NACIONAL

Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos

Novos caminhos para a Igreja na Amazônia

Por Fernando Geronazzo
26 de fevereiro de 2019

Participarão do Sínodo os bispos e representantes dos nove países que constituem a chamada Pan-Amazônia

“Encontrar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, sobretudo dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta Amazônica, pulmão de importância fundamental para o nosso planeta.” Essa foi a finalidade principal apresentada pelo Papa Francisco ao convocar, em 15 de outubro de 2017, uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que será realizada em outubro deste ano, no Vaticano.

Com o tema “Amazônia, novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”, participarão do Sínodo os bispos e representantes dos nove países que constituem a chamada Pan-Amazônia – Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela, incluindo a Guiana Francesa como território ultramar –, envolvendo sete conferências episcopais.

 

DOCUMENTO PREPARATÓRIO

Desde a sua convocação, a Igreja presente na Amazônia tem realizado encontros para estudar e aprofundar a proposta do Sínodo.

Como em todas as assembleias sinodais, foi elaborado um documento preparatório que serve como texto-base que oferece uma análise de conjuntura atual da Amazônia e aponta percursos e novos caminhos para a Igreja a serviço da vida nessa região. O subsídio recolhe sugestões e propõe caminhos para uma preparação adequada para a Assembleia.

 

METODOLOGIA

O Documento Preparatório é composto de uma introdução e três partes, que correspondem ao método “ver, discernir e agir”, que já havia sido utilizado no Sínodo sobre a família em 2014 e 2015. No fim do texto, há um questionário sobre o qual as igrejas locais trabalharão.

Na ocasião da apresentação do documento, no Vaticano, o Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, ressaltou que, mesmo que o tema seja referente a um território específico, as reflexões superam o âmbito regional e pretendem fazer uma ponte com outras realidades geográficas semelhantes, como a Bacia do Congo, o corredor biológico centro-americano, as florestas tropicais da Ásia no Pacífico e o sistema aquífero Guarani. Também, por isso, o Sínodo será realizado em Roma.

 

VER

A primeira parte traça a identidade da região e a necessidade de escuta. Os assuntos abordados são: o território; a variedade sociocultural; a identidade dos povos indígenas; a memória histórica eclesial; a justiça e os direitos dos povos, bem como a espiritualidade e sabedoria dos povos amazônicos.

 

DISCERNIR

A segunda parte convida a discernir novos caminhos a partir da fé em Jesus Cristo, à luz do Magistério e da Tradição da Igreja. O conteúdo dessa parte é marcado pelo anúncio do Evangelho na Amazônia, nas suas diversas dimensões: bíblico-teológica, social, ecológica, sacramental e eclesial-missionária.

 

AGIR

A terceira parte aponta “Novos caminhos para uma Igreja com rosto amazônico”. Nesse trecho, é o Papa Francisco quem indica o caminho para entender a expressão “rosto amazônico”

“Os novos caminhos terão uma incidência nos ministérios, na liturgia e na teologia (teologia indígena)”, destaca o texto.

QUESTÕES

O questionário apresentado no fim está dividido metodologicamente de acordo com as partes do documento para facilitar os trabalhos que serão realizados pelas comunidades e grupos que responderão às perguntas.

“Nessa escuta, podem-se conhecer os desafios, as esperanças, as propostas e reconhecer os novos caminhos que Deus pede à Igreja nesse território”, diz o Documento.

 

PASSOS SEGUINTES

Sobre a base das respostas do questionário vindas de todas as igrejas locais da Amazônia, será preparado um segundo documento denominado Instrumentum Laboris (Instrumento de Trabalho), que constituirá o texto de referência para o debate sinodal. “Este documento deverá ser publicado e enviado aos padres sinodais e aos outros participantes alguns meses antes da celebração da assembleia sinodal, isto é, por volta do mês de junho”, explicou Dom Fábio Fabene, Sub- -secretário do Sínodo dos Bispos.

Ao fim da assembleia, será elaborado um documento final com propostas que serão apresentadas ao Papa e, a partir das quais, ele poderá redigir uma exortação pós-sinodal sobre o tema.

 

Cardeal Scherer: ‘O que mais importa é que Jesus seja anunciado na Amazônia’

Durante a sessão acadêmica na qual recebeu o título de doutor honoris causa na Universidade Católica de Kaslik, no Líbano, no dia 8, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, fez um reflexão sobre o Sínodo para a Amazônia.

Dom Odilo ressaltou que a assembleia sinodal não tratará apenas de questões ambientais e antropológicas, que também interessam à missão da Igreja. “Trata-se de questões que interpelam diretamente a missão religiosa da Igreja”, disse.

