgias, alguns cristãos leigos japoneses conseguiram sobreviver e, clandestinamente, transmitiram a fé e a tradição católica a seus filhos por nove gerações. Esta foi a época dos chamados “cristãos escondidos”, recordado com frequência pelo Papa Francisco, que considera esse período de provação como um dos dois pilares da história católica do Japão, juntamente com a época dos missionários.

Durante a visita ad Limina dos bispos japoneses ao Papa, em 2015, Francisco afirmou que, apesar de pequena, a comunidade católica do Japão é hoje muito respeitada pelos japoneses por causa do serviço que ela presta a todos, independentemente da religião. É um ato de servir que se baseia abertamente na identidade cristã, e, por isso mesmo, um testemunho prático de cristianismo verdadeiro.

COMUNIDADE  

O operador de máquinas Massaru Edson Goto, 52, é um dos que aguarda ansioso para ver o Pontífice de perto. Filho de japoneses, Goto nasceu no Brasil e vive no Japão há 29 anos, é casado e tem três filhos. Ele mora na cidade de Honjo-Shi, na província de Saitama, a cerca de 50km de Tóquio.

Embora já tenha sido batizado no Brasil, ele começou a participar mais ativamente da vida eclesial no Japão, após passar por algumas dificuldades pessoais. Hoje ele é catequista na Paróquia Nossa Senhora da Visitação e ajuda a coordenar a comunidade católica de sua cidade.

Para o brasileiro, são grandes os desafios para professar a fé em um país onde o catolicismo é minoria. “Hoje eu não tenho vergonha de manifestar minha fé diante das pessoas. Mas não é fácil, até porque os japoneses que não são católicos não compreendem muito a nossa fé”, afirmou Goto, em entrevista ao O SÃO PAULO, por telefone.

TESTEMUNHO DE FÉ

Sobre os católicos japoneses, Goto destacou que embora sejam muito reservados, têm uma profunda fé. “São pessoas muita oração e devoção. Vivem a fé com bastante seriedade. Para eles, não há meio termo, quando dizem que são católicos são mesmo”, observou, acrescentando que os brasileiros aprendem muito com o testemunho de fé dos japoneses.

Os católicos da comunidade de Goto são acompanhados pelo bispo diocesano, Dom Mario Yamanouchi, que nasceu no Japão, mas foi para a Argentina quando pequeno,  onde ingressou na Congregação do Padres Salesianos e se tornou sacerdote. Anos depois, retornou para seu país natal e, desde julho de 2018 é Bispo de Saitama, que ficou vacante por quase cinco anos.

A diocese possui 54 paróquias, distribuídas em 11 áreas, com um total de 51 sacerdotes e cinco diáconos permanentes. Há quatro congregações masculinas e 17 congregações femininas. Também fazem parte 19 creches, quatro escolas de ensino fundamental e médio, cinco estruturas de assistência à infância e duas casas de saúde.

DESAFIOS

Ainda segundo o brasileiro, embora hoje haja liberdade religiosa no Japão, a cultura e o estilo de vida japoneses dificultam de certa forma a vivencia da fé cristã no país, sobretudo para os jovens. “Meus filhos foram criados aqui. Até uma certa idade, eles nos acompanhavam nas atividades na Igreja. A partir do momento em que eles entraram no colégio, as atividades são tantas, inclusive nos finais de semana, que praticamente não sobra tempo para ir à Igreja”, contou.

Também para os adultos, a rotina intensa de trabalhos dificulta a vivência comunitária da fé e o cumprimento do preceito dominical. Como o país é de tradição budista e xintoísta, a prática religiosa não tem forte a dimensão coletiva da religiosidade. “Um padre daqui costuma dizer que, se no passado os cristãos eram perseguidos e mortos, hoje é o excesso de atividades que nos pressionam a abandonar a fé”, relatou Goto.

PRESSÃO CULTURAL

Goto chamou a atenção também para a pressão que o mercado publicitário faz sobre os artistas e personalidades cristãs, para que não professem publicamente a sua fé ou associem sua imagem ao cristianismo. O brasileiro enfatizou que o testemunho da fé cristã no Japão exige sacrifício, para não dizer um certo martírio, por parte dos fiéis.

Por outro lado, mesmo que timidamente, o catolicismo consegue penetrar na sociedade japonesa. “O primeiro-ministro do Japão, é de origem cristã e casado com uma católica. Porém, poucos japoneses sabem disso. Também é sabido por nós, católicos, que o antigo imperador, tinha um frade franciscano como conselheiro. E os filhos imperador e dos príncipes são enviados para estudar em universidades cristãs na Europa”.

Assim como algumas personalidades artísticas que, por imposição do mercado publicitário, são orientadas a não professarem publicamente a sua fé”.

CONFIRMAR A FÉ

Por essas razões, a presença do Papa Francisco no Japão vem confirmar e fortalecer a fé dos católicos no país. Goto participará da missa que Santo Padre presidirá no estádio Tóquio Dome, em Tóquio, na segunda-feira, 25. Ele contou que foram abertas inscrições pela internet e houve um sorteio de ingressos para o estádio, que tem capacidade para 52 mil pessoas. “Nosso Bispo nos informou que não há mais vagas para a celebração”.

PROGRAMAÇÃO

Francisco permanecerá no Japão até terça-feira, 26. Sua intensa programação conta com o encontros com os bispos japoneses, jovens, sacerdotes e consagrados e missas. O pontífice também fará uma visita privada ao imperador Naruhito.

No domingo, 24, O Santo Padre irá de avião até Nagasaki e Hiroshima, conhecidas pelos dois bombardeios atômicos de 1945. O lema escolhido para a viagem é “Proteger toda a vida”.

 (Com informações de Vatican News e Aleteia)

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Papa aos tailandeses: continuem caminho dos primeiros missionários

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21 de novembro de 2019

O Papa Francisco presidiu sua primeira missa na Tailândia na noite desta quinta-feira, 21 (8h no Brasil), no Estádio Nacional, em Bangcoc. Esta foi a última atividade do segundo dia de sua 32ª Viagem Apostólica Internacional que também tem como destino o Japão.

Cerca de 65 mil pessoas participaram da Eucaristia, que foi celebrada em inglês, com leituras em tailandês.

Na homilia, o Pontífice partiu da frase o Evangelho de São Mateus: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?”, proclamado na Festa da Apresentação de Nossa Senhora, celebrada nesta data.

