SÃO PAULO

Maestro Martinho Lutero Galati

‘O canto coral leva diretamente a um pensamento e práticas menos egoístas’

Por Cleide Barbosa e Daniel Gomes
27 de junho de 2019

As primeiras apresentações da Camerata Sé acontecerão na sexta-feira, 28, às 19h30, no Centro Cultural São Paulo 

Nas próximas semanas, quem for à Catedral da Sé às quartas e sextas-feiras, pela manhã, poderá “meditar e ouvir boa música durante os ensaios da Camerata Sé”. Quem garante é o Maestro Martinho Lutero Galati, diretor artístico desta que será a primeira orquestra de câmara do Brasil especializada em acompanhamento de música coral, voltada à execução de grandes obras da literatura musical brasileira e mundial.


As primeiras apresentações da Camerata Sé acontecerão na sexta-feira, 28, às 19h30, no Centro Cultural São Paulo (rua Vergueiro, 1.000, no Paraíso), e no domingo, 30, às 14h, na Catedral da Sé, com duas obras do compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827): “Missa em Dó Maior OP.86” e “Sinfonia em Dó Maior nº1 OP. 210” (leia detalhes no cartaz abaixo). 


Apoiada pela Lei Rouanet, de incentivo à cultura, e com aporte financeiro da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a Camerata Sé é organizada pela Rede Cultura Luther King, criada e dirigida pelo Maestro Martinho Lutero desde 1970. O Coro Luther King recebeu, em 2012, o Prêmio APCA de melhor coro da cidade de São Paulo.


Nascido em Governador Valadares (MG), o Maestro é professor no Istituto di Musicologia di Milano; diretor do Fórum Coral Mundial e do Forum Corale Europeo. Foi, ainda, diretor artístico do Coral Paulistano do Theatro Municipal de São Paulo, de 2013 a 2016. Em entrevista à rádio 9 de Julho, ele detalhou que o principal objetivo da Camerata Sé é o de ser uma orquestra especializada em acompanhar corais. A seguir, leia a íntegra da entrevista. 

O SÃO PAULO - O que é uma camerata?
Maestro Martinho Lutero Galati – Camerata é um grupo instrumental que é voltado, geralmente, à música dedicada a instrumento de corda e a alguns instrumentos de sopro, ou seja, é uma espécie de miniorquestra sinfônica. A nossa é um pouquinho mais que uma camerata. Usando uma terminologia musical, é uma sinfonieta, mas a batizamos de camerata porque também vai se apresentar em modalidades menores. É uma orquestra com número aproximado entre 15 e 40 pessoas, dependendo do repertório e do tipo de música.

Qual a proposta do projeto Camerata Sé?
A nossa Camerata, que nasce em colaboração com a Catedral Metropolitana de São Paulo, tendo como sede a própria Catedral, é um projeto com diversos objetivos. O principal deles é ser uma orquestra especializada em acompanhar corais, ou seja a música vocal. Acompanhar a música cantada é uma tarefa difícil para os músicos. No Brasil, infelizmente, não existe orquestra especializada nesse acompanhamento, principalmente da música coral, que é uma música muito rica e que exige do músico muita atenção para os tempos, para as interpretações, porque deve seguir o coro. Essa orquestra fará também música sozinha, ou seja, música instrumental, porém terá esta característica: a especialidade de acompanhar a música coral. Outra coisa simpática é que ela tem suas sedes e ensaios na própria Catedral da Sé, o que leva para o coração da cidade de São Paulo uma atividade humanística e que eleva a concentração e o Espírito de quem frequenta o templo nos dias e horários do ensaio: todas as quartas e sextas-feiras, das 9h às 12h. Todos estão convidados a ir à Catedral para meditar e ouvir boa música durante os ensaios.  

Qual é a programação inicial da Camerata Sé?
Há a programação de praticamente dois concertos por mês, sendo um na própria Catedral e outro fora, em locais próximos dela e onde exista a possibilidade de agregação de pessoas e de difusão da nossa música. Serão concertos com músicas de todo tipo, principalmente o grande repertório sacro, repertório de música coral sinfônica, mas também de música somente instrumental. A Camerata tem uma variação grande no número de músicos, conforme o repertório que for apresentado. 

Qual a relevância do canto coral em uma sociedade como a brasileira, que tem a maioria da população de católicos?
A música coral, sacra cristã, é importantíssima para a história da nossa música ocidental, mas não só, porque não é somente a música litúrgica que tem grande importância na história. A música sacra em si, aquela que não é litúrgica, que não é especificamente de dentro da missa, da música que trata de assuntos sacros, também é de uma riqueza muito grande. Não existe atividade coral em qualquer lugar do mundo que não passe pela música sacra ocidental. Por isso, visitar, frequentar, cantar e estudar a música sacra é fundamental para todos aqueles que fazem música coral. 

O canto coral é uma oportunidade de aproximar as pessoas em uma sociedade tão diversa como a que vivemos?
A atividade coral é, por si só, uma atividade de agregação, de ensino e realização em conjunto. Quando uma pessoa canta em coro, ela aprende a importância do seu ser dentro da sociedade, dentro de um grupo, pois é uma atividade que leva diretamente a um pensamento e práticas menos egoístas. A pessoa sente que, unida a outras, pode ser maior que sozinha. Isso acontece sob o ponto de vista musical e, automaticamente, lhe dá a coragem e a certeza de que isso pode acontecer em outras situações sociais. É uma atividade muito interessante, muito saudável. 

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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