SÃO PAULO

DIA DO NORDESTINO

Os caminhos que mostram o carisma de um povo

Por Jenniffer Silva
08 de outubro de 2019

São Paulo é a cidade brasileira com maior número de pessoas nascidas no Nordeste e que vivem fora da região de origem

Reprodução da Internet

“As conversas de calçada, os ‘causos’ de assombração. Em riba de um caminhão, a mudança inesperada. Manicure faladeira, o gado magro e mufino. As novenas para o divino, pedido para chover. Um “forrózinho” para dançar, que também é nosso hino, quer dançar? Eu lhe ensino, até o suor descer. Pirão grosso e caldo fino, “para mó do caba comer” Tem milho verde cozido, castanha feita na brasa. Igreja tocando o sino, no final do entardecer. Tudo isso faz bater um coração nordestino”.

Os versos do cordel escrito em 8 de outubro de 2017, pelo poeta cearense Bráulio Bessa traduzem em algumas palavras tudo aquilo que, segundo o poeta, faz bater um coração nordestino. A homenagem marca a data em que se celebra o Dia do Nordestino.

A instituição deste dia aconteceu em 2009, na cidade de São Paulo, local de maior migração nordestina do País, pela lei municipal nº 14.952, no ano do centenário do poeta popular, compositor e cantor cearense, Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré (1909-2002).

UM POVO MIGRANTE

O Estado de São Paulo é o principal destino de migrantes vindos da região Nordeste. Em 2015, eles eram 5,6 milhões de pessoas, o que corresponde a 12,66% da população, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. A migração nordestina para o Estado, especialmente para a Capital, foi um fenômeno social marcante na história deste povo ao longo do século XX, sobretudo na década de 1930, quando o número de estrangeiros vindos para São Paulo foi superado pela migração nacional, dos quais, a maioria, vindos do Nordeste.

Na primeira metade de 1950, a migração se intensificou, considerando que, à época, São Paulo estava em um acelerado processo de desenvolvimento econômico industrial, em contraposição ao Nordeste, que ainda estava em situação econômica precária.

Tratava-se de uma economia estagnada, com uma agricultura pouco diversificada, grandes latifundiários, concentração de renda e indústria pouco diversificada e com baixa produtividade. Outro fator a ser considerado era o clima da região que não favorecia o plantio e proporcionava longos períodos de estiagem.

Estas características acentuavam as desigualdades regionais, o que criou um cenário propício ao êxodo desta população em direção a São Paulo que, por sua vez, precisava de mão de obra para seu desenvolvimento. Muitos nordestinos migraram não apenas para os campos paulistas, mas principalmente para os conglomerados urbanos.

HÁ 43 ANOS

O refrão da música “Lamento de um Nordestino” ecoa na voz do paraibano de Brejo do Cruz, Zé Ramalho, sobre a decisão, muitas vezes difícil, de deixar sua casa para ir em busca de novas oportunidades. As palavras dão força a esperança de um dia retornar e do saber de estar longe da sua fonte de alegria.

Com o coração partido, a entrada no ônibus foi a cena que fez parte dos muitos que de lá vieram. Os motivos são muitos, seja pela oportunidade de trabalho ou simplesmente pelo sonho de viver na cidade grande.

Maria Gorete Ricardo, vinda de Poção, no interior de Pernambuco, hoje com 60 anos, é aposentada. Sua fala mansa, o sorriso na voz, a risada alta, não deixam dúvidas que ainda há muito do Nordeste nela, que vive em São Paulo há 43 anos.

Após completar 18 anos e terminar o Ensino Médio, viver em uma cidade grande era um sonho. Mesmo assim, o início foi de saudade e lágrimas. Antes da vinda definitiva, viveu em Sorocaba (SP) dos 11 aos 12 anos.

CORAÇÃO NORDESTIVO

“O nordestino é um povo carismático, unido. São acolhedores com pessoas de fora. Qualquer um que chegue no Nordeste, de qualquer lugar, é bem acolhido. É uma felicidade imensa. Você chega na casa de alguém, e ela não sabe o que fazer para agradar”.

É assim que a pernambucana descreveu ao O SÃO PAULO sobre a cultura da chegada, comum por aquelas terras. De fato, não é difícil se apegar aos que de lá chegam. A maneira com que eles acolhem é, verdadeiramente, incomum ao restante do País.

Aposentada e, por isso, ficando mais tempo em casa, Gorete sente ainda mais forte as lembranças de sua terra e dos parentes: “Sinto falta da minha família. Quando a saudade aperta, ligo para o meu irmão, falo com ele quase todos os dias”. Ela vê na Paróquia Santa Teresinha, no Bosque da Saúde, ao qual faz parte, uma forma de sentir a família e cidade próximas – Poção, é muito conhecida pela religiosidade.

As comidas são para ela motivo de rememorar a infância. Gorete contou que quando tem a oportunidade de voltar para visitar seus familiares, aproveita para viver e experimentar tudo que gosta. Das frutas tiradas do pé, da carne assada na brasa – ela afirmou ainda que esses são os principais motivos que fazem seu coração nordestino bater.

NA FORMA DE FALAR

Seja no Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte ou Sergipe, os 1.561.177km² de extensão guardam inúmeras particularidades desta terra rica e cheia de beleza.

A forma de falar vai chegando e, quando nos damos conta, os paulistanos conhecidos por supostamente serem “sem sotaque”, já estão pronunciando um provável “Oxi”. Não é difícil ouvir um “mainha” pelas ruas da cidade.

“Oxente”, pode significar muitas coisas, mais o principal deles é algo que causa espanto. Já “Virado no mói de coentro”, é dito para aquelas pessoas que, digamos, estão com tudo em cima.

Para os apressadinhos, eles costumam dar um conselho: “Avia”, que em bom Português pede para que o outro se apresse. “Arengar” é o verbo utilizado para dizer que alguém está brigando ou discutindo. “Massa” é dito para descrever fatos e sentimentos considerados muito bons, usado principalmente pelos baianos.

NORDESTE EM SÃO PAULO

Na capital que recebe o maior número de nordestinos do Brasil, alguns lugares contribuírem para manter viva o cheiro da roça, o barulho do fogão a lenha e o sotaque que é para lá de gostoso de ouvir:

(Colaborou Flavio Rogério Lopes)

Publicado em 08/10/2018

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