O Santo Padre explicou que Jesus desafiou a multidão a prestar atenção a esta pergunta, que parecia tão óbvia, e respondeu: “Todo aquele que fizer a vontade do meu Pai, que está no Céu. Este é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

DISCÍPULOS E MISSIONÁRIOS

Deste modo, disse Francisco, Jesus critica os determinismos religiosos e legais da época. No entanto, é impressionante ver no Evangelho a variedade de perguntas que perturbam, despertam e convidam os discípulos a pôr-se a caminho e a descobrir a verdade, capaz de gerar a vida. Isso, afirmou o Papa, serve para abrir o coração e renovar a nossa vida e a da comunidade.

“Assim aconteceu com os primeiros missionários, que partiram e chegaram a estas terras: ao ouvir a Palavra do Senhor e responder aos seus pedidos, puderam perceber que pertenciam a uma família bem maior do que a gerada pelos laços de sangue, cultura, região ou pertença a um determinado grupo”, acrescentou o Santo Padre.

O Pontífice salientou, ainda, que impelidos pela força do Espírito e repletos de esperança, que nasce da boa nova do Evangelho, os missionários se puseram a caminho para conhecer os membros desta sua família que ainda não conheciam. Mas, tiveram que abrir o coração a uma nova realidade, superar todos os obstáculos e divisões, para encontrar as mães e irmãos tailandeses, que não frequentavam a Igreja.

“Sem este encontro, faltaria o rosto do Cristianismo, os cânticos e as danças, que representam o sorriso típico dos tailandeses e seu contexto cultural. O discípulo missionário não é um mercenário da fé nem um caçador de prosélitos, mas um mendigo que reconhece que lhe faltam os irmãos, as irmãs e as mães com quem celebrar e festejar o dom da reconciliação, que Jesus oferece a todos”, completou o Papa.

350 ANOS DE EVANGELIZAÇÃO

Francisco recordou os 350 anos da criação do Vicariato Apostólico de Sião. Na época, eram apenas dois missionários que lançaram a semente do Evangelho, que, desde então, cresceu e desabrochou em uma variedade de iniciativas apostólicas, que contribuíram para a vida da nação.

O Papa concluiu a homilia reforçando: “Todos somos discípulos missionários, quando fazemos parte viva da família do Senhor, como Ele o fez”. Ele acrescentou que o discípulo missionário sabe que a evangelização não é contar com a adesão dos poderosos, mas abre as portas para viver e partilhar do abraço misericordioso e mediador de Deus Pai. Assim, ele exortou a comunidade tailandesa a continuar o caminho iniciado há 350 anos pelos primeiros missionários.

Na sexta-feira, 22, o Pontífice se encontrará  com sacerdotes, religiosos, seminaristas e catequistas, e depois com os bispos tailandeses e asiáticos, na paróquia de São Pedro e na adjacente Igreja do Santuário, intitulado ao Beato Nicolas Bunkerd Kitbamrung.

Os dois últimos compromissos serão o encontro com os líderes cristãos e de outras religiões, e depois a Santa Missa com os jovens na catedral da Assunção de Bangcoc. No sábado, dia 23, Francisco seguirá para o Japão, onde ficará até o dia 26.

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Papa deseja confirmar a fé e o diálogo pela paz na Tailândia

(Fotos: Vatican Media)

 

 

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Papa deseja confirmar a fé e o diálogo pela paz na Tailândia

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21 de novembro de 2019

O Papa Francisco desembarcou nesta quarta-feira, 20, em Bangcoc, na Tailândia, onde permanece até sábado, 23, para a primeira etapa de sua 32ª viagem apostólica que também tem como destino o Japão.

Confirmar na fé o pequeno rebanho de fiéis, apoiar o diálogo e o encontro inter-religioso e promover a paz e a tutela da vida e do ambiente, são as linhas guias do sucessor de Pedro que em ambos os países segue as pegadas de seu predecessor São João Paulo II.

O Pontífice foi acolhido por autoridades civis e eclesiásticas do país do sudeste asiático. Em seguida, foi conduzido à Nunciatura Apostólica, onde foi recebido por um grupo de seminaristas, noviças, religiosas, além de jovens da paróquia vizinha, que em vestes tradicionais dançaram o Santo Padre. No caminho do aeroporto para a Nunciatura, Francisco sentiu a calorosa acolhida dos tailandeses.

HOSPITALIDADE

Na manhã da quinta-feira, 21 (ainda noite de quarta-feira no Brasil), o Papa participou da cerimonia de boas vindas  na Casa do Governo da Tailândia, onde será recebido pelo primeiro-ministro, Prayuth Chan-ocha, autoridades, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático.

“Sou grato pela oportunidade de estar aqui entre vocês e de poder visitar esta terra, rica de tantas maravilhas naturais, e esplendidamente guardiã de tradições espirituais e culturais ancestrais como a hospitalidade, que hoje experimento em primeira pessoa e da qual gostaria de assumir a responsabilidade de propagar e aumentar os laços de maior amizade entre os povos”, afirmou Francisco, em seu breve discurso.

DIÁLOGO COM BUDISTAS

Depois, o Pontífice foi até o templo Wat Ratchabophit Sathit Maha Simaram, onde se encontrou com o patriarca supremo dos budistas, Somdej Phra Maha Muneewong.

Em seu discurso, o Santo Padre ressaltou que aquele templo é “símbolo dos valores e ensinamentos” que caracterizam o povo da Tailândia. E lembrou das palavras de João Paulo II ao afirmar: “Foi nas fontes do budismo que a maioria dos tailandeses bebeu e modelou a sua maneira de venerar a vida e os seus idosos, realizar um estilo de vida sóbrio baseado na contemplação, desapego, trabalho duro e disciplina (cf. São João Paulo II, Ecclesia in Asia, 6/11/1999); caraterísticas que alimentam o traço distintivo de vocês, tão peculiar: o povo do sorriso”.

O papa também recordou o caminho de diálogo e reconhecimento mútuo dos antecessores das duas tradições religiosas, como os 50 anos da visita do 17º  Patriarca Supremo, Somdej Phra Wanarat a São Paulo VI no Vaticano.

Anos depois, em 1984, São João Paulo II visitou o Patriarca Supremo, Somdej Phra Ariyavongsagatanana, na Tailândia.

IGREJA NA TAILÂNDIA

Francisco também fez referencia à chegada do cristianismo na Tailândia, há cerca de quatro séculos e meio, e agradeceu ao povo local que “permitiu aos católicos, mesmo sendo um grupo minoritário, desfrutar de liberdade na prática religiosa, vivendo desde há muitos anos em harmonia com os seus irmãos e irmãs budistas”.

