NACIONAL

Situação de rua

Os nossos irmãos ainda vivem nas ruas, por quê?

Por Daniel Gomes
17 de mai de 2019

A Arquidiocese de São Paulo não está indiferente à realidade dos “irmãos de rua”, como comprovam os trabalhos dos grupos ligados ao Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na maior metrópole do País, ao menos 20 mil pessoas têm a rua como moradia, conforme projeções da Prefeitura de São Paulo, a partir do censo feito em 2015 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Este ano, a Prefeitura irá realizar um novo censo, e acredita-se que esse número seja ainda maior.

A Arquidiocese de São Paulo não está indiferente à realidade dos “irmãos de rua”, como comprovam os trabalhos dos grupos ligados ao Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua.

No contexto da realização do sínodo arquidiocesano, grupos, movimentos e pastorais ligados ao Vicariato entrevistaram 423 pessoas em situação de rua, sem um critério de seleção estabelecido, para mapear seu perfil, origens e condições de vida. Embora a amostragem represente apenas cerca de 2% da quantidade dos que vivem nas ruas, ela traz indicativos que chamam a atenção: a maioria é de homens – apesar de haver crescimento do número de mulheres e de famílias inteiras –; as pessoas têm idade entre 26 e 45 anos, são nascidas no Estado de São Paulo e vivem nas ruas há menos de dois anos (leia detalhes nos gráficos).

 

COM VONTADE, MAS COM POUCO DINHEIRO

De acordo com o Padre Júlio Lancellotti, Vigário Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, a busca por melhorias na condição de vida ajuda a explicar o atual contingente de pessoas nas ruas na Capital Paulista. “Muita gente sai de sua cidade achando que encontrará uma saída, mas fica sem nada. Chega com recursos para 15 dias, 20 dias, mas depois de um mês, dois meses, acaba na rua”, comentou ao O SÃO PAULO.

Esse aspecto também foi destacado por Aldaíza Sposati, professora da PUC-SP, pós-graduada em Economia e ex-secretária de Assistência Social na cidade de São Paulo (2002 e 2004). “Há os que vêm tentar a vida desprovidos de qualquer recurso financeiro que lhes possibilitem pagar por uma moradia. Até que consigam alguma coisa, ter um emprego, é muito difícil”, afirmou, detalhando que nas ruas já encontrou até pessoas com graduação universitária.

O levantamento também mostrou que a maioria dos que vivem nas ruas é do próprio Estado de São Paulo, o que indica diminuição de deslocamento humano de outros estados em direção a São Paulo, e maior fluxo migratório do interior paulista para a Capital.

 

À PROCURA DE OPORTUNIDADES

A crise econômica, o desemprego, a inadimplência e a falta de moradia foram fatores citados pelo Padre Júlio para explicar o aumento da população em situação de rua: “São pessoas que poderiam estar, inclusive, trabalhando, mas não estão, pois não há trabalho e, principalmente, são o que o Papa Francisco chama de descartados. O número de pessoas novas na rua é muito grande, de pessoas que estão há menos de um ano”.

Em nota à reportagem, a Prefeitura informou que os 148 serviços da rede socioassistencial voltados para a população em situação de rua realizam, “por meio de uma articulação local e de parcerias com o setor privado, cursos de capacitação profissional, rede de estímulo à geração de renda e atividades de lazer e cultura, visando à reinserção social da população”, e que já há um edital para uma nova proposta de capacitação profissional, o Programa de Promoção do Acesso ao Mundo do Trabalho, que atenderá 150 beneficiários por mês em toda a cidade.

 

ALÉM DE FATORES ECONÔMICOS

De acordo com a Prefeitura, a ausência de vínculos familiares, a morte de um ente querido, violência, perda da autoestima, alcoolismo, uso de drogas e transtornos mentais são os principais fatores que, assim como o desemprego e os custos de moradia, levam as pessoas a viver nas ruas.