 

ESCASSEZ DE MISSIONÁRIOS

O Arcebispo recordou que, ao longo dos mais de 400 anos de ação evangelizadora na região, a Amazônia sempre contou com a ajuda de missionários vindos de vários países. Inclusive, a maioria dos bispos era formada de estrangeiros até pouco tempo. “Atualmente, porém, essa situação mudou drasticamente, pois os missionários já não chegam em grande número e os recursos econômicos vindos de fora foram muito reduzidos”, apontou.

Dentre os grandes desafios para a Igreja na Amazônia, Dom Odilo apontou a formação do clero próprio, de religiosos e consagrados. “Há muita falta de sacerdotes e o povo fica desassistido por longos períodos. Ao mesmo tempo, há uma penetração proselitista agressiva nos territórios da Amazônia, que leva muitos católicos pouco formados na própria fé a aderirem a esses grupos neopentecostais”, alertou.

 

ROSTO AMAZÔNICO

“Fala-se da necessidade de desenvolver uma ‘Igreja com rosto amazônico e indígena’”, ressaltou o Cardeal.

“O que mais importa é que Jesus Cristo seja testemunhado, anunciado, celebrado e comunicado na Amazônia, e que a força do Evangelho converta as pessoas e promova a dignidade de seus habitantes, seja força de fraternidade e solidariedade na construção de novos modelos de desenvolvimento e condições de vida”, completou Dom Odilo.

 

VENEZUELA

 

Soma 458.345 km², o que representa 50% do território nacional. Tem baixa densidade populacional (cerca de 20 habitantes/km²), porém é onde habitam 24 povos nativos do total existente no País. Possui sete jurisdições eclesiásticas: quatro dioceses e três vicariatos apostólicos.

 

COLÔMBIA

A região amazônica da Colômbia compreende 477 mil km² (42% do território nacional) e é a área menos populosa do País. As jurisdições eclesiásticas no território são 14: oito vicariatos e seis dioceses.

 

EQUADOR

A área amazônica do Equador corresponde a 120 mil km² (48% do território nacional). Ali vive aproximadamente 5% da população equatoriana, cerca de 740 mil habitantes. Lá existem povos que se mantêm sem contatos com a sociedade, como os tagaeri, taromenane e oñamenane. A Igreja no território se divide em seis vicariatos apostólicos.


 

PERU

A Amazônia peruana compreende uma área de 782.880.55 km² ao leste da Cordilheira dos Andes. Um dos territórios com maior biodiversidade e endemismos do planeta, cobre duas regiões naturais: selva alta e selva baixa, ocupando mais de 60% do território peruano. Depois do Brasil, é o segundo país em território de floresta Amazônica. Abriga apenas 13% da população nacional. As jurisdições eclesiásticas no território são dez: oito vicariatos e duas dioceses.

 

GUIANA

A região amazônica da Guiana cobre quase 75% do total do território, que é de 214.970 km², e onde vivem nove povos originários reconhecidos que conservam seus próprios dialetos: akawaio, arekuna, kariña, lokono, makushi, patamona, waiwai, wapishana e warau. A única circunscrição eclesiástica no País é a Diocese de Georgetown, sufragânea da Arquidiocese de Port of Spain, no Caribe.

 

SURINAME

Ocupando cerca de 90% dos 163.820 km² do território do País, a Amazônia do Suriname conta com 459 mil habitantes. A maioria da população é descendente de escravos africanos ou é de trabalhadores indianos e javaneses levados pelos holandeses para trabalhar na agricultura. A Diocese de Paramaribo compreende todo o País.

 

GUIANA FRANCESA

O País é um departamento francês de ultramar e, por isso, faz parte da União Europeia. Ocupa uma superfície de 92.300 km², dos quais 90% são de floresta Amazônica, onde o principal meio de acesso é a via fluvial. A população é de aproximadamente 295 mil habitantes e sua maioria vive no litoral. A única diocese do País é Caiena, sufragânea da Arquidiocese de Fort-du-France, na Martinica.

 

BRASIL

A Amazônia brasileira ocupa uma superfície de 5.217.423 km², correspondente a cerca de 61% do território do País. Nesta área, vivem em torno de 23 milhões de pessoas. Lá reside 55,9% da população indígena brasileira. Uma recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quantificou 305 etnias indígenas e ainda diversos povos isolados, sem contato com a civilização. As jurisdições eclesiásticas no território são 56: nove prelazias e 47 dioceses.

 

BOLÍVIA

A Amazônia boliviana ocupa uma área de 714 mil km² (43% do território nacional). De acordo com informações fornecidas pelas seis jurisdições eclesiais da região, a área é povoada por 1.266.379 habitantes: povos indígenas, camponeses, interculturais (colonos) e afrodescendentes. Um total de 29 povos indígenas habitam atualmente no território da Amazônia boliviana.