O Pontífice reiterou “empenho pessoal e de toda a Igreja” para fortalecer o diálogo aberto e respeitoso. Além disso, e motivando para um crescimento no estilo de ‘boa vizinhança’, o Papa finalizou o discurso encorajando novos caminhos a serem percorridos em conjunto e pelo bem dos mais pobres e da Casa Comum. “Se somos irmãos, podemos ajudar a paz mundial”, os pobres e os que sofrem, disse o Papa, porque “ajudar os pobres é sempre um caminho de bênção”, disse.

VISITA AO HOSPITAL

O Papa Francisco também visitou o Hospital St. Louis, fundado pelos católicos em 1898 e agora centro médico de excelência. O Pontífice se encontrou com a equipe médica e com um grupo de pacientes.

Após a saudação do diretor da hospital, o Papa Francisco tomou a palavra, manifestando que, para ele, “é uma bênção contemplar pessoalmente este precioso serviço que a Igreja oferece ao povo tailandês, especialmente aos mais necessitados”.

O Santo Padre enfatizou que o serviço prestado na instituição é uma das maiores obras de misericórdia, porque o compromisso sanitário vai muito além de um simples e louvável exercício da medicina. “Deveis ir mais além, abertos ao imprevisto, ou seja, acolher e abraçar a vida como chega à urgência do hospital para ser atendida com uma compaixão especial, que brota do amoroso respeito pela dignidade de todos os seres humanos”.

“Sei que o vosso serviço pode, às vezes, ser pesado e extenuante; viveis no meio de situações extremas, e isto requer que possais ser acompanhados e assistidos no vosso trabalho. Daí a importância de desenvolver uma pastoral da saúde, na qual não só os pacientes, mas todos os membros desta comunidade possam sentir-se acompanhados e sustentados na sua missão”, acrescentou o Papa.

PRÓXIMAS ATIVIDADES

A programa da viagem apostólica nesta quinta-feira também incluiu uma visita privada do Pontífice a Sua Majestade o Rei Maha Vajiralongkorn “Rama X” e a família real tailandesa.

À noite (8h no Brasil), o Santo Padre celebrou sua primeira missa na Tailândia, no Estádio Nacional, com a participação de 65 mil pessoas.

A programação da sexta-feira, 22, será dedicada, antes de tudo, ao encontro do Papa com sacerdotes, religiosos, seminaristas e catequistas, e depois com os bispos tailandeses e asiáticos, na paróquia de São Pedro e na adjacente Igreja do Santuário, intitulado ao Beato Nicolas Bunkerd Kitbamrung.

Os dois últimos compromissos serão o encontro com os líderes cristãos e de outras religiões, e depois a Santa Missa com os jovens na catedral da Assunção de Bangcoc. No sábado, dia 23, Francisco seguirá para o Japão, onde ficará até o dia 26.

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Papa aos tailandeses: continuem caminho dos primeiros missionários

(Com informações de Vatican News - fotos: Vatican Media)

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‘Não são números, são pessoas que devemos encontrar’

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10 de novembro de 2019

No dia 17, a Igreja comemora o Dia Mundial dos Pobres. A data foi instituída pelo Papa Francisco na conclusão do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, em 2016. Na ocasião, o Pontífice definiu que o 33º Domingo do Tempo Comum seja ocasião de as comunidades católicas e cada batizado refletirem “como a pobreza está no âmago do Evangelho”. 
Para este ano, o Santo Padre escreveu uma mensagem com o título “A esperança dos pobres jamais se frustrará” (Sl 9,19). No texto, Francisco assinala que, assim como no período da redação do salmo, hoje se assiste a um grande desenvolvimento econômico, que, por vezes, gera “fortes desiquilíbrios sociais”, situação de exploração e “escravidão”. 

ESCRAVIDÕES

Em seguida, o Pontífice elencou muitas novas formas de escravidões às quais estão submetidas milhões de pessoas de diferentes idades. 
“Todos os dias, encontramos famílias obrigadas a deixar a sua terra à procura de formas de subsistência em outro lugar; órfãos que perderam os pais ou foram violentamente separados deles para uma exploração brutal; jovens em busca de uma realização profissional, cujo acesso lhes é impedido por míopes políticas econômicas; vítimas de tantas formas de violência, desde a prostituição à droga, e humilhadas no seu íntimo. Além disso, como esquecer os milhões de migrantes, vítimas de tantos interesses ocultos, muitas vezes instrumentalizados para uso político, a quem se nega a solidariedade e a igualdade? E tantas pessoas sem abrigo e marginalizadas que vagueiam pelas estradas das nossas cidades?”, destacou o Papa.
O Santo Padre também chamou a atenção para a situação de extrema miséria dos pobres vistos nos lixões à procura do “descarte do supérfluo, a fim de encontrar algo para se alimentar ou vestir”.  Francisco afirmou, ainda, que essas pessoas são tratadas como lixo. 

DESCOBRIR A BONDADE 

“Queridos irmãos e irmãs, exorto-vos a procurar, em cada pobre que encontrais, aquilo de que ele tem verdadeiramente necessidade; a não vos deter na primeira necessidade material, mas a descobrir a bondade que se esconde no seu coração, tornando-vos atentos à sua cultura e modos de se exprimir, para poderdes iniciar um verdadeiro diálogo fraterno”, continuou o Papa.
O Pontífice também recordou que “a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual”. 
“Antes de tudo, os pobres precisam de Deus, do seu amor tornado visível por pessoas santas que vivem ao lado deles e que, na simplicidade da sua vida, exprimem e fazem emergir a força do amor cristão.”
“Deixemos de parte as estatísticas; os pobres não são números que invocamos para nos vangloriar de obras e projetos. Os pobres são pessoas que devemos encontrar: são jovens e idosos sozinhos que se hão de convidar a entrar em casa para partilhar a refeição; homens, mulheres e crianças que esperam uma palavra amiga. Os pobres salvam-nos, porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo”, reforçou Francisco. 

