NACIONAL

Alexandre Gonçalves

O poder dos meios de comunicação é real, mas não absoluto

Por Daniel Gomes
27 de junho de 2018

Doutorado em Comunicação na Universidade Columbia, fala sobre a abrangência do poder da mídia.

Luciney Martins/O SÃO PAULO

O trabalho nas maiores redações do País como repórter da área de Ciência fez com que Alexandre Gonçalves, 37, aprofundasse estudos sobre o jornalismo de dados e uso de métodos computacionais no entendimento dos ecossistemas de mídia. Atualmente, ele é doutorado em Comunicação na Universidade Columbia, nos Estados Unidos. De passagem pelo Brasil, ele conversou com os jornalistas da redação integrada do jornal O São Paulo e Rádio 9 de Julho, em maio, quando falou sobre a efetiva abrangência do poder da mídia, tema sobre o qual falou nesta entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO.

 

 

 

O SÃO PAULO -  POR MUITO TEMPO HOUVE A DIFUSÃO DA IDEIA DE QUE A MÍDIA É O QUARTO PODER NA SOCIEDADE. QUAL É O EFETIVO PODER DA MÍDIA? E MAIS: QUE SENTIDO QUE O SENHOR DÁ À PALAVRA “PODER”?

Alexandre Gonçalves - Vivemos em dois mundos: um interior — nossa mente — e outro exterior — as realidades ao nosso redor. Chamo poder a capacidade de moldar o mundo exterior segundo nosso mundo interior. A mídia ocupa um lugar singular entre esses dois mundos: ela povoa nosso mundo interior com imagens do mundo exterior. Tem o poder de iniciar diálogos sobre certos eventos enquanto outros permanecem envolvidos pelo silêncio.

 

O QUE OS VEÍCULOS IMPRESSOS, TELEVISIVOS E RADIOFÔNICOS APRESENTAM COMO CONTEÚDO JORNALÍSTICO É A REALIDADE, REPRESENTAÇÃO OU RECORTE DA REALIDADE? ENFIM, COMO O SENHOR DEFINIRIA O “PRODUTO” JORNALÍSTICO QUE CHEGA ÀS PESSOAS?

Vejo o “produto” jornalístico como um recorte da realidade misturado com falsificações da realidade. Não deixa de ser “realidade”, porque acredito no poder da linguagem de descrever o que acontece fora da nossa mente. É um “recorte”, porque não penso que essa descrição da realidade seja (ou deva ser) exaustiva: um mapa que tivesse todos os detalhes da cidade seria inútil pois seria tão complexo como a própria cidade. Por fim, há “falsificações” porque todo conhecimento humano vem sempre acompanhado de erros e ilusões.

 

DE QUE MANEIRA AS GUERRAS MUNDIAIS IMPULSIONARAM OS ESTUDOS DO JORNALISMO?

No entreguerras, século XX, diversos pesquisadores estavam assombrados com os frutos da aplicação racional e metódica da psicologia à publicidade. Eles viam a opinião pública como um material bastante receptivo e maleável. O horror da Segunda Guerra Mundial pareceu confirmar as intuições desses pesquisadores. Como o povo alemão, tão civilizado, embarcou em um projeto de tamanha barbárie? Para aqueles pesquisadores, a propaganda seria a chave para explicar o enlouquecimento de um país inteiro. No pós-guerra, estudos empíricos não confirmaram o poder irresistível da propaganda. De fato, a maior parte das pesquisas parecia apontar que os efeitos eram, de fato, muito limitados ou inexistentes. Hoje em dia, a maior parte dos estudiosos adota uma posição média. O poder dos meios de comunicação é real, mas está longe de ser absoluto: as pessoas não são uma tela em branco a espera das pinceladas da mídia.

 

AS REDES SOCIAIS PROVOCARAM MUDANÇAS NO PODER DA MÍDIA?

Sem dúvida. Em primeiro lugar, elas trouxeram a falência do modelo de negócio baseado em anúncios que vigorou durante décadas. Até agora, ninguém encontrou uma solução para salvar as empresas de jornalismo. Além disso, é possível argumentar que as redes sociais democratizaram a esfera pública: qualquer um pode tornar-se um produtor de conteúdo. Na prática, contudo, a maior parte do conteúdo continua sendo produzido pelos veículos de sempre (com a diferença de que agora é mais difícil para esses veículos ganhar dinheiro com o mesmo conteúdo). A principal mudança é o surgimento de um novo grupo de atores: as próprias redes sociais. Essas plataformas não querem ser vistas como atores no debate público. Argumentam que simplesmente oferecem o suporte para que os verdadeiros produtores de conteúdo publiquem. Discordo. Há inúmeras decisões editoriais por trás dos algoritmos e regras que governam essas plataformas.