 

PAN-AMAZÔNIA

Com um território de mais de 7,5 milhões de km², a Pan-Amazônia envolve uma área maior que toda a Europa ocidental, compreendendo nove países, onde vivem cerca de 34 milhões de pessoas, dentre as quais, 3 milhões são indígenas de 390 etnias diversas.

A bacia amazônica representa para o planeta uma das maiores reservas de biodiversidade (30 a 50% da flora e fauna do mundo), de água doce (20% da água doce não congelada de todo o planeta), e possui mais de um terço das florestas primárias do planeta. Também a captação do carbono pela Amazônia é significativa, embora os oceanos sejam os maiores captadores de carbono.

 

QUEM PARTICIPARÁ DO SÍNODO?

Como se trata de uma assembleia especial, possui critérios específicos de participação. Sendo assim, esse Sínodo prevê a convocação de todos os bispos que têm o cuidado pastoral do território amazônico. Desse modo, participarão os bispos diocesano residenciais e ordinários e seus equivalentes, segundo o Direito de cada circunscrição eclesiástica da Região Pan-Amazônica. Ao todo, serão 102 prelados, desses, 57 brasileiros.

TAMBÉM PARTICIPARÃO:

  • Os presidentes das sete conferências episcopais presentes na Região;
  • A presidência da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam);
  • Representantes do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam);
  • Alguns chefes de dicastérios da Cúria Romana;
  • Religiosos que atuam missionariamente na Amazônia;
  • Especialistas eclesiásticos, leigos com competência na matéria do Sínodo, auditores eclesiásticos e leigos, delegados fraternos representando confissões religiosas cristãs, enviados especiais e representantes de outras religiões e organismos civis diversos.

O Papa também possui a prerrogativa de nomear outros membros como padres sinodais, entre bispos, sacerdotes e religiosos, em razão de suas competências na região geográfica e cultural em questão na assembleia.

 

‘Uma terra onde Deus levantou sua tenda’

Luis Alfredo Hormazábal Solar é missionário leigo consagrado do Chile. Ele chegou ao Estado do Amazonas há 14 anos. Já trabalhou na Arquidiocese de Manaus, na Diocese de Coari e, atualmente, colabora na Prelazia Apostólica de Borba, onde atua na administração e na visita às comunidades do interior, junto ao Rio Madeira.

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o Missionário destacou que um dos principais desafios para a atividade evangelizadora são as distâncias. “Quem ‘manda’ no nosso trabalho é o rio. Nós dependemos das condições do clima, para podermos desenvolver o nosso trabalho. Nos tempos da seca, por exemplo, que começa entre abril e maio, os rios começam a secar e fica muito difícil alcançar algumas comunidades que ficam distantes do município. Essa é uma realidade não só da Prelazia, mas de toda a Amazônia”, relatou.

 

PELA ÉGUAS

O Missionário deu como exemplo que a distância entre Manaus e Novo Aripuanã, último município do território da Prelazia de Borba, é de dois dias e uma noite de barco. “Se quisermos ir à comunidade que fica no extremo dessa paróquia, levamos mais sete dias de navegação”, acrescentou.

Para desempenhar essa missão, as paróquias contam com barcos, item essencial para a Igreja amazônica. O custo de manutenção desses veículos é muito alto. Por essa razão, as viagens pastorais dos missionários são ocasiões em que se atendem o máximo possível de fiéis. Nessas visitas, que duram em média 15 ou 20 dias, são realizados casamentos, batismos, visitas aos doentes, catequeses, se solucionam problemas e, quando há sacerdotes, celebram-se os sacramentos da Eucaristia, Reconciliação, Unção dos Enfermos e Crisma, quando há delegação do bispo.

 

FORÇAS HUMANAS

Luis enfatizou, ainda, que essas dificuldades se agravam com a falta de missionários. “Não é todo mundo que quer vir trabalhar na Amazônia, nem todos que vindo para cá resistem às condições de isolamento, clima e até mesmo de doenças próprias da região tropical”, disse.

Para o Missionário, são muitas as expectativas sobre o Sínodo para a Amazônia. “A primeira coisa que esperamos é que, de fato, se conheça a realidade da Amazônia. Aqui não há só índio, onça e jacaré. Há, sobretudo, pessoas com uma cultura riquíssima, que lutam para manter sua tradição, seus costumes, sua natureza. Que se saiba que aqui existe um mundo do qual todos devemos cuidar. Que se conheça a Amazônia como uma terra onde Deus levantou sua tenda.” 

(Com informações da Repam e Sínodo dos Bispos)

 

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