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Documento final: conversão integral, pastoral, ecológica e sinodal

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31 de outubro de 2019

Conversão, missionariedade, defesa da vida e da criação são as palavras-chave do Documento Final da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, aprovado e divulgado no sábado, 26. 
No texto, que não é deliberativo, mas apenas consultivo, os padres sinodais fazem um diagnóstico sobre a realidade dos povos amazônicos e apresentam ao Papa sugestões para a ação evangelizadora da Igreja nessa região. 
O jornal O SÃO PAULO apresenta a seguir uma síntese dos principais assuntos do documento: 

CAPÍTULO I
Conversão integral

O texto ressalta a beleza da vida na Amazônia, que hoje é “ferida e deformada” pela dor e violência. Dentre as ameaças elencadas, estão: apropriação e privatização dos bens da natureza; modelos predatórios de produção; desmatamento; poluição das indústrias extrativistas; mudanças climáticas; narcotráfico; alcoolismo; tráfico de seres humanos; a criminalização de líderes e defensores do território; grupos armados ilegais. 
Migração – O crescente fenômeno migratório também está presente no texto, que indica três níveis: mobilidade de grupos indígenas em territórios de circulação tradicional; deslocamento forçado de populações indígenas; migração internacional e refugiados.
Os bispos reforçam que é necessário um cuidado pastoral nas regiões de fronteira, voltado para os migrantes e vítimas do tráfico humano. Em relação ao deslocamento forçado de famílias indígenas para os centros urbanos, sugere-se a criação de equipes missionárias que favoreçam a integração dessas comunidades nas cidades.

CAPÍTULO II
Conversão pastoral

Enfatizando a natureza missionária da Igreja, o documento recorda que a comunidade eclesial deve ser “samaritana”, indo ao encontro de todos; “Madalena”, amada e reconciliada para anunciar com alegria o Cristo ressuscitado; e “Mariana”, geradora de filhos para a fé entre os povos a que serve.
A assembleia sinodal não deixa de mencionar os muitos missionários que deram a vida para anunciar o Evangelho na Amazônia e sugere que as congregações religiosas do mundo estabeleçam pelo menos um posto missionário em um dos países da Amazônia. 
Ecumenismo – O documento considera o diálogo ecumênico e inter-religioso como “caminho indispensável da evangelização na Amazônia”. Reconhece que “as relações entre católicos e pentecostais, carismáticos e evangélicos não são fáceis” na região. “O fato de que alguns fiéis católicos se sintam atraídos por essas comunidades é motivo de atrito, mas pode converter-se, da nossa parte, em um motivo de exame pessoal e renovação pastoral”, aponta-se no texto. 
No âmbito inter-religioso, o documento incentiva um maior conhecimento das tradições religiosas dos povos locais, a fim de que cristãos e não cristãos possam agir juntos em defesa da “casa comum”. 
Indígenas e jovens – O documento também recorda a urgência de uma pastoral indígena que tenha um lugar específico na Igreja, especialmente para os jovens, imersos em uma crise de valores, vítimas da pobreza, violência, desemprego, novas formas de escravidão e dificuldade de acesso à educação. Muitos desses, alertam os bispos, acabam na prisão ou até no suicídio.
O texto conclusivo do Sínodo também se dedica ao tema da pastoral urbana, com um foco particular nas famílias, que, sobretudo nas periferias, sofrem com a pobreza, desemprego, falta de moradia e problemas de saúde. 

CAPÍTULO III
Conversão cultural

Para os padres sinodais, inculturação e interculturalidade são instrumentos importantes para alcançar uma conversão cultural que leva o cristão a ir ao encontro do outro e aprender com ele. 
Na perspectiva da inculturação, é dado espaço à piedade popular, cujas expressões devem ser valorizadas, acompanhadas, promovidas e, às vezes, “purificadas”, pois são momentos privilegiados de evangelização que devem conduzir ao encontro com Cristo.
O documento propõe que os centros de pesquisa da Igreja estudem e recolham as tradições, as línguas, as crenças e as aspirações dos povos indígenas, encorajando o trabalho educativo a partir da sua própria identidade e cultura.

CAPÍTULO IV
Conversão ecológica

A expressão conversão ecológica teve grande destaque neste Sínodo, que indica a ecologia integral, apontada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’, como o único caminho possível para a Amazônia. A esperança é que, reconhecendo “as feridas causadas pelo ser humano” ao território, sejam procurados “modelos de desenvolvimento justo e solidário”.  
O documento reafirma o empenho da Igreja em defender a vida “desde a concepção até o seu fim” e em promover o diálogo intercultural e ecumênico para conter as estruturas de morte, pecado, violência e injustiça. 
Os padres sinodais propõem a definição de “pecado ecológico” como “ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade, o meio ambiente”, as futuras gerações e a virtude da justiça.

CAPÍTULO V
Conversão sinodal     

Superar o clericalismo e as imposições arbitrárias, reforçar uma cultura do diálogo, da escuta e do discernimento espiritual e responder aos desafios pastorais são características apontadas pelo documento para definir a conversão sinodal à qual a Igreja é chamada na Amazônia.
Ministérios – Incentiva-se maior participação dos leigos na vida e missão da Igreja, que deve ser reforçada e ampliada a partir da promoção e concessão de ministérios leigos a homens e mulheres. Pedem, inclusive, que se estude a concessão do leitorato e do acolitato a mulheres, ministérios que até o momento só são concedidos a homens leigos. 
O Sínodo aposta, ainda, em uma vida consagrada com rosto amazônico, a partir de um reforço das vocações 
autóctones. 
Foram definidos como urgentes a promoção, formação e apoio aos diáconos permanentes, salientando importância de insistir em uma formação contínua, marcada pelo estudo acadêmico e prática pastoral, na qual sejam envolvidos também esposas e filhos do candidato.
O documento relata que em inúmeras consultas foi solicitado “o diaconato permanente para as mulheres”. O desejo dos padres sinodais é que sejam compartilhadas as experiências e reflexões emergidas até agora com a “Comissão de estudo sobre o diaconato das mulheres”, criada pelo Papa Francisco em 2016, para “aguardar seus resultados”.
Eucaristia e sacerdócio – Ao refletirem sobre a centralidade da Eucaristia à vida cristã, os padres sinodais ressaltaram a dificuldade de algumas comunidades terem acesso a este sacramento, assim como à Reconciliação e à Unção dos Enfermos, devido à falta de sacerdotes. 
Reforçando o apreço pelo celibato como dom de Deus e renovando a oração “para que haja muitas vocações” celibatárias, o documento final propõe “estabelecer critérios e regras por parte da autoridade competente, para ordenar sacerdotes homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, permitindo ter uma família legitimamente constituída e estável”. O documento reitera, contudo, que, a esse propósito, “alguns se expressaram a favor de uma abordagem universal ao argumento”.
Rito amazônico – O Sínodo também pede a constituição de uma comissão competente para estudar a elaboração de um rito amazônico, que se acrescentaria aos 23 ritos já existentes na Igreja Católica. De igual modo, expressa a urgência de formar comitês para a tradução e a elaboração de textos bíblicos e litúrgicos nas línguas dos diferentes locais, “preservando a matéria dos sacramentos e adaptando-os à forma, sem perder de vista o essencial”. 

