Jornal o São Paulo

SÃO PAULO

Carlos Alberto Di Franco

‘O Jornalismo é uma ferramenta de paz quando conta a realidade’

Por Redação
16 de mai de 2018

O jornalista fala sobre os desafios atuais do jornalismo e como o mesmo deve moldar-se para atrair mais o publico

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Jornalista, Advogado, Professor e Diretor-Geral do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), Carlos Alberto Di Franco concedeu uma entrevista à rádio 9 de Julho , sobre os desafios atuais do Jornalismo e a função pública deste na construção de uma cultura de paz, no contexto da mensagem do Papa Francisco para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Di Franco visitou a redação integrada do Departamento de Jornalismo da Arquidiocese de São Paulo, na Freguesia do Ó, no dia 9. Na ocasião, ele destacou aos profissionais da comunicação que “é preciso reinventar o Jornalismo e recuperá-lo num contexto muito mais transparente e interativo”. Para o Professor, o Jornalismo é uma ferramenta de paz quando conta a realidade, tem valores, princípios e sabe que do outro lado da informação existe alguém que tem uma história, uma vida. Confira a entrevista.

 

HOJE EM DIA, FALA-SE EM CRISE EM DIVERSOS SETORES. COMO ESSA CRISE CHEGOU AO JORNALISMO?

Carlos Alberto Di Franco – O Jornalismo vive hoje uma crise muito forte não propriamente no Jornalismo, porque nunca se consumiu tanta informação como hoje. Nos jornais impressos, no rádio, na televisão, nas redes sociais, o consumo de informação é muito grande. Mas o que existe é uma crise forte no modelo de negócios. O Jornalismo bom, de qualidade, exige investimento. Custa dinheiro apurar e distribuir informação. E a crise financeira é muito forte, porque a publicidade está desaparecendo. É preciso repensar modelos de monetização do Jornalismo. Agora, o Jornalismo em si é impressionante, as pessoas consomem muita informação. O problema é que nem sempre consomem informação de qualidade.

 

PODERIA FALAR MAIS SOBRE A QUALIDADE DA INFORMAÇÃO?

Nós navegamos freneticamente no espaço virtual, uma enxurrada de estímulos vai dispersando a nossa inteligência com muita frequência. Ficamos reféns da superficialidade, perdemos contexto, sensibilidade crítica. As redes sociais são um sintoma disso. Muitas pessoas entram nas redes para confirmar suas opiniões, não para melhorar ou confrontar os seus critérios, para ouvir o outro lado que não pensa como nós, mas talvez pensa diferente de nós e pode nos abrir a uma possibilidade diferente de olhar as coisas. A fragmentação dos conteúdos pode também transmitir para nós uma certa sensação de liberdade. Eu consumo a informação que eu quero, não a informação que os jornais, a televisão, os sites querem. Será verdade isso? Eu creio que não. Penso que há uma nostalgia enorme de conteúdos bem editados, com ética, contextualização. É preciso reinventar o Jornalismo, recuperá-lo num contexto muito mais transparente e interativo, das competências, das magias do Jornalismo de sempre.   

 

COMO FAZER UM JORNALISMO DE QUALIDADE?

Isso implica, sobretudo, olhar para a conteúdo e olhar criticamente para como nós, jornalistas, olhamos para o mundo que é o horizonte da nossa informação. O nosso papel é sair da redação, ir ver a vida e transmitir para quem consome a nossa informação a vida que nós encontramos, não a nossa visão da vida. Eu creio que o leitor, ouvinte ou telespectador percebe quando nós, de alguma maneira, tentamos manipular a realidade, tentamos mostrar uma vida que não é real, mas é o nosso olhar a respeito da vida. A nossa missão como profissionais e os nossos valores éticos devem nos conduzir ao compromisso de levar a realidade como efetivamente é. Em cada esquina há uma história real para contar. O Jornalismo não é máquina, tecnologia. O grande capital são as pessoas. É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva profunda, fugir das armadilhas do politicamente correto, do contrabando opinativo, da politização da informação, do distanciamento da realidade e da falta da reportagem. Se as empresas de comunicação não investirem na qualificação de suas pessoas, em treinamento do seu pessoal, vão morrer na praia. O dinamismo é muito grande. O mundo está indo num processo muito acelerado. 

 

ATUALMENTE, FALA-SE EM JORNALISMO DE DADOS E DIGITAL. ISSO NÃO ACABA AFASTANDO O PROFISSIONAL DO MATERIAL HUMANO?

Eu não tenho dúvidas disso! Eu penso que o Jornalismo de dados é importantíssimo. Partir para uma reportagem tendo um elenco de elementos, históricos e dados da informação levantados previamente, é muito importante. Eu acho que o mundo digital é uma realidade inescapável. Está aí, é irreversível. Agora, o que atrai o consumidor é perceber que o Jornalismo tem alma, tem rosto humano, transmite vida, tem cheiro de asfalto. Se ele percebe que isso não existe, que é uma construção pasteurizada, talvez o consuma num primeiro momento, mas, pouco a pouco, vai se afastando. É preciso contar histórias reais, às vezes dramáticas, outras positivas, mas histórias reais.

 

COMO FALAR SOBRE UM JORNALISMO DE PAZ, COMO LEMBRA O PAPA, EM TEMPOS DE NOTÍCIAS FALSAS E SENSACIONALISMOS?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que o Papa Francisco é um comunicador nato. Ele tem uma capacidade intuitiva de comunicação muito forte. Por isso, atrai tantas pessoas. Fake News não é só notícia falsa, mas uma notícia que vem embrulhada num pacote atraente, muitas vezes sensacionalista. Um conselho é: vai a um site e uma empresa de comunicação séria, com credibilidade e procura ver como essa informação foi tratada lá. Isso derruba 80% das fake news . Mas quando você se deixa entusiasmar por aquela notícia sensacionalista e começa a compartilhá-la, você está sendo um agente multiplicador da mentira, do erro, contribuindo para que a informação não seja uma ferramenta da paz, de construção, mas uma ferramenta de desconstrução. 

 

COMO RECUPERAR A FUNÇÃO SOCIAL DO JORNALISMO ENQUANTO SERVIÇO PARA AS PESSOAS?

O Jornalismo é uma ferramenta de paz quando conta a realidade, tem valores, princípios e sabe que do outro lado da informação existe alguém que tem uma história, uma vida, uma família. Você tem de se aproximar das pessoas de uma maneira respeitosa. Quando você está entrevistando alguém, está entrando em um “terreno sagrado”, na vida e na história de uma pessoa. Essa preocupação ética, unida à preocupação de estar muito próximo da realidade e contar o mundo que estamos vendo, acaba construindo um Jornalismo muito mais pacífico.

(Colaborou: Cleide Barbosa)

As opiniões expressas na seção “com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

 

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.