INTERNACIONAL

Abas primárias

Renato Lima

‘O vicentino é uma pessoa simples, que deseja transformar o mundo pela caridade’

Por André Ziccardi Gomes Nogueira
07 de novembro de 2017

No ano em que se comemora os 400 anos do carisma vicentino, Renato Lima, o primeiro brasileiro a ocupar o cargo de Presidente Mundial da Sociedade São Vicente de Paulo, falou exclusivamente ao O SÃO PAULO sobre as bases de ação dos vicentinos e seus desafios

L'Osservatore Romano

Presente em mais de 150 países, entre os quais o Brasil, a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) comemora em 2017 os 400 anos do carisma vicentino, inspirado no exemplo de solidariedade aos mais pobres de São Vicente de Paulo (1581-1660).  

Em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO , Renato Lima, primeiro brasileiro a ocupar o cargo de Presidente Mundial da SSVP, fala sobre as bases de ação dos vicentinos e dos desafios da iniciativa em âmbito internacional. “O vicentino é uma pessoa simples, que deseja transformar o mundo pela caridade, seguindo ao apelo de Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma pessoa de oração, que busca a conciliação e a harmonia”. 

Leia a seguir a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO – A SOCIEDADE SÃO VICENTE DE PAULO (SSVP), FUNDADA HÁ QUASE 200 ANOS POR ANTÔNIO FREDERICO OZANAM, CONTA HOJE COM APROXIMADAMENTE 800 MIL VOLUNTÁRIOS (VICENTINOS). O SENHOR PODERIA NOS CONTAR UM POUCO DA HISTÓRIA DA SSVP, DE SUA ESTRUTURA E POR QUE O TRABALHO DESENVOLVIDO AINDA É TÃO IMPORTANTE?

Renato Lima - A SSVP foi fundada em 1833 por sete amigos franceses, com a finalidade de visitar pessoas carentes nas periferias de Paris, na França, ajudando-as no que fosse possível, não só materialmente, mas, sobretudo, no aspecto espiritual e moral. Desde então, o movimento cresceu e hoje alcança 152 países. O Conselho Geral Internacional (CGI), do qual sou Presidente, fica em Paris. Em cada nação, existe o Conselho Superior (no Brasil, chama-se “Conselho Nacional do Brasil”), que é responsável pela organização da entidade. Em cada paróquia, temos as Conferências Vicentinas, que são os grupos de caridade que atuam nas visitas domiciliares. Penso que o trabalho vicentino é muito importante para a sociedade civil, em complemento às ações governamentais. Ser vicentino é um presente de Deus!

 

ENTRANDO UM POUCO NA SUA HISTÓRIA, O QUE O IMPULSIONOU A SER UM VICENTINO E COMO FOI A SUA TRAJETÓRIA ATÉ TORNAR-SE PRESIDENTE MUNDIAL DA SSVP?

Eu ingressei nos vicentinos em 1986, na cidade de Campinas (SP), onde eu estudava o ensino médio. Lá na escola militar, eu conheci a SSVP. Sempre quis ajudar as pessoas e encontrei na SSVP o local ideal para a prática da caridade com organização e seriedade. Ao longo desses 31 anos de caminhada vicentina, já fui Presidente de Conferência, Presidente de Conselho, já atuei nos setores de juventude, formação e comunicação. Portanto, Deus vinha me preparando para voos mais altos. E Ele assim o quis, e em 2016 fui eleito, pela maioria dos países, para ocupar a função de 16º Presidente Geral Internacional. Estamos na função há um ano, e com o apoio de uma diretoria fantástica, temos avançado muito, sem jamais perder de vista as conquistas alcançadas por meus antecessores. Porém, ser Presidente mundial jamais pode me ensoberbecer; afinal, o que prevalece são os propósitos do Senhor. Somos meros instrumentos da graça D’Ele.

 

COMO É A ATUAÇÃO TÍPICA DE UM VICENTINO? E DO PRESIDENTE MUNDIAL? O SENHOR TAMBÉM PRECISA VISITAR AS A FAMÍLIAS ASSISTIDAS PELA SUA CONFERÊNCIA?