(Com informações de Vatican News)

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Papa exorta novos bispos à proximidade com Deus e com o povo

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12 de setembro de 2019

O Papa Francisco recebeu na manhã desta quinta-feira, 12, no Vaticano, os bispos de recente nomeação participantes do curso anual promovido pelo pelas congregações para os Bispos e para as Igrejas Orientais, entre os dias 4 e 12.

Dos 13 prelados brasileiros participantes estavam Dom José Benedito Cardoso, Bispo Auxiliar de São Paulo nomeado em 23 de janeiro, e o Monsenhor Jorge Pierozan, nomeado Bispo Auxiliar de São Paulo em 24 de julho.

PRÓXIMOS DE DEUS E DO POVO

Em seu discurso, o Santo Padre destacou a palavra “proximidade” como atitude essencial para os bispos.

Francisco explicou que proximidade a Deus é a fonte do ministério do Bispo. Para isso, o Bispo deve cultivar a intimidade com Cristo diariamente na oração. “Somente estando com Jesus somos preservados da presunção pelagiana de que o bem deriva da nossa capacidade”, afirmou o Pontífice.

O Papa também ressaltou a proximidade do bispo com o seu povo. Ele advertiu que a proximidade ao povo não é uma estratégia oportunista, mas a condição essencial do ministro ordenado. “Não é uma obrigação externa, mas uma exigência interna à lógica do dom”, continuou.

DISPONIBILIDADE

Ainda de acordo com Francisco, a proximidade do Bispo, não é retórica, não é feita de anúncios autorreferenciais, mas de disponibilidade real. É preciso deixar-se surpreender e aprender verbos concretos, como ver, cuidar e curar. É colocar-se em jogo e sujar as mãos.

“Por favor, não deixem que prevaleçam os temores pelos riscos do ministério, retraindo-se e mantendo as distâncias”, pediu o Bispo de Roma.

SIMPLICIDADE

O Santo Padre exortou os bispos a levarem uma vida simples testemunhando que Jesus basta em suas vidas. Ele afirmou que são necessários bispos capazes de sentir o palpitar de suas comunidades e de seus sacerdotes, que não se contentem de presenças formais, mas que sejam “apóstolos da escuta”. “Por favor, não se circundem de bajuladores”, recomendou.

Por fim, o Papa encorajou as visitas pastorais regulares e uma proximidade especial aos sacerdotes. “Também eles estão expostos às intempéries de um mundo que, mesmo cansado das trevas, não poupa hostilidade à luz. Eles precisam ser amados, seguidos e encorajados.”

 

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‘A Economia de Francisco’

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19 de julho de 2019

O Vaticano planeja, de 26 a 28 de março de 2020, um encontro de economistas, empresários e outros especialistas da área para pensar sobre como promover um sistema econômico mais humano. O evento ocorrerá na cidade de Assis (Itália), a pedido do Papa Francisco. E, também a pedido dele, muitos jovens comparecerão. As informações sobre o evento serão publicadas no site: www.francescoeconomy.org.
Pensando nisso, O SÃO PAULO conversou com o Padre jesuíta português Andreas Lind, formado em Economia e articulista do site “Ponto SJ”, para entender o que define o ensinamento do Papa Francisco sobre a economia. 

O São Paulo – Qual é o papel do dinheiro na vida do cristão?
Padre Andreas Lind – Jesus nos diz que não é possível servir “a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). Se vivermos com o objetivo de fazer cada vez mais dinheiro, usando das nossas forças, dos nossos talentos, das nossas relações, tendo em vista apenas esse fim, caímos na idolatria, porque nos tornamos escravos do dinheiro.
Isso não significa que o dinheiro seja mau em si mesmo, ou que as atividades empresariais lucrativas devam ser rejeitadas. Pelo contrário, devem ser estimuladas e postas a serviço do Reino, onde vigora a lei da caridade. O dinheiro é um meio indispensável para a nossa vida social e para o nosso desenvolvimento coletivo. Devemos saber geri-lo e partilhá-lo em prol do bem comum.

Então, como devemos interpretar a passagem do Evangelho: “é mais fácil passar um camelo numa agulha do que um rico entrar no reino dos céus” (Mt 19,24)?
Eis uma passagem muito discutida pelos exegetas bíblicos, sobretudo no que diz respeito às palavras “agulha” e “camelo”, que provavelmente teriam significados, na cultura de Jesus, que hoje não abarcamos imediatamente.
No entanto, tendo em conta o contexto onde a citação surge, percebemos que essas palavras vêm no seguimento do apelo que Jesus lança ao jovem rico: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” (Mt 19,21).
Jesus fala da dificuldade dos ricos em entrar no Reino, referindo-se a alguém que tem muito e que não é capaz de partilhar, a ponto de se fechar aos outros e de perder a comunhão com Jesus e com o próximo. Jesus não critica o fato de o jovem rico ter muitas coisas; apenas lamenta a falta de liberdade que o impede de partilhar.

Como podemos definir a “Economia do Papa Francisco”?
O Papa Francisco não pretende substituir os especialistas em economia. Limita-se a anunciar a Doutrina Social da Igreja, nomeadamente o princípio do “destino universal dos bens” e a “opção preferencial pelos pobres”. É por fidelidade à Igreja, e não a uma ideologia política, que o Papa denuncia o perigo de uma “economia que mata” (Evangelii Gaudium 53).
Com isso, ele procura colocar a economia a serviço do desenvolvimento integral do ser humano, em vez de o escravizar em função de um crescimento puramente financeiro, cujos beneficiários são poucos e cujos efeitos podem ser nefastos para as próximas gerações. Francisco não menospreza as potencialidades positivas da “atividade empresarial” (Laudato Si’ 129).
Denuncia apenas o perigo de se absolutizar a racionalidade que procura exclusivamente o lucro, mesmo em detrimento de outros valores que confluem para o desenvolvimento do homem e das suas sociedades. Creio que a influência da teologia argentina do povo explica o distanciamento, da parte de Francisco, quer do liberalismo, quer do socialismo marxista.

