SÃO PAULO

Direitos Humanos

'O que move a Igreja na defesa dos direitos humanos não é uma ideologia’

Por Fernando Geronazzo
27 de setembro de 2018

Além de Arcebispo de Tegucigalpa, Maradiaga é membro de diversos conselhos pontifícios e dicastérios vaticanos e coordena o Conselho dos Cardeais

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o Cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga (foto) aprofundou a reflexão sobre os direitos humanos à luz da Doutrina Social da Igreja.  Ele destacou que a Igreja tem a missão de promover e defender os direitos humanos a partir dos ensinamentos do Evangelho. 

Além de Arcebispo de Tegucigalpa, Maradiaga é membro de diversos conselhos pontifícios e dicastérios vaticanos e coordena o Conselho dos Cardeais, conhecido popularmente como “C9”, criado pelo Papa Francisco, em 2013, para assessorá-lo na reforma da Cúria Romana. Confira os trechos da entrevista: 

 

INDIFERENÇA E VIOLAÇÃO DE DIREITOS

“Vemos fatos como uma guerra na Síria que já leva 7 anos e milhares de mortos, e o mundo parece que está olhando para outro lado. Só interessa quando em um telejornal noticiam que mataram tantos que atiraram uma bomba. É como um episódio de um filme de ficção. Mas é uma realidade. Quando houve a terrível guerra nos Balcãs, nos anos 1990, passaram muitos anos até que a comunidade internacional decidisse atuar. Vemos o caso da Venezuela neste momento, que é uma crise humanitária enorme, em que têm saído mais de 2 milhões de habitantes porque não há alimentos e medicamentos. No entanto, é considerado como “o problema deles”. É diante disso que o Papa Francisco nos chama para que despertemos a nossa consciência de que todos somos filhos do mesmo Deus, vivemos na mesma ‘casa comum’, que é esta terra. A própria indiferença é uma violação dos direitos humanos, quando uma pessoa sabe que pode atuar para o bem comum e não o faz e, assim, está faltando aos seus deveres. Quando nos damos conta de que as pessoas não reagem aos problemas humanitários de seu próprio País, é porque faltou essa formação. Hoje o mundo está enfermo pelo individualismo e pelo egoísmo. Como assinalou o Papa Francisco, o aumento de informação não significa o aumento da atenção aos problemas se não vier acompanhado pela abertura das consciências à solidariedade. Nesse sentido, a globalização tecnológica e econômica gerou a globalização da indiferença.”

 

HUMANIZAR A SOCIEDADE

 “A Igreja Católica, como mãe, nos chama a ser ‘em saída’, ou seja, ir ao encontro do sofrimento dos seres humanos e fazer o que podemos para ajudar-nos uns aos outros. Não basta somente defender, é preciso promover os direitos humanos. E essa promoção se dá por meio da formação, conscientização, educação gradual, desde os primeiros anos de vida, e, inclusive, por meio da catequese que é a educação à fé. É preciso fazer com que as pessoas tomem consciência, como cristãos e cidadãos, de que cada um delas é uma promotora dos direitos humanos quando fazemos com que o nosso mundo seja mais humano, mais fraterno e mais pleno de solidariedade.” 

“Temos que entender os direitos humanos em uma perspectiva de Antropologia, pois não são coisas exteriores da pessoa humana. Eles brotam da humanidade. Então, é necessário humanizar a sociedade, a cultura e humanizar nossa vida, tendo presente que o ser humano é criado em relação com si mesmo, com o próximo, com a natureza e com Deus. A Declaração Universal dos Direitos Humanos nasceu depois de duas guerras mundiais espantosas.”