Aldaíza Sposati exemplificou casos em que as recusas familiares acabam por conduzir as pessoas às ruas. “Já vi casos em que a família não suportava mais a pessoa, seja pelo álcool, seja pelo jogo, seja pela droga, então, ficava insustentável. Outra situação bastante complexa diz respeito a pessoas idosas ou com deficiência, que são expulsas das famílias que não têm mais condição de sustentá-las. É uma característica não tão incidente, mas que acontece”, afirmou.

PERFIL MAJORITÁRIO DA PESSOA EM SITUAÇÃO DE RUA EM SÃO PAULO

Homem (87%), com idade entre 26 e 45 anos (59% do total), nascido no Estado de São Paulo (61%) e vivendo na rua há menos de um ano (23% dos casos) ou por até dois anos (17%).

(Com base nos dados da sondagem)


 

MORADIA

Um dos indicadores que mais chamam a atenção aponta que quase a metade dos entrevistados vive nas ruas (47,12%) e a outra metade em albergues (49,37%).

Padre Júlio comentou que, além de não haver albergues em quantidade suficiente, quem já passou por este local nem sempre deseja voltar. “Os que ficam em albergue são os que aguentam essa proposta que massifica, que tutela, que tira a iniciativa, tira a autonomia. É impressionante ver que o número dos que estão abrigados e dos que não estão: é quase meio a meio. A maioria que já conhece o albergue não gosta, não aceita”, avaliou.

À reportagem, a Prefeitura informou que, nos 148 serviços em que a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) atende a população em situação de rua, existem aproximadamente 22 mil vagas, sendo 18.411 para acolhimento. Nesses locais, são oferecidas três refeições diárias, encaminhamentos para conferência de documentos pessoais, orientação em problemas judiciais, capacitação profissional, acesso à saúde, rede de estímulo à geração de renda e atividades de lazer e cultura.

“Para conviver nos centros de acolhimento, existem algumas regras decididas em assembleias, com os próprios conviventes. Horários, alimentação, uso das salas de TV e informática, banhos, dentre outras definições, ficam definidos para que se mantenham a ordem e a boa convivência no local, e a decisão de ficar ou não nos centros de acolhimento é do convivente”, detalhou a Prefeitura, informando, ainda, que a Secretaria realiza buscas ativas para identificar pessoas ou famílias em situação de rua e oferecer

acolhimento. “Cerca de 29.635 pessoas em situação de rua foram acolhidas, em média, por mês, nos nossos serviços, gerando 355.621 acolhimentos no ano de 2018”, informou.


ALTERNATIVAS

Padre Júlio defende que o albergue não seja a única alternativa de moradia, mas também as repúblicas e a locação social de imóveis. Segundo o Sacerdote, esta última possibilidade não tem sido cogitada pelo Executivo paulistano.

A Prefeitura informou que o plano de metas da atual gestão prevê a criação de 2 mil vagas em repúblicas e o aumento em 40% das saídas com autonomia daqueles acolhidos pela rede socioassistencial: “As repúblicas são equipamentos preparados para receber munícipes com autonomia financeira que possam contribuir com as despesas da casa. São casas de uso coletivo, nas quais a organização e regras são elaboradas pelos conviventes com auxílio e monitoramento do gerente do serviço, contratado pela OSC [Organização da Sociedade Civil] responsável pelo convênio com a Prefeitura”.

Na avaliação de Aldaíza Sposati, o poder público deve estar atento à qualidade dos serviços prestados pelas OSCs conveniadas e expandir o espectro de atenção àqueles que vivem nas ruas. “Cuidar dessa população significa abrir espaços em várias áreas: educação, saúde, educação, transporte. Uma política para a população em situação de rua tem de ser completa em transversalidade. Para trabalhar com uma população que foi praticamente sugada pela precarização, é preciso ter mais força de apoio em cada área”, comentou.