Por que a Igreja precisa falar de economia?
Para Marx, a religião é negativa – uma alienação – e nos afasta da realidade presente onde nos situamos: se a fé no Paraíso futuro nos imobilizar na miséria, na injustiça, ou nos incapacitar de lutar pela transformação da realidade presente, então a religião se reduz a um “ópio do povo”. 
Porém, antes de assumir a Cátedra de Pedro, Jorge Mario Bergoglio assumiu a seriedade dessa crítica (como fica claro no livro “Sobre el Cielo y la Tierra”, de 2012), enfatizando que, ao contrário do que diz Marx, a fé, como encontro com Jesus, nos compromete com a justiça no presente. A preocupação da Igreja com as questões econômicas ou políticas brota desse compromisso com o Reino de Deus ao qual Jesus nos chama sempre aqui e agora.

Qual a razão de o Papa convocar esse encontro em Assis?
Em primeiro lugar, inspirado na figura de São Francisco, para quem todas as criaturas eram como irmãs, o encontro “A Economia de Francisco” procura responder à urgência dos nossos tempos: hoje sentimos uma fragilidade coletiva pelo fato de o nosso sistema econômico, aliado a um estilo de vida excessivamente consumista, poder pôr em risco a sustentabilidade do planeta, a nossa “casa comum”.
Em segundo lugar, esse encontro se alarga para além da esfera meramente eclesial, pois a gravidade do problema exige a capacidade de unir sinergias, estabelecendo uma cooperação ou um diálogo entre pessoas de credos diferentes e entre diversas esferas da sociedade. 

Quais as semelhanças entre a Laudato si’, de Francisco, e a Caritas in veritate, de Bento XVI?
Francisco cita muito Bento XVI. Enquanto o atual Papa insiste muito na dimensão da “misericórdia”, o seu predecessor não se cansava de falar no “amor” (caritas). Ambos sonham com a possibilidade do dom, da gratuidade, ter um lugar nas relações econômicas. Concretamente, na Laudato Si’ (LS), a encíclica Caritas in Veritate (CV) é 12 vezes diretamente citada.
Por um lado, ambos chamam a atenção para a necessidade de mudar de “estilo de vida”, apelando à “responsabilidade social dos consumidores”, pois “comprar é sempre um ato moral” (LS, 206; CV, 66).
Por outro lado, em um nível mais macroeconômico, Bento XVI insiste nos temas perenes do atual pontificado: “Como afirmou Bento XVI, na linha desenvolvida até agora pela Doutrina Social da Igreja, «para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e consequentes maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios, urge a presença de uma verdadeira autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, João XXIII»” (LS175).

Como a Igreja nos propõe conciliar as liberdades individuais e a busca pelo bem comum?
Segundo o relato bíblico da Criação, Deus confere ao homem o mandato de “dominar” ou “administrar” os outros seres do mundo (cf. Gn 1, 26-28), por um lado, e, por outro, de agir como um jardineiro que “cultiva” e que “guarda” (cf. Gn 2,15).
A imagem do administrador, complementada com a figura do jardineiro, conduz-nos a um enorme respeito pelo planeta na multiplicidade dos seus seres. Não se trata de “dominar” e de “subjugar” o mundo com desdém, mas de estar afetivamente ligado a toda a criação, deixando-se surpreender pelo dom que é habitar o mundo e viver enquanto homem ou mulher.
Sendo assim filhos de Deus, devemos assumir a responsabilidade de exercer o dom da liberdade que temos na administração dos bens de que dispomos e com os quais vivem

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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Papa afirma que educar exige amor

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10 de abril de 2019

No sábado, 6, o Papa Francisco concluiu uma série de audiências ao receber, na Sala Paulo VI, no Vaticano, cerca de 2,6 mil estudantes e professores do Colégio São Carlos de Milão, por ocasião dos seus 150 anos de atividades.

Fundada em Milão em 1869, trata-se de uma escola particular, cujo objetivo sempre foi “treinar almas ricas, com uma cultura saudável, preservando-as da falta de religião”. Um de seus alunos mais notáveis foi Achille Ratti, que depois se tornaria o Papa Pio XI.

No lugar do tradicional discurso, Francisco preferiu responder a algumas perguntas do público, formado por alunos, pais e professores.

 

DEUS NÃO FAZ DISTINÇÕES

A primeira pergunta foi feita pelo aluno Adriano: “O que nós e a escola podemos fazer concretamente pelas pessoas menos favorecidas que nós? Por que parece que Deus tem preferências?”

A resposta do Papa foi a seguinte: “Há perguntas que não têm nem terão respostas. Devemos nos habituar a isso (...). Somos nós quem fazemos distinções. Nós somos artífices das diferenças e, inclusive, diferenças de dor, de pobreza. Por que hoje no mundo existem tantas crianças famintas? Por que Deus faz esta distinção? Não! Quem o faz é o sistema econômico injusto.”

“Não se trata de ser comunista” – acrescentou Francisco –, “mas é o ensinamento de Jesus. Devemos sempre fazer perguntas incômodas. Nós cresceremos e nos tornaremos adultos com a inquietação no coração. E depois devemos estar conscientes de que somos nós que fazemos as distinções”.

 

CONCILIAR VALORES

A seguir, uma professora, Sílvia, disse ao Papa: “Como podemos transmitir melhor, aos nossos alunos, os valores enraizados na cultura cristã e conciliá-los com outras culturas?”

Francisco respondeu: “Aqui a palavra-chave é ‘enraizados’. E, para ter raízes, são necessárias duas coisas: consistência e memória. O mal de hoje, segundo os analistas, é – seguindo a escola de Bauman – a liquidez. (...) Regar as raízes com o trabalho, com o confronto com a realidade, mas crescer com a memória das raízes”.

 

EDUCAR COM AMOR

Uma terceira pergunta foi dirigida a Francisco por outra professora, Júlia: “Como nós, educadores e estudantes, podemos dar exemplo e testemunho da nossa nobre, mas difícil tarefa?”

Para o Papa, as palavras-chave são testemunho e sustento. O educador deve confrontar-se continuamente com a realidade, “sujar as mãos”, “arregaçar as mangas”. “O testemunho é não ter medo da realidade.” Já o sustento significa “doçura”. “Não se pode educar sem amor. Não é possível ensinar palavras sem gestos, e o primeiro gesto é o carinho: acariciar os corações, acariciar as almas. E a linguagem da carícia qual é? A persuasão. Educa-se não com escribas, não com segurança, mas com a paciência da persuasão. ”

 

'SÍNDROME DO NINHO VAZIO'

Por fim, a mãe de um aluno, Marta, também dirigiu sua palavra ao Papa, pedindo um parecer a respeito de como acompanhar e orientar seus filhos em suas escolhas futuras.