 

DIREITO À VIDA

“Este é o primeiro direito da pessoa e, como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é inalienável. Não significa que há direitos apenas para umas pessoas e para outras não. Por exemplo, em situações que se reprimem manifestações matando pessoa. Essa é uma violação da vida humana. Da mesma forma, tirar o direito de uma criança nascer é uma total violação do primeiro de todos os direitos. Sobre o aborto, há ainda mais. Certamente, a mulher tem direito sobre seu corpo. Porém, acontece que uma criança por nascer está em seu corpo, mas não é seu corpo, é outro ser humano e, por isso, tem os seus direitos.” 

“Toda pessoa tem seu valor e a vida de cada pessoa, desde sua concepção até sua morte natural, tem um valor em si mesma que não foi outorgado por nenhuma instituição, mas que toda instituição é chamada a conhecer, promover e defender. Insisto: esse não é um argumento apenas religioso, como quiseram propor os adeptos de uma certa ‘nova esquerda’, sobretudo, na América Latina. A Igreja defende a dignidade da pessoa humana não apenas por motivos de fé, mas por uma questão de antropologia integral.” 

“É igualmente lamentável os casos em que se fala do direito a ter um filho e, para isso, se justifica toda classe de práticas, como as ‘barrigas de aluguel’. Contudo, todos os que propõem tal ação esquecem que assim estão violando os direitos de outro sujeito, que é a criança, com seu direito de ter uma família, conforme o que uma família é, e não algo a ser vendido ou comprado como um produto qualquer”.

 

POBREZA

“Como o Papa afirmou diversas vezes, hoje vivemos uma ‘economia da desigualdade’ que não faz mais do que promover o aumento da pobreza. É preciso que todos saíamos ao encontro desse mal para tratá-lo na medida de nossas possibilidades. Por isso que o Papa instituiu o Dia Mundial dos Pobres, para que todos tomemos consciência. Porque, muitas vezes, o governo não faz nada. Sim, o poder público tem como primeira finalidade o bem comum. Mas também você tem algo a fazer, nem que seja dar um pão a uma pessoa, você já está realizando algo. É responsabilidade de todos.”

 

MIGRAÇÃO

“A questão dos migrantes e refugiados deve ser tratada, em primeiro lugar, na perspectiva da fé. E sabemos que Jesus foi migrante e teve de sair com sua família ao Egito para salvar sua vida e, depois, retornou à sua terra. Além do mais, vimos no Evangelho, ‘fui migrante e me acolhestes’. Para todo cristão, esta é uma obrigação. É certo que os governos tenham o direito de estabelecer suas leis, porque não se pode abrir as portas para que entrem todos sem controle. Esse não seria um caminho de justiça. No entanto, na medida do possível, é preciso fazer algo para ajudar os migrantes. Ninguém migra por vontade. Todos gostaríamos de morrer no país em que nascemos. Mas, às vezes, é preciso migrar por dificuldades como a pobreza, falta de trabalho ou por violência.”

 

AÇÃO PASTORAL

“Também é preciso atuar pastoralmente no combate a essa cultura da indiferença, em primeiro lugar, quando há violações flagrantes, tiranias ou ditaduras. A Igreja sempre teve comissões de direitos humanos que ajudam com serviços como o socorro jurídico. Tudo isso se faz por meio dos leigos, nas distintas organizações eclesiais. Contudo, há o perigo de perdemos a perspectiva evangelizadora de nossas ações sociais e a entendemos apenas como mais um trabalho o fato de servir alimentos em um refeitório popular para os pobres, por exemplo, mas eu tenho minhas horas de trabalho, meu salário e basta. Essa seria uma perspectiva puramente horizontal. Quando agimos em nome de Jesus, sabemos que o mais importante é Ele e, por isso, um dos elementos é a vida de oração, do colóquio com Deus, a escuta do que Ele quer em minha vida, o que me traz como consequência uma perspectiva sobrenatural. O que move a Igreja na defesa dos direitos humanos não é uma ideologia, pois esta é uma visão parcial da realidade. O Cristianismo é inclusivo e totalizante. Não apenas olha para um aspecto da vida, mas trata de ver todos os aspectos, especialmente, a salvação de todos.”

 

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