SÃO PAULO

INICIATIVAS EM FAVOR DOS POBRES

O amor se faz doação ao irmão de rua

Por JENNIFFER SILVA
10 de novembro de 2019

A carência social é um dos primeiros fatores para a vida nas ruas, mas essa situação nunca é a primeira opção desejada por alguém

Ao amanhecer, eles saem das calçadas, barracas e albergues. Normalmente, caminham em grupos e, em determinado momento, se dividem: alguns seguem para os centros de convivência mantidos pela Prefeitura; outros, porém, decidem entrar no número 3 da Rua Djalma Dutra, no bairro da Luz.
Todos os dias, Ana Maria Silva, que há mais de 20 anos é colaboradora da Casa de Oração do Povo da Rua, vê esta imagem no portão do espaço mantido pela Arquidiocese de São Paulo. O local foi fundado em 1997 com recursos do Prêmio Niwano pela Paz, conferido em 1994 a Dom Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo Metropolitano. Atualmente, é coordenado pelo Padre Júlio Lancellotti, Vigário Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua.

RESSIGNIFICAR

Sentado à mesa para o café da manhã com os demais está Walter Mesquita, psicólogo brasileiro naturalizado paraguaio. Sua história na rua começou após um acidente aéreo ocorrido em 2006, que matou sua esposa, Aline Mesquita, e seus filhos gêmeos, Emilly e Enzo, com 3 anos de idade.
Desestabilizado com a perda, ele foi internado em uma clínica e diagnosticado com dupla personalidade. Por não aceitar o diagnóstico, fugiu do local, não conseguiu se manter nos empregos por onde passou e, assim, restou-lhe as ruas. Sua presença frequente na Casa de Oração do Povo da Rua é um exemplo de que este espaço representa, conforme as palavras de Ana Maria, um caminho para que as pessoas não percam a fé em Deus e em si mesmas.
A sala da administração é outro ponto de encontro. Nela está o artista José Reis, mais conhecido como “Zé Pirex”. Ele frequentou a casa por aproximadamente três anos e sempre retorna para agradecer as oportunidades que teve, muitas delas com o apoio da casa de acolhida, de aprender um novo ofício e se recolocar no mercado de trabalho.
Hoje, “Zé Pirex” trabalha como segurança em uma empresa e realiza a pintura de tecidos para lojas no bairro do Brás. Para muitos, ele é um exemplo de que é preciso cultivar a esperança para a reconstrução da dignidade humana de todos os que ainda sobrevivem nas ruas.

PESSOAS, NÃO NÚMEROS

Há um ano, Cecília Garcia realiza atendimento terapêutico no local voluntariamente. Ela falou à reportagem sobre a necessidade de desmistificar que, para se fazer o bem, é preciso grandes iniciativas ou mobilizações. Em seu entender, o simples fato de alguém pensar em levar consigo uma garrafa de água para entregar a uma pessoa em situação de rua em um dia de calor significa tanto quanto outras ações. 
Ela esclareceu que a carência social é um dos primeiros fatores para a vida nas ruas, mas essa situação nunca é a primeira opção desejada por alguém.
Também de acordo com Cecília, é necessário transformar a data instituída pelo Papa Francisco em um gesto cotidiano, para que as pessoas em situação de rua deixem de ser invisíveis aos olhos dos demais: “Por muito tempo, eu não os via. Era como se eles fizessem parte da paisagem. É preciso um trabalho de conscientização para que eles deixem de ser invisíveis e para que possamos enxergá-los como pessoas, não como números. Para mim, esse deveria ser o objetivo do Dia Mundial dos Pobres. É uma atitude de chamar a pessoa pelo nome, olhar nos olhos, deixar de se importar com o cheiro que tenha e passar a olhar para a pessoa que há por trás disso”. 

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