Francisco aconselhou os pais a não sofrerem da “síndrome do ninho vazio”. “Vocês, pais, não devem ter medo da solidão, não tenham medo! É uma solidão fecunda. E pensem nos muitos filhos que estão crescendo e estão fazendo outros ninhos, culturais, científicos, de comunhão política e social. É preciso proximidade com os filhos para ajudá-los a caminhar.”

Fonte: Vatican News
 

Francisco: ‘a Crisma é o sacramento da fortaleza, não do adeus à Igreja’

A tarde de domingo, 7, foi de oração, reflexão e festa para os fiéis da paróquia romana de São Júlio, situada no bairro de Monteverde, que recebeu a visita do Papa Francisco.

Ao responder a algumas perguntas, sendo uma delas a respeito das dúvidas acerca da fé, afirmou: “Devemos apostar numa coisa: na fidelidade de Jesus. Jesus é fiel, o único totalmente fiel. Não devemos ter medo da fidelidade”, disse o Papa a uma animadora catequética.

“Ensine os jovens a duvidar. Em Roma, diz-se que a Crisma é o sacramento do adeus; isso acontece porque os jovens não sabem como administrar as dúvidas. Mas a Crisma deve ser o sacramento da fortaleza que o Espírito Santo nos dá.”

O Papa confidenciou que chegou a duvidar da fé diante das calamidades e dos acontecimentos de sua vida, mas afirmou que não se sai sozinho das dúvidas, que é necessário a companhia de uma pessoa que ajude a ir avante, além da intimidade com Jesus.

Fonte: Vatican News
 

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Papa vai ao Marrocos e reforça os laços entre cristãos e muçulmanos

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10 de abril de 2019

Em uma viagem de dois dias durante o fim de semana, 30 e 31 de março, o Papa Francisco celebrou a maior missa na história do Marrocos, para 10 mil fiéis. Na ocasião, o Pontífice encontrou-se com migrantes, assinou uma declaração conjunta com o rei do País, Mohammed VI, sobre o valor religioso da cidade de Jerusalém e reforçou os laços de amizade e irmandade com a comunidade muçulmana.

 

MISSA NO GINÁSIO MOULAY ABDELLAH

Ao refletir sobre o Evangelho que narra a história do “filho pródigo”, no domingo, 31, na cidade de Rabat, o Santo Padre apontou para a frequente incapacidade de as pessoas perdoarem os irmãos, assim como falhas em garantir “que ninguém fique de fora”. No entanto, conforme a parábola, o pai é misericordioso com o filho que esteve distante, pecador, mas que resolve voltar e se reunir à família.

“São tantas as circunstâncias que podem alimentar divisão e confronto, são inegáveis as situações que podem nos levar a nos dividirmos”, pois “a experiência nos diz que o ódio, a divisão e a vingança só conseguem matar a alma dos nossos povos, envenenar a esperança de nossos filhos e levar consigo tudo o que amamos”.

 

COM OS IMIGRANTES

Os cristãos chegaram ao Marrocos pela primeira vez entre o segundo e o terceiro séculos, mas hoje restou apenas uma pequena minoria no País, que é majoritariamente muçulmano.

Logo depois de ter sido acolhido pelo rei marroquino, o Papa se reuniu com migrantes acolhidos por centros da Caritas no País. A maioria dos migrantes provém de outros países africanos, visto que o Marrocos está localizado no norte da África. Muitos partem dali na travessia do Mediterrâneo rumo à Europa.

Na ocasião, o Papa agradeceu aos missionários que ajudam os migrantes no Marrocos e ouviu testemunhos. Francisco chamou o fenômeno das migrações de “uma grande ferida” do século XXI. “Não queremos que a indiferença e o silêncio sejam a nossa palavra”, disse.

O Papa lembrou, ainda, da Conferência de Marrakesh, realizada em dezembro de 2018, na qual adotou-se um pacto global, após 18 meses de negociações, para que as migrações sejam “seguras, ordenadas e regulares”. Ele insistiu: “O que está em jogo é o rosto que queremos dar a nós mesmos, como sociedade, e o valor de cada vida [humana]”.

 

JERUSALÉM, CIDADE SANTA

Também no sábado, Francisco assinou uma declaração conjunta com o rei Mohammed VI, na qual ambos reconhecem o inigualável valor religioso da cidade de Jerusalém para as três principais religiões monoteístas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.

“Consideramos importante preservar a cidade santa de Jerusalém/Al Qods Acharif como patrimônio comum da humanidade e, sobretudo, para os fiéis das três religiões”, diz o texto, demonstrando o desejo de que a cidade permaneça sendo local “de encontro e símbolo de coexistência pacífica”. Por sua riqueza histórica, cultural e religiosa, Jerusalém é tida como uma cidade de “peculiar identidade”. O Papa e o rei muçulmano pedem que o acesso à cidade seja garantido a todos os fiéis das três religiões.

 

OUTROS ENCONTROS

Como de praxe, o Santo Padre se reuniu com autoridades locais, civis e religiosas, membros do clero e pessoas consagradas que atuam no Marrocos. Ele também visitou uma obra social administrada pela Congregação das Filhas da Caridade.

Aos consagrados, recordou a importância de difundir a fé cristã não só por meio do convencimento ou proselitismo, mas especialmente por meio do testemunho de vida. Entre os missionários que cumprimentou, estava o monge trapista Jean-Pierre Schumacher, o único sobrevivente do famoso massacre de Tibhirine, na Argélia, quando sete monges foram assassinados brutalmente dentro do mosteiro, durante a guerra civil, em 1996.

 

CONSTRUIR PONTES, NÃO MUROS

Durante o voo de retorno a Roma, no domingo, o Papa concedeu a tradicional coletiva de imprensa. Conforme transcrição publicada por Andrea Tornielli no site Vatican News, Francisco comentou a relação entre cristãos e muçulmanos, a questão migratória, o problema dos abusos sexuais e de poder cometidos por membros do clero, e os riscos do surgimento de novas ditaduras políticas.

A frase que mais repercutiu na imprensa internacional diz respeito à fraternidade entre cristãos e muçulmanos. “Ainda há dificuldades”, reconheceu, dizendo que em todas as religiões há grupos extremistas. Porém, “quem constrói muros terminará prisioneiro dos muros que construiu. Em vez disso, aqueles que constroem pontes seguirão em frente”, declarou.

