NACIONAL

Com a Palavra

‘Os missionários vivem a pobreza com os pobres e no lugar dos pobres’

Por Fernando Geronazzo
07 de fevereiro de 2019

O Cardeal destacou que, embora as feridas mais visíveis do terremoto já foram cicatrizadas, ainda há muitas coisas à espera de reconstrução no País

Missão Belém

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, falou sobre sua visita ao Haiti, entre os dias 29 de janeiro e 2 de fevereiro. Na sua segunda viagem ao país mais pobre das Américas, Dom Odilo visitou os trabalhos apostólicos que a Missão Belém realiza em uma comunidade localizada junto a um lixão na periferia da capital, Porto Príncipe, desde o terremoto que devastou o país em 2010.

O Cardeal destacou que, embora as feridas mais visíveis do terremoto já foram cicatrizadas, ainda há muitas coisas à espera de reconstrução no País. “O papel da Igreja é muito importante para promover, além da ação caritativa e religiosa, também a possibilidade de mudança social e cultural”, salientou o Arcebispo, destacando o trabalho da Missão Belém como admirável, “de uma abnegação e dedicação enormes”.

“No Haiti, a Missão Belém está com os ‘descartados’ e abandonados à própria sorte”, afirmou, ressaltando que a esperança semeada pela Comunidade é percebida pelo sorriso das crianças acolhidas. Leia a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO – COMO FOI A VISITA DO SENHOR AO HAITI?

Dom Odilo Pedro Scherer – Vim ao Haiti depois de participar da Jornada Mundial da Juventude no Panamá, com o principal objetivo de visitar a comunidade missionária da Missão Belém no Haiti e a sua obra, iniciada após o grande terremoto que abalou o país em 2010. Foram quatro dias de programação intensa, com visitas às salas da creche e da escola, que já contam juntas com mais de 1.800 alunos. Além disso, visitei o canteiro de obras da nova escola e do início da construção de um hospital para a Missão Belém no mesmo local da escola. Mas também visitei o Núncio Apostólico no Haiti e o Arcebispo de Porto Príncipe; tive contatos com outros religiosos brasileiros que trabalham na Capital, celebrei com o povo e participei de uma tocante via sacra no meio da favela.

 

O QUE O SENHOR DESTACA DO TRABALHO REALIZADO PELA MISSÃO BELÉM NESSE PAÍS?

É um trabalho voltado para uma população muito pobre, que vive sobre um lixão na periferia de Porto Príncipe. A Missão Belém dedica-se, sobretudo, às crianças e adolescentes, para lhes oferecer condições de saúde, alimentação e educação para um futuro melhor. Os missionários vivem no meio dessa população, partilhando sua pobreza e inteiramente dedicados a ela. O testemunho dos missionários da Missão Belém é muito edificante, e a obra ali iniciada consegue agregar a colaboração de muitas pessoas da própria favela e a solidariedade de muitos benfeitores do Brasil e da Itália, graças aos quais o trabalho vai acontecendo como verdadeira obra da Providência.

 

QUAL É O PAPEL DA IGREJA NA TRANSFORMAÇÃO DA VIDA DAQUELE POVO?

O papel da Igreja é muito importante para promover, além da ação caritativa e religiosa, também a possibilidade de mudança social e cultural. O Haiti ainda precisa muito de ajuda internacional concreta e inserida, que envolva a própria população local, não devendo ser paternalista, pois criaria dependência e não estimularia o povo a superar seus problemas. A Missão Belém está fazendo isso. Os pais dos alunos, especialmente as mães, são envolvidos no trabalho da Missão; muitos dos 250 funcionários pagos e dos voluntários são da comunidade da favela. A obra da educação e da evangelização são extremamente importantes nesse contexto.

 

O QUE MUDOU NO HAITI DESDE A ÚLTIMA VISITA DO SENHOR?

As feridas mais visíveis do terremoto já foram cicatrizadas e o povo voltou à normalidade de sua vida. Ainda há muitas coisas à espera de reconstrução, inclusive a catedral metropolitana. Das muitas ONGs que atuaram no país restaram poucas em ação, porém, muitas iniciativas da Igreja, não apenas do Brasil, consolidaram sua presença e continuam empenhadas ali, na sua ação missionária, educativa e de ação transformadora. A pobreza ainda continua muito grande e, com a ausência das tropas da ONU, lideradas pelo Brasil, para assegurar a ordem e a estabilidade política, o Haiti vai fazendo suas experiências na consolidação do regime democrático.

 

O QUE MAIS O MARCOU NO CONTATO COM A SITUAÇÃO DO PAÍS?

O contato foi muito breve e seria temerário fazer um julgamento sobre a situação do país. O certo é que o Haiti ainda precisa dar muitos passos na consolidação da ordem democrática, na superação da pobreza e de injustiças sociais arraigadas. Em geral, as condições de vida da população ainda carecem de muitos avanços. Nas questões da segurança e da transparência na administração pública, o Haiti não difere dos outros países da região do Caribe, da América Central e do Sul. Mas se nota que o povo luta como pode, é criativo para encontrar modos de resolver as necessidades básicas cotidianas. Além disso, é um povo que tem um senso estético e artístico bem afinado.

 

E COMO AVALIA O TRABALHO DA MISSÃO BELÉM NO HAITI?

É um trabalho admirável, de uma abnegação e dedicação enormes. Os missionários vivem a pobreza com os pobres e no lugar dos pobres. Olhando para o contexto onde atuam, lembrei-me das frequentes referências do Papa Francisco às “periferias existenciais e humanas” e aos “descartados” da sociedade. No Haiti, a Missão Belém está com os “descartados” e abandonados à própria sorte, que vivem em cima de um grande lixão (material descartado). Mas a Missão Belém faz brotar a esperança, que aparece no sorriso das crianças ali acolhidas e atendidas e na sua algazarra alegre nas salas da escola. É um trabalho que precisa e merece o apoio de muitos benfeitores.

 

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