SÃO PAULO

Com a Palavra

‘Nos cantos litúrgicos, as palavras com as quais rezamos vêm do próprio Deus’

Por Nayá Fernandes
21 de março de 2019

A discografia do Monsenhor Frisina é composta também por um álbum com canções gravadas em Português

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Ele já compôs para os cantores italianos Mina e Andrea Bocelli, é o responsável pela trilha sonora de filmes como “Francisco e Clara” ou “Pompeia” e autor de cantos conhecidos e traduzidos em diferentes idiomas, sobretudo cantos litúrgicos.

A discografia do Monsenhor Frisina é composta também por um álbum com canções gravadas em Português e um hino inédito em homenagem a Nossa Senhora Aparecida.

Monsenhor Frisina está no Brasil durante este mês para uma agenda de conferências, celebrações e concertos. Durante o Congresso de Música Sacra (leia mais sobre o Congresso, a biografia do Monsenhor e o CD na página 12), ele concedeu uma entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO e falou sobre suas referências na música clássica e quais são as principais características da música litúrgica.

À Arquidiocese de São Paulo Monsenhor Marco Frisina desejou “que seja uma arquidiocese a caminho da animação litúrgica e musical de maneira convicta, pois a música é essencial para que o povo de Deus cresça na fé”

 

O SÃO PAULO – QUAL A PRINCIPAL DIFERENÇA ENTRE MÚSICA SACRA E MÚSICA LITÚRGICA?

Monsenhor Marco Frisina – Não se pode confundir música sacra e música litúrgica. Nós cantamos música litúrgica durante as celebrações eucarísticas. Nem todas as músicas sacras e canções religiosas podem ser incluídas no rito da celebração da Santa Missa. Elas são importantes e contribuem para a evangelização, mas devem ser cantadas em outro momento, não na liturgia.

O canto gregoriano é o canto que a Igreja produziu desde sempre e é interessante sobretudo porque foram criados trabalhos grandiosos, com características eternas. Em primeiro lugar, vem o texto, que é sempre retirado da Palavra de Deus. Os textos originais dos cantos gregorianos são sempre trechos da Palavra de Deus ou elaborados de outra maneira pela Teologia.

 

PODEMOS DIZER, ENTÃO, QUE O TEXTO É MAIS IMPORTANTE QUE A MÚSICA OU MELODIA NOS CANTOS LITÚRGICOS?

Sim. Há um primado do texto sobre a música, isso porque um canto quaresmal é diferente de um canto pascal ou natalino. Na liturgia, isso é indiscutível, porque nos cantos litúrgicos as palavras com as quais rezamos vêm do próprio Deus. E, assim, é necessário respeitar o primado do texto sobre a música. Podemos dizer que a música é importante, mas ela sempre presta um serviço ao texto.

 

COMO SE FORMA UM CORO E QUAL FUNÇÃO TEM?

Em primeiro lugar, não se trata de um coro de teatro. O coro de uma paróquia, comunidade ou diocese nada mais é do que a parte da assembleia que canta melhor. Aqueles que estudaram e que quiserem cantar podem entrar no coro, mas ele não está ali para fazer um espetáculo ou simplesmente um belo serviço. O coro está a serviço da assembleia e é, inclusive, uma parte da assembleia. Pode-se dizer que a assembleia dá ao coro a possibilidade de cantar. Mas todos cantam durante a liturgia, pois não há cristãos da série A e da série B... Não há divisões entre a assembleia. Contudo, é claro que a assembleia não pode cantar tudo quanto canta o coro, porque muitas vezes não consegue, devido a uma necessária preparação.

Aqueles que cantam melhor no coro são, por sua vez, os solistas. Entre estes, há um especial que é o salmista, aquele que proclama a Palavra de Deus cantando. Depois, há o padre, o presidente da celebração, que também deve cantar em momentos específicos da celebração, sobretudo aos domingos e em dias festivos.

 

PODEMOS FALAR DA MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE EVANGELIZAÇÃO?

O canto é uma escola de comunhão em que se aprende não somente a cantar, mas a crescer humanamente. Quando cantamos, prestamos atenção também às inimizades, às invejas. O coro deve ser o lugar em que todos estão felizes por estar juntos, não o contrário.