O vicentino é uma pessoa simples, que deseja transformar o mundo pela caridade, seguindo ao apelo de Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma pessoa de oração, que busca a conciliação e a harmonia. O Presidente mundial não é diferente de qualquer vicentino. Eu mesmo continuo ativo na minha Conferência (Nossa Senhora de Fátima), onde temos reuniões e visitas semanais. Se eu não fosse ativo na Conferência, seria um presidente artificial. Portanto, qualquer vicentino, não importando o cargo que ocupa na estrutura da Sociedade São Vicente de Paulo, é sempre a mesma pessoa. Faço sim visitas às famílias carentes de nosso grupo, e essa é a atividade que mais me dá alegria: poder ajudar a quem precisa. Se cada pessoa, no mundo, fizesse uma boa ação por dia, mudaríamos o planeta. Eu sou uma pessoa normal: sou casado, tenho filhos, levo as crianças ao colégio, faço compras no mercado, passeio com a família, viajo. Não sou diferente de ninguém.

 

O BRASIL TALVEZ SEJA O PAÍS COM O MAIOR NÚMERO DE VICENTINOS - SÃO APROXIMADAMENTE 153 MIL. O SENHOR CRÊ QUE HAJA UMA CONFLUÊNCIA NATURAL DA MISSÃO VICENTINA COM A SOLIDARIEDADE DOS BRASILEIROS?

O movimento vicentino, que chegou ao Brasil em 1872, cresceu muito e superou até mesmo o berço da entidade, a França. Hoje, o Brasil é o maior país vicentino do mundo, seguido pela Índia e pelos Estados Unidos. O povo brasileiro é muito solidário, e obviamente isso ajuda nos apelos e nas campanhas vicentinas. Mas, eu considero que outros fatores também fizeram com que a SSVP tivesse crescido tanto no nosso País: apoio da Igreja, forte religiosidade do povo, miséria crescente e reconhecimento dos poderes públicos. Todos esses elementos, juntos, na minha ótica, são os responsáveis pelo crescimento dos vicentinos em solo brasileiro. Aproveito para convidar os católicos que não fazem parte de nenhuma pastoral em suas paróquias: procurem os vicentinos e venham servir a Cristo pela prática da caridade!

 

EM 2017, CELEBRAM-SE OS 400 ANOS DO CARISMA VICENTINO. O SENHOR PODE COMENTAR COMO AS QUATRO AÇÕES CONCRETAS PROPOSTAS PELO PADRE TOMAZ MAVRIC (LEIA MAIS DETALHES EM HTTP://WWW.SSVPBRASIL. COM.BR/?P=1262) PARA A COMEMORAÇÃO DESSA DATA CONCATENAMSE COM O ESPÍRITO VICENTINO?

A SSVP está apoiando todas as ações da Família Vicentina, não só nas celebrações dos 400 anos, mas em tudo. Este ano, haverá um simpósio em Roma com a presença do Papa Francisco, além de outras excelentes iniciativas. Um dos dez itens do planejamento estratégico de nossa gestão é justamente esse: colaboração permanente e profunda com a Família Vicentina. Temos muitos projetos comuns. O nosso desafio é colocar as ideias em prática e atuar realmente de maneira integral na globalização da caridade. O espírito fraterno da solidariedade, que nasceu com São Vicente de Paulo, segue nos nossos corações e no nosso sangue. 

 

DESDE 2012, A SSVP PARTICIPA DO CONSELHO ECONÔMICO E SOCIAL DAS NAÇÕES UNIDAS (ECOSOC). COMO TEM SIDO A PARTICIPAÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DA SSVP NAS DISCUSSÕES NESSE FÓRUM?

A SSVP participa não só do Ecosoc como de outros foros internacionais no âmbito das Nações Unidas, do Parlamento Europeu e da Santa Sé. E queremos ampliar ainda mais as parcerias, acordos e convênios internacionais. Por exemplo, estamos nos aproximando da Ordem de Malta, que possui um trabalho solidário fenomenal na ajuda a crianças, idosos, refugiados e mulheres em situação de risco social. Este mandato está fazendo de tudo para envolver mais a SSVP nesse aspecto institucional. Criamos, inclusive, uma vice-presidência específica para ficar responsável por esse setor. Sugiro que os interessados no trabalho vicentino possam conhecer melhor o Conselho Geral acessando o nosso site

 

As opiniões expressas na seção “com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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