SÃO PAULO

CARNAVAL

Neste ano será diferente?

Por Daniel Gomes, Flavio Rogério Lopes e Jenniffer Silva
22 de fevereiro de 2020

Em carnavais anteriores, desfiles de blocos afetaram a rotina de paróquias em diferentes regiões da cidade

Luciney Martins/O SÃO PAULO

As grades em frente à igreja matriz da Paróquia São João Maria Vianney, na Praça Cornélia, Região Episcopal Lapa, chamavam a atenção de muitos que por ali passavam na tarde do sábado, 15. A divisória metálica, bem como os banheiros químicos, foram colocados pela Prefeitura de São Paulo na tentativa de evitar os transtornos verificados em outros anos durante o carnaval.  


“Quando a Prefeitura faz o planejamento para o carnaval, não é levada em conta a nossa realidade. O Padre e a comunidade não são consultados, como se a igreja fosse invisível no bairro. Eles autorizam os blocos a se concentrarem e dispersarem aqui em frente, justamente no horário de missas e atividades pastorais”, disse o Padre Raimundo Rosimar Vieira da Silva, Pároco. 


O Sacerdote já protocolou uma solicitação na Secretaria Municipal de Cultura e na Subprefeitura da Lapa, pedindo que os blocos fossem remanejados. Somente com a colocação de uma faixa de protesto na fachada do templo, a Prefeitura buscou reorganizar os horários dos blocos, mas sem alterar o local dos desfiles.  


Padre Raimundo afirmou ao O SÃO PAULO que não é contra o carnaval como manifestação cultural, nem contra os blocos de rua em si, mas lembra que “o impacto é grande, porque a multidão de foliões não fica somente na praça, mas na escadaria e no entorno da igreja. Isso impossibilita o acesso de cadeirantes, idosos e crianças. Além do barulho e do ruído que torna impraticável a celebração de um ato litúrgico”. 

DIVERSÃO COM RESPEITO 
No último sábado, houve missa às 16h, seguida da celebração de batizados. Nesta data, estava marcada para as 14h a concentração do bloco “I Love Cachaça”. Por volta das 15h, os foliões já estavam na praça, e os instrumentos foram ligados para dar início ao circuito.


Na opinião de Osvaldo Barbosa, que chegou uma hora antes do habitual para conseguir estacionar o carro, outras praças no entorno poderiam receber os blocos e não a praça em frente à igreja. 


Outra paroquiana, Maria Filomena contou que, no ano passado, foliões utilizaram a escada do templo até para atos libidinosos: “Em frente à igreja não é local apropriado para realizar o carnaval, principalmente da maneira exagerada com que é feito. Por isso, fizemos um abaixo-assinado para impedir que os blocos passem próximos à igreja”. 


Neste ano, ainda estão previstos na praça desfiles de blocos, no sábado, 29, entre 14h e 19h, e no domingo, dia 1º, das 11h às 16h. Nestes dias, haverá missas às 8h, 10h, 12h e 19h. 

DE PORTAS FECHADAS
Localizada no número 585 da Rua da Consolação, a Paróquia Nossa Senhora da Consolação tem celebrações aos domingos às 8h, 10h, 12h, 18h e 20h. No domingo, 16, as duas últimas missas não foram celebradas em razão da passagem, em frente ao templo, do bloco “Acadêmicos do Baixo Augusta”, impedindo a ida das cerca de 800 pessoas que habitualmente frequentam as missas nestes horários.


Na entrada da igreja, muitos paroquianos foram surpreendidos com a placa que informava sobre o cancelamento das duas últimas missas do dia, algo que também acontecerá no domingo, 23. 


O barulho e o mau comportamento dos foliões foram lembrados pelo paroquiano Rubens Ferraz: “Quem está pulando o carnaval não respeita as pessoas que vêm à igreja, e que preferem nesses dias se recolher para meditar sobre a proximidade da Quaresma”, disse.


Ao término da missa das 12h, o casal Marcelo e Bárbara Martins saiu apressadamente com a filha, Agnes, de 1 ano e 8 meses, por temer não conseguir deixar a igreja antes da passagem do bloco. “Infelizmente, temos que nos adaptar com o que ocorre do lado de fora”, disse Marcelo. 

PROBLEMA ANTIGO
O Pároco, Padre José Roberto Pereira, contou à reportagem que são muitos os incômodos que os desfiles de carnaval ocasionam. As ruas interditadas dificultam a locomoção das pessoas pelo bairro. Além disso, ele afirmou que muitos foliões costumavam urinar e pichar a lateral e a fachada do templo, por isso foram colocadas grades de proteção pela própria Paróquia. 


“A cada ano, o impacto dos blocos de carnaval vem podando a nossa liberdade, não somente de expressão religiosa, mas de todo e qualquer cidadão de sair de sua casa”, enfatizou o Sacerdote. 


De acordo com o Padre, missas já foram celebradas de portas fechadas e  em outras ocasiões nem foi possível haver celebrações. Essa é a terceira vez que a Paróquia decide cancelar algumas missas nos horários em que os blocos costumam se concentrar na frente da igreja. 


“A Prefeitura não informa os locais em que os blocos irão passar, sobretudo, os megablocos”, afirmou o Padre José Roberto, que diz ter tomado conhecimento dos eventos há menos de uma semana do início dos desfiles. 