O canto litúrgico tem uma grande força de evangelização. Na Idade Média, as pessoas não sabiam ler nem escrever e viviam em muita pobreza, mas podiam aos domingos ouvir belíssimos cantos na igreja. Muitas vezes, não compreendiam as palavras pronunciadas em Latim, mas saíam edificadas. A música sacra tem um grande poder espiritual. No ano passado, encontrei-me com pessoas que não eram batizadas, mas amavam estar no coro da paróquia para cantar, pois a música as tocava e ali estavam sendo evangelizadas. Pensem em quando os bárbaros chegaram a Roma e, ao adentrarem as igrejas, ouviam músicas maravilhosas. Ali foram evangelizados.

A música litúrgica abre muitas possibilidades. Se toda paróquia tivesse música sacra, toda a comunidade se edificaria.

 

A VIA DA BELEZA É TAMBÉM UMA FORMA DE EVANGELIZAR...

Sem dúvida. Quem não sabia ler, podia ver os mosaicos em que estavam contadas histórias bíblicas nas igrejas, e ver a beleza e a grandeza de Deus. A evangelização por meio da via da beleza foi sempre um ponto forte da Igreja. A Igreja sempre viu a beleza como algo importantíssimo. No que se refere à música, hoje, podemos dizer que estamos atrasados, porque parecemos ter medo de fazer da nossa música algo que possa ser proposto a todos.

 

COMO FOI A EXPERIÊNCIA DE COMPOR EM PORTUGUÊS?

É a primeira vez que eu o fiz e foi muito belo, também porque o Hino a Nossa Senhora Aparecida é um ato de amor à Virgem Maria. Clayton Dias [diretor do Coro da Arquidiocese de Campinas (SP)] me ajudou para que eu tivesse a segurança com todos os acentos e particularidades do idioma. Foi uma experiência muito bela, porque cada língua tem sua alma e, portanto, quando sou convidado a escrever em outra língua, faço-o frequentemente e é sempre muito bom. Podemos dizer que as línguas não só têm uma alma, mas têm uma expressividade única, e esse é um modo para entrar no coração brasileiro. Para mim, o Português do Brasil, ainda mais que o Português de Portugal, tem uma doçura própria, uma cadência muito interessante.

 

QUAIS SÃO SUAS REFERÊNCIAS NO QUE DIZ RESPEITO À MÚSICA CLÁSSICA? O senhor TEM ALGUM COMPOSITOR PREFERIDO?

Não sei se tenho um compositor de música clássica, mas considero alguns grandiosos, como Mozart e Bach, que, para mim, desde sempre, são referências absolutas. Depois, há muitos outros, também do século XX, mas talvez esses dois sejam aqueles nos quais eu me apoio, inclusive para as composições de música sacra.

 

E ENTRE OS PADRES DA IGREJA?

Certamente Santo Agostinho é aquele que, mais do que todos, refletiu sobre a música. Há também grandes poetas cristãos, como Gregório Nazianzeno e todos aqueles padres que tiveram uma relação com a música e, sobretudo, com a poesia.

 

COMO É SEU PROCESSO CRIATIVO PARA COMPOR AS MÚSICAS? E SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA, HÁ UMA RECEITA DE COMO ELA DEVE SER FEITA?

Algumas vezes, as músicas que componho nascem espontaneamente, mas, na maioria das vezes, é necessário tempo, um tempo de “gestação”. Raramente, as composições nascem subitamente. Não há uma receita, mas algumas características indispensáveis no que se refere à música litúrgica: ela deve ser simples, expressiva, aderente ao texto e facilmente memorizável, para que o povo possa cantar

 

EXISTE ALGUMA MUDANÇA NA MÚSICA SACRA A PARTIR DO PONTIFICADO DE FRANCISCO?

Acredito que não haja uma mudança ou um efeito, mas, seguramente, Francisco está apontando o dedo sempre mais para a questão da reforma litúrgica conciliar e isso mostra, sobretudo, a importância da participação da assembleia. E é muito bonito e importante que o Papa insista sempre mais nesse argumento, para que possamos avançar no que se refere ao canto como uma oração do povo.

 

QUAL A OPINIÃO DO SENHOR SOBRE PADRES QUE SÃO CANTORES E FICAM CONHECIDOS POR SUA MÚSICA?

Eu escrevo a música, nunca a cantei. Mas acredito que Espírito Santo é original e pode suscitar essas experiências. Importante que não se perca de vista o sentido do ministério sacerdotal e que a música seja feita como se fosse uma pregação, ou seja, como se fosse uma conferência catequética ou teológica. O padre deve fazer a música sempre tendo em vista a evangelização e, como anúncio da própria fé deve buscar sempre o equilíbrio.

 

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