 

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‘Cristo vive’: jovens são o destaque em nova exortação apostólica de Francisco

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03 de abril de 2019

“Cristo vive: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Por isso, as primeiras palavras, que quero dirigir a cada jovem cristão, são estas: Ele vive e quer-te vivo!”

Assim começa a mais recente Exortação Apostólica pós-sinodal do Papa Francisco, Christus vivit (em Português, “Cristo vive”), divulgada intencionalmente pelo Vaticano, na terça-feira, 2, quando se fez memória dos 14 anos da morte de São João Paulo II. O documento, composto por nove capítulos divididos em 299 parágrafos, é destinado “aos jovens e a todo o povo de Deus”. Sua intenção é desafiar as novas gerações a sair de si mesmas e se entregar “aos outros”, de maneira altruísta e fecunda. Além disso, também quer suscitar na juventude a descoberta da própria vocação.

O documento é fruto da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, ocorrida em outubro de 2018, que tratou da relação entre os jovens e a Igreja Católica. Sua realização foi precedida por pesquisas globais abrangentes, oportunidades para ouvir e acolher a opinião de milhares de pessoas do mundo todo, de diversas realidades e locais, entre crentes e não crentes, e, assim, esboçar um panorama dos anseios dos jovens da atualidade.

 

ANSEIOS

O Papa destaca que os jovens desejam uma Igreja que “escute mais” e que não tenha uma postura de levar uma vida inteira a “condenar o mundo”. A juventude atual também espera que a Igreja seja capaz, entre outros temas, “de dar atenção às legítimas reivindicações das mulheres, que pedem mais justiça e igualdade”. [...] “Peçamos ao Senhor que liberte a Igreja daqueles que a querem envelhecer”, acrescenta.

Francisco se dirige aos jovens em tom de confissão, a respeito de sua própria história de vida: “Quando iniciei o Francisco assinala, ainda, que no desenvolver da vida de cada jovem não está a preocupação em “ganhar mais dinheiro”, fama ou prestígio social, mas um sentido para a vida, que pode incluir “a possibilidade da consagração a Deus no sacerdócio, na vida religiosa ou em outras formas”

A vocação laical é, sobretudo, “a caridade na família, a caridade social e a caridade política: é um compromisso concreto a partir da fé para a construção de uma sociedade nova, é viver no meio do mundo e da sociedade para evangelizar as suas diversas instâncias, para fazer crescer a paz, a convivência, a justiça, os direitos humanos, a misericórdia e, assim, estender o Reino de Deus no mundo”

 

JMJ E PATORAL DA JUVENTUDE

O Pontífice também mostra a importância das Jornadas Mundiais da Juventude para o trabalho desenvolvido pela Pastoral da Juventude, insistindo que “esta seja uma pastoral sinodal, em que os próprios jovens sejam agentes por meio de duas linhas de ação: a busca do jovem de uma maneira atrativa e concreta, privilegiando a gramática do amor desinteressado e da proximidade, e não o proselitismo; e a importância de ajudar o jovem a crescer, sem doutriná-lo, mas de acompanhá-lo na sua caminhada de fé. Buscar e crescer: ajudando o jovem em diferentes ambientes a ter uma experiência de família”.

 

MARIA COMO MODELO

A Exortação destaca ainda um conjunto de personagens bíblicos que assumiram o protagonismo na sua juventude e 12 jovens santos e beatos, para mostrar que os mais novos são “o presente”, num mundo em que a realidade é cada vez mais plural.

Dentre eles, além de Jesus, merece atenção o legado deixado pela Virgem Maria. O Santo Padre apresenta Maria como “o grande modelo para uma Igreja jovem”, cujo “sim” ao anjo não foi uma aceitação passiva ou resignada, como um “provemos para ver o que acontece”. A Virgem “era determinada: compreendeu do que se tratava e disse ‘sim’, sem rodeios de palavras”, afirmou.

Nesse sentido, o Papa assegura aos jovens que a resposta de Maria “foi o ‘sim’ de quem quer comprometer-se e arriscar, de quem quer apostar tudo, sem ter outra garantia para além da certeza de saber que é portadora de uma promessa”. [...] “Uma missão difícil, mas as dificuldades não eram motivo para dizer ‘não’”.

“Com certeza teria complicações” – indicou Francisco –, “mas não haveriam de ser idênticas às que se verificam quando a covardia nos paralisa por não vermos, antecipadamente, tudo claro ou garantido. Maria não comprou um seguro de vida! Maria embarcou no jogo e, por isso, é forte, é uma ‘influenciadora’, é a ‘influenciadora’ de Deus! O ‘sim’ e o desejo de servir foram mais fortes do que as dúvidas e dificuldades”.

 

SER PARA OS OUTROS

O texto observa que o “ser para os outros”, na vida de cada jovem, está normalmente relacionado com duas questões básicas, a família e o trabalho, que exigem a atenção das comunidades católicas no acompanhamento das novas gerações. “Os jovens sentem fortemente o apelo do amor e sonham encontrar a pessoa adequada com quem formar uma família e construir uma vida juntos.”

“Procuras intensidade? Não a viverás acumulando objetos, gastando dinheiro, correndo, desesperado, atrás de coisas deste mundo. Chegar-te-á de uma forma muito mais bela e satisfatória se te deixares impulsionar pelo Espírito Santo.” O Papa questiona a “cultura do provisório” e espera que os jovens vivam o “amor a sério”, rejeitando o individualismo.

 

SEXUALIDADE

O Pontífice aponta o dedo ao que denomina como “colonização ideológica” relativa à sexualidade, ao Matrimônio, à vida ou à justiça social, em vários países. “Num mundo que valoriza excessivamente a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afetivas”, observa.

Retomando o que foi dito no Sínodo 2018, Francisco admite que a moral sexual pode ser, muitas vezes, “causa de incompreensão e de afastamento da Igreja, visto que é percebida como um espaço de julgamento e de condenação” pelos mais novos. Ao mesmo tempo, prossegue, os jovens manifestam “um desejo explícito de se confrontarem sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres e à homossexualidade”.

A Exortação convida a superar “tabus” sobre o sexo e a sexualidade, que são apresentados como “um dom de Deus”, com o propósito de “amar-se e gerar vida”.

“A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeinos falta! E, quando chegardes aonde nós ainda não chegamos, tende paciência para esperar por nós”, conclui o Papa.

 

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