A Paróquia precisou fazer às pressas a divulgação do cancelamento, mas os informativos publicados nas redes sociais não alcançaram todos os paroquianos. “É um prejuízo enorme. São quatro missas que deixaremos de celebrar e muitos fiéis não irão à igreja”, lamentou o Padre.

POR PRECAUÇÃO
Em razão das confusões e registros de roubos e furtos no carnaval de 2019, a Prefeitura, a pedido da Polícia Militar (PM), vetou a concentração e passagens de blocos pelo Largo da Batata, em Pinheiros, onde já havia placas de bloqueio no último fim de semana.


“No ano passado, vimos de tudo: gente entrando alcoolizada na igreja, algumas até seminuas, barulho, lixo, falta de respeito. Nas três semanas do carnaval, não tivemos missa em nenhum dia à tarde”, contou à reportagem o Padre Vandro Pisaneschi, Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Monte Serrate, localizada no Largo da Batata. 


O Sacerdote afirmou que, por precaução, no sábado e no domingo que antecedem o carnaval, não haverá missas à tarde, e que tanto na segunda quanto na terça-feira será celebrada uma missa diária e não três, como de costume. 


As interdições no Largo da Batata, no entanto, não acabaram com todos os problemas. “No domingo, houve bloquinho em uma rua próxima da igreja, a Padre Carvalho. A missa começou às 11h30 e terminou sem que conseguíssemos escutar nada. Falamos com os responsáveis do bloco, eles foram cordiais, e explicaram que têm um contrato para tocar até às 17h. Ao meio-dia, durante a missa, já não se escutava mais nada direito. Mas isso, perto do que vivíamos aqui, considero até que não é um grande problema”, avaliou. 

MAIOR FISCALIZAÇÃO
A Vila Madalena é outro bairro que recebe desfiles de blocos carnavalescos. O grande fluxo de pessoas geralmente resultava na degradação de residências locais. Cássio Calazans de Freitas, presidente da associação de moradores do bairro, disse à reportagem que a situação melhorou após um intenso diálogo com o poder público. 


“Nós insistimos para que o carnaval em bairros residenciais ocorra apenas durante os quatro dias oficiais e que os blocos de cada região saiam em seus próprios bairros. A Vila Madalena tem oito blocos. Nós os conhecemos. Por isso, em caso de depredação, saberemos quem é o responsável e teremos como cobrar”, explicou Calazans, ressaltando que o principal problema era a passagem dos megablocos. Desde 2018, esses grandes blocos não estão autorizados a desfilar na Vila Madalena. 


Calazans foi enfático ao dizer que é necessário acompanhar o processo ano a ano, pois mesmo que a Subprefeitura de Pinheiros preste apoio ao pedido dos moradores, a organização do carnaval na cidade é feita pela Secretaria de Cultura. 


Para ele, existe também a necessidade de uma maior fiscalização nas proximidades em que os blocos acontecem. Calazans relatou que a venda de drogas e outras mercadorias ilícitas causa uma sensação de insegurança aos moradores, e avaliou que a presença de vendedores ambulantes é um convite para que os foliões permaneçam nas vias públicas. 

BLOCOS ESTARÃO DISTANTES DAS PARÓQUIAS NAS HORAS DAS MISSAS, ASSEGURA PREFEITURA

“No horário das missas, os blocos estarão distantes da paróquia e não irão interferir no andamento da reunião.” A garantia foi dada pela Comissão Intersecretarial de Carnaval, após a reportagem questionar a Prefeitura sobre a interferência dos blocos de carnaval na dinâmica das igrejas. A administração municipal, no entanto, não respondeu se conversou com os responsáveis pelos templos durante o planejamento do carnaval. 


Aos blocos de carnaval se aplica o Decreto 49.968/08, no qual é prevista a necessidade de autorização da Subprefeitura mais próxima para eventos com até 250 pessoas com 30 dias de antecedência. Para eventos com mais de 250 pessoas, a autorização deve ser solicitada na Secretaria de Licenciamento. Oficialmente, acontecerão 678 desfiles de carnaval pelas ruas da cidade. “Para eventos não autorizados, será aplicada multa no valor de R$ 10 mil, conforme parâmetros da Lei 16.402/16, Artigo 38. A fiscalização é realizada por meio de flagrante e denúncias. O município disponibiliza a central SP156 (telefone, site e aplicativo para iOS e Android) e as praças de atendimento das subprefeituras para denúncias de eventos clandestinos”, informou a Prefeitura. 

 

LIMPEZA URBANA
A Prefeitura informou que 2.947 agentes de limpeza vão atuar neste carnaval. Os serviços de limpeza contarão com uma frota de 320 veículos, 505 contêineres de mil litros cada e 1.140 cestos aramados.


Além disso, a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) enviará 100% dos resíduos coletados da varrição para as duas centrais mecanizadas de triagem da Prefeitura, a fim de aproveitar o máximo possível de materiais recicláveis. Serão ainda instalados 247 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) na cidade, com frases educativas sobre o descarte correto, inspiradas em famosas marchinhas de carnaval. 


Em 2019, em São Paulo, foram coletadas 916 toneladas de resíduos durante o carnaval de rua e no Sambódromo do Anhembi. Neste ano, a projeção é coletar 5% a mais. A Prefeitura não respondeu ao questionamento da reportagem sobre o quanto foi gasto com os serviços de limpeza urbana no último carnaval. 

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.