 

Pessoas de fé que esperam ser bem acolhidas

A sondagem realizada pelo Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua indicou as maneiras pelas quais as pessoas em situação de rua vivenciam a fé:

91% rezam   63% se declararam batizados na Igreja Católica

79% se disseram acolhidos na Igreja  57% participam de missas

76% disseram que a experiência com a Igreja Católica ajudou na mudança de vida  54% têm Bíblia

38% usam Terço   20% usam cruz   72% leem a Bíblia

 

Umas das perguntas tratava sobre o que os entrevistados esperam da Igreja Católica. Apesar das diferentes respostas, houve significativas menções sobre o desejo de que sejam mais bem acolhidos nos templos e de que a Igreja continue ou até amplie os trabalhos em atenção às pessoas em situação de rua. Abaixo, algumas das respostas:

“Acolhido e respeitado no atendimento ao frequentar a Igreja.”

Ajuda com alimentos, roupas e trabalho.”

“Continue fazendo a obra de Deus, ajudando pessoas que perderam em algum momento a sua fé e restaurando vidas como a minha.”

“Espero que a Igreja ajude a disseminar o amor a todas as pessoas, independentemente de suas escolhas pessoais.”

“Mais amor, mais paciência, que seja um lugar de comunhão e paz.”

“Que a Igreja Católica continue o trabalho com os mais necessitados e que seja mais humana e compassiva.”

“Que continue ajudando a população, buscando sempre melhorar, como ajudar também para que mudem de vida e busquem uma melhora pessoal, familiar e profissional.”

“Um olhar mais sensível e perseverante com os irmãos em situação de rua. Dar uma catequese mais fundamentada e condizente com a realidade.”

“Eu não espero da Igreja Católica coisa alguma, mas, sim, que as pessoas da Igreja Católica amem o próximo como a si mesmas.”

 

Dados são apresentados na 1a assembleia do sínodo com o povo da rua

Os dados da pesquisa de campo (leia mais detalhes acima) feita pelas organizações ligadas ao Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua – Arcas, Casa da Solidariedade, Toca de Assis, Voz dos Pobres, Emaús, São Miguel Arcanjo, Missão Belém, Comunidade Acolhedora, Arsenal da Esperança, Casa da Oração, Fraternidade O Caminho, São Martinho de Lima, Chá do Padre/Sefras – foram apresentados na primeira assembleia do sínodo arquidiocesano realizada pelo Vicariato, no dia 1o , na Casa de Oração do Povo da Rua, no bairro da Luz.

Conduzida pelo Padre Júlio Lancellotti, com a participação do Padre Tarcísio Marques Mesquita, Secretário Executivo do sínodo arquidiocesano, a assembleia reuniu 152 pessoas, incluindo aquelas que vivem nas ruas. “Principalmente nos grupos, elas trouxeram muitas opiniões a partir do concreto da vida delas. Sentiram-se acolhidas e fazendo parte da Igreja”, detalhou o Vigário Episcopal ao O SÃO PAULO.

Os participantes falaram dos preconceitos e medos que vivenciam. Também comentaram sobre a falta de vagas nos albergues e das condições em que são mantidos esses locais.

As pessoas em situação de rua agradeceram a acolhida e apoio que recebem nos projetos mantidos pela Igreja Católica em São Paulo.

À reportagem, Padre Júlio comentou que essa percepção de boa acolhida precisará ser mais bem analisada, já que os questionários foram aplicados por membros da Igreja: “Os entrevistados têm mais o conceito de Igreja como o lugar onde eles estão. Então, muitos falam ‘aqui a gente é acolhido’. No lugar onde a pessoa está, sente-se acolhida, mas essa questão a gente vai analisar melhor”, comentou.

Em grupos, os participantes destacaram a importância do trabalho pastoral realizado pela Igreja em favor dos “irmãos da rua” e fizeram sugestões para aprimoramentos. Também alertaram que muitas entidades têm atuado no limite de suas capacidades e que precisam de mais apoio do poder público.

Entre as sugestões apresentadas na assembleia, estão a de produzir um livreto com a relação de entidades e grupos que auxiliam as pessoas em situação de rua, e realizar a distribuição de Bíblias para os que vivem nas ruas.

(Com informações da Casa de Oração do Povo da Rua)
 
 

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