 

 O JORNALISTA TEM QUE TIPO DE PODER EM MÃOS? QUE CUIDADOS DEVE TOMAR COM ISSO?

Quando alguém acredita que possui poder, normalmente é o poder que possui essa pessoa. O principal cuidado, ao meu ver, é lutar contra a ilusão do poder. Não me refiro aqui aos jornalistas que gostam de ser bajulados por fontes, de ser convidados para eventos exclusivos, de ter acesso imediato aos altos escalões econômicos e políticos… basta algum senso do ridículo para perceber como essa caricatura de poder é vazia. Refiro-me aos jornalistas que sonham com a construção de uma sociedade mais justa e livre. A ilusão do poder é mais sutil e, por isso, mais perniciosa nos “bons” jornalistas, porque estão investidos de bons ideais, acreditam que suas ações serão necessariamente boas. Esquecem que ninguém é a cura do mundo. Felizmente, ninguém é a doença também. Somos todos doentes nesse grande hospital do mundo. Obviamente, devemos lutar por uma sociedade mais justa e livre, mas sem abraçar a ilusão de que somos os guardiães do único caminho para chegar lá. Como jornalista, não posso usar meu poder para silenciar ou ridicularizar as vozes com as quais discordo. Entre outros motivos, porque devo contar com a possibilidade de estar redondamente enganado. Só um louco tem certeza o tempo todo.

 

O SENHOR MORA E ESTUDA NOS ESTADOS UNIDOS. QUE COMPARAÇÕES FAZ ENTRE O QUE SE ENTENDE DA RELAÇÃO “PODER E MÍDIA” NAQUELA SOCIEDADE E AQUI NO BRASIL?

Por um lado, há uma maior diversidade de vozes nos Estados Unidos. Você encontrará veículos para todos os gostos políticos ou ideológicos. O ambiente de mídia americano tem uma vitalidade inacreditável. Ao mesmo tempo, há uma clara tendência à balcanização: as pessoas vivem em bolhas informativas que confirmam suas visões de mundo e preconceitos. Acredito que, com alguns anos de atraso, o mesmo processo de balcanização do debate público também está em curso no Brasil.

 

O SENHOR TEM REALIZADO ESTUDOS SOBRE POPULISMO. DE QUE MANEIRA ISSO TEM SIDO REPORTADO PELO JORNALISMO ATUALMENTE?

Há, sem dúvida, um ressurgimento no interesse pelo conceito de populismo. Contudo, apesar de útil, populismo não é uma palavra neutra: carrega, na maioria das vezes, um significado pejorativo. Normalmente, nós o associamos à manipulação de medos e esperanças da população, acompanhada de uma vulgarização ou infantilização do debate público. Creio ser este o sentido que a maioria dos jornalistas atribui à palavra populismo quando classifica um determinado governo ou político como populista.

 

QUE PODER OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA TÊM E O QUE PODEM FAZER COM ISSO?

Os meios de comunicação da Igreja Católica podem desempenhar duas funções importantes. Em primeiro lugar, podem se constituir na principal fonte de informação sobre a Igreja Católica para os próprios católicos. Penso que a maioria dos batizados (inclusive padres e bispos) acaba se informando sobre os desafios e problemas da Igreja na mídia tradicional. Contudo, pouquíssima gente no ambiente secularizado das redações consegue compreender a complexidade e a singularidade da Igreja. Na maioria das vezes, jornalistas utilizam analogias com instituições com as quais estão mais familiarizados, como partidos e ONGs. Mas a Igreja não é simplesmente um partido ou uma ONG. Os meios de comunicação católicos estão em uma posição privilegiada para oferecer uma visão mais profunda e ampla da Igreja. Em segundo lugar, a mídia católica pode servir como espaço de diálogo com o mundo não católico.

 

EM UMA DE SUAS APRESENTAÇÕES SOBRE O TEMA, O SENHOR COMENTOU QUE O PODER DA COMUNICAÇÃO É GERAR COMUNHÃO. ISSO DE FATO VEM ACONTECENDO?

 Não sei se a comunicação tem gerado comunhão. A resposta mais sensata provavelmente seria: em alguns lugares, sim; na maioria, não. Há um exercício que costumo fazer com meus alunos. Peço para que defendam do melhor modo possível um ponto de vista com o qual discordam. Desconfio que nossa tendência natural é encarar quem discorda de nós como um sujeito desonesto ou estúpido. Por isso, vale a pena fazer esforço para colocar-se no lugar do outro, para enxergar a realidade com os olhos do outro. Algumas vezes, mudaremos de opinião. Outras, talvez a maioria, vamos descobrir que o outro não é um inimigo. Bento XVI dizia que a verdadeira comunicação não acontece quando comunicamos ideias, mas quando comunicamos a nós mesmos. Acredito que esse é o caminho.

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