NACIONAL

PROFESSOR

‘O maestro que rege uma orquestra: tem que saber dar direito, voz e vez a cada um’

Por Jenniffer Silva
15 de outubro de 2018

Neste 15 de outubro, O SÃO PAULO conta uma história de amor à profissão de uma professora de São Paulo

Janice Rastrello

A história que começa a ser contada nasce na rua Brigadeiro Godinho dos Santos, número 374, na Vila Pirituba, em São Paulo (SP). Lá pelas 7h, quando toca o sinal, os alunos vão entrando e cada um se dirige à sua sala de aula. Pouco a pouco, o encontro com os professores acontece. Desde o berçário até o 9º ano do Ensino Fundamental, vindos das redondezas do bairro e, quem sabe, de outros mais distantes, trazem sonhos, dúvidas e o ‘esperançar’ que faz com que o verbo se torne a mudança social, por meio da transformação das pessoas.

No meio deles, está ela, Maria Lúcia Peviani Jacob, 70, a mais antiga, a idealizadora do Colégio Aldeia dos Pandavas. Comemorando em 2018 Bodas de Ouro, em 1968, não nascia apenas uma professora, mas uma mulher que buscaria por meio da educação compreender o ser humano da maneira mais ampla possível.

A professora que, ao longo de 50 anos, passou por vários lugares da cidade e pôde experimentar toda forma de educar, salientou que a escolha pela profissão vem da estrutura familiar e do amor por crianças: “Um pai que sempre amou o conhecimento, instruiu a família a ser curioso, buscar respostas. Uma mãe que ensinou que amar é muito importante e ter consideração é indispensável, eu já gostava do ser humano desde pequena”.

O SINAL TOCA PELA PRIMEIRA VEZ

Ao terminar o Ensino Médio, à época chamado ginásio, no Colégio Sagrado Coração de Jesus, iniciou a formação para ser Docente, ainda era pouco comum o estudo em faculdade, a formação em Pedagogia ocorreu quando já estava grávida do terceiro filho.

Em 1971, ainda como substituta, ingressou na Prefeitura de São Paulo, três anos mais tarde, efetivada, permaneceu em sala de aula até 1985, a partir disso, assumiu cargos de direção até se aposentar em1996. No ano seguinte, inaugurou o colégio que, em 2018, completou 21 anos.

UMA CAIXA DE BIS

Era período de Páscoa. Trabalhando na Escola Municipal Tenente Aviador Frederico Gustavo dos Santos, quando a cidade chegava ao fim, local em que a realidade periférica era exorbitante. Em memória da data, sugeriu aos 38 alunos da classe que levassem algo para que fosse partilhado.

“Era o terceiro mês que eu estava dando aula lá, e eu recebi uma caixa de bis, para 38 crianças. Eu nunca vou esquecer do ‘escasco’ [do quão trabalhoso] que foi ter que sair para dar conta, pois eu não conseguia olhar para uma classe de 38 alunos, olhando para uma caixa de bis. Eu tive que aprender a lidar com o meu fazer com as coisas a partir da realidade local”, contou.

Ter sensibilidade para perceber a realidade que está a sua volta faz toda a diferença no ato de educar.  

Outro aspecto tratado por Maria Lúcia é a questão da proximidade com os alunos e do amor que é depositado nesta missão: “Para mim, é um desafio eterno vencer essas distancias, ter que trabalhar em prol de alguém –, existem tantas crianças, com tantas nomeações, mas cada uma com um grau de conhecimento, de compreensão”.

MAESTRO

“Entender de ser humano eu digo que foi o grande desafio da minha vida. Eu entendo muito de criança e gosto muito de enxergar as questões que estão por de trás, pois o que está muito aparente, as pessoas captam com facilidade”, contou.

Sobre o contato com os alunos e possíveis estratégias, a educadora enfatizou que ao longo de tantos anos, pôde aprender muitas coisas e, principalmente, de que não se deve fazer uma descrição prévia dos alunos.

É importante, segundo ela, construir mediações capazes de revelar o melhor do outro, considerando o que aquela criança traz dentro de si, a história por trás das ações: “Eu já vi tantos alunos se transformarem no processo educativo, ser capaz de tantas façanhas”.

A disponibilidade é para ela, o princípio mais importante do educador, reconhecer o que faz um aluno ter dificuldades em apreender, a decisão tomada por um adolescente que passa por algum momento conturbado: “É como um maestro que rege uma orquestra – ele tem que saber dar direito, voz e vez a cada um”, completou.

Como diretora, Maria Lúcia busca sempre valorizar o trabalho coletivo e deixa de conselho, para os profissionais que com ela estão, o pensamento de que jamais é permitido desistir, que a coragem é a essência do professor: “Nós vencemos dragões quando temos ânimo, entusiasmo e, quando damos valor aquilo que vem as nossas mãos. Eu não gostaria nunca de perder o otimismo”, concluiu.

 

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