SÃO PAULO

Rafael Ruiz

‘Não se pode viver em sociedade se formos intolerantes’

Por Francisco Borba Ribeiro Neto
10 de julho de 2018

Autor do livro “Alienação e Intolerância”, onde faz uma análise do pensamento moderno, de seus avanços e contradições, sobretudo a partir da tensão entre a esfera pública e a privada, falou ao O SÃO PAULO.

Arquivo Pessoal

Rafael Ruiz, professor adjunto de História da América da Universidade Federal de São Paulo, acaba de publicar o livro “Alienação e Intolerância”, pela editora Cultor de Livros. Nesse livro, faz uma análise do pensamento moderno, de seus avanços e contradições, sobretudo a partir da tensão entre a esfera pública e a privada. Ao fazer isso, ilumina uma série de problemas, que muitas vezes parecem obscuros, da sociedade contemporânea e permite compreender melhor o papel e os desafios da religião na atualidade. A seguir, a entrevista dada por ele ao jornal O SÃO PAULO.

 

O SÃO PAULO - Logo no início de seu livro, o senhor retoma um comentário do articulista João Pereira Coutinho, para quem “os cristãos falam uma linguagem que o ‘espírito do tempo’ não entende”. Joseph Ratzinger, em seu livro “Introdução ao Cristianismo” (São Paulo, Loyola), usa uma metáfora semelhante, ao comparar os cristãos a um palhaço que avisa a cidade que um incêndio se aproxima, mas não é levado a sério, até que o fogo chegue e destrua tudo. Pode nos explicar melhor o que essas comparações significam para os cristãos de hoje?

Rafael Ruiz - Acho que podemos falar ainda de outras metáforas mais conhecidas, pelo menos no mundo cristão: o sal para os alimentos, a levedura para o pão, a semente jogada a esmo nos caminhos...Penso que todas elas estão querendo dar a dimensão da mensagem cristã. Nem todos irão aceitá-la, entendê-la ou vivê-la. Mas penso também que isso não é algo próprio de hoje, mas de todos os tempos. Sempre foi assim e imagino que será assim. O que me parece que não faz sentido nenhum é receber e aceitar a mensagem cristã e isolar-se num canto para poder vivê-la melhor. Se se pensa mesmo nessas metáforas, então, o que eu concluo é que se trata de assumir que poucos, ou como diria Henrique V, na tragédia de Shakespeare, momentos antes da batalha de Azincourt (eram três franceses para um inglês), “nós poucos, poucos e felizes” acabarão por fermentar toda a massa. Quando? Não faço a mínima ideia. Acho que isso corresponde a Deus, que é o senhor do tempo. Aos cristãos nos corresponde viver de acordo com essa mensagem no mundo que nos toca viver e em convivência harmoniosa e pacífica com todos aqueles que não gostam ou não aceitam ou simplesmente não querem ouvir falar dessa mensagem. Todos temos o direito de viver de acordo com a nossa consciência. E acredito que o Espírito sopra onde quer e quando quer.

 

As duas palavras usadas no título do livro, Alienação e intolerância, são muito usadas nos tempos de hoje, mas uma é pouco entendida (alienação) e outra frequentemente é usada de forma esquemática (intolerância). O que o senhor entende por alienação e por que a escolheu para estar no título de sua obra?

O que quero dizer com “alienação”, e mais concretamente com “alienação da consciência”, é um estilo de vida que me parece ser extremamente comum na sociedade atual: em lugar de pensar e de refletir sobre as consequências dos nossos atos, e de ver se o que queremos fazer está certo ou errado, preferimos “terceirizar” a nossa decisão e, em lugar de decidir pessoalmente, acabamos fazendo o que diz a lei, ou uma pesquisa de opinião, ou uma emissora de tv ou algum parâmetro ou norma de conduta escrita em algum Código profissional...Preferimos que haja alguma instância ou sistema ou modelo que nos diga o que devemos fazer. E o fazemos sem pensar o mais mínimo naquilo que estamos fazendo. E, dessa forma, ficamos tranquilos, sem problemas de consciência, em paz...Ou seja, ficamos alienados.

 

E a intolerância? Como o senhor a vê e por que a escolheu?

Parece-me que é um dos maiores males da sociedade atual. Não se pode viver em sociedade se formos intolerantes. Em algum momento, as relações sociais ficarão tão tensionadas, que, provavelmente, em lugar de uma sociedade, o que teremos, no máximo, será uma série de bandos amontoados tentando se impor pela força uns sobre os outros.

Escolhi essa palavra porque me parece que, de maneira geral, ela sempre aparece associada ao fenômeno “religioso” e, nesse sentido, sempre que se utiliza ou se ouve esse termo pensa-se, erradamente, em algum fundamentalista (esse é o termo que se usa) que pode ser muçulmano, judeu, cristão...E o que eu quis destacar é que há um tipo específico de intolerância que foi sendo construído ao longo dos tempos modernos e que tem uma origem civil, política, acadêmica...ou seja, não religiosa. E sobre essa intolerância fala-se muito pouco. E existe. E é bem forte. É sobre isso que fala o artigo de Coutinho e acredito que muitas pessoas tenham experiência desse tipo de intolerância na sua vida diária: pelo fato de ter uma crença religiosa, a pessoa é desqualificada, hostilizada e, muitas vezes, impedida até de manifestar em público a sua opinião com o argumento de que “como é alguém que acredita numa religião, não pode falar, portanto, na esfera pública”. Acho que aí está uma das grandes doenças atuais e que atrapalha a vida em sociedade. Se, de fato, vivemos numa democracia, não vejo por que alguém não possa falar o que pensa pelo simples fato de ser alguém que acredita. E que, pelo contrário, só se admita como “ser pensante” e “ativo” na vida social e política de um País apenas aqueles que não creem em nada.

 

Nossa organização social moderna se estrutura, em grande parte, na distinção entre os espaços público e privado. Como entender a tensão e a relação entre esses dois âmbitos?

E acho ótimo! Parece-me que essa separação foi uma das grandes realizações da Modernidade. Se isso não tivesse acontecido, acredito que não poderíamos falar de uma “cultura ocidental”. Contudo, acho que, ao longo de todo o processo histórico dos tempos modernos, foi-se perdendo o sentido que essa separação tinha na origem (estamos falando dos séculos XVI e XVII). Naqueles séculos, essa separação era vista como algo imbricado e, ao mesmo tempo, tensionado. Em que sentido? No sentido de que o homem é um ser pessoal e unitário. Os atos humanos são atos de um “eu” pessoal e, portanto, muitas vezes haverá uma tensão, um conflito interior e exterior, entre o que diz a lei e o que diz a minha consciência, entre o que todos fazem e o que eu acho que é bom fazer.... E essa tensão é boa. Ela não pode ser eliminada. Essa tensão é precisamente a base e a sustentação da democracia, porque essa tensão nos encaminha para o debate. É por isso que a sociedade deve estar sempre aberta ao debate. De todos e não apenas de alguns. Tem de ser um debate inclusivo e não excludente. É o debate democrático que tem poder e capacidade para moderar a tensão. Quando isso não é assim, ou quando não foi assim na História, quando ou o Estado ou a Igreja quis impor um único modo de pensar e de atuar, chegamos, muitas vezes, a situações injustas e desumanas. A tensão entre o que é público, externo, social e político, e aquilo que é pessoal, privado e íntimo, tem de ser preservada e, até agora, o Ocidente encontrou na democracia a fórmula para que fosse preservada. Quando não é assim, e é sobre isso que alerto no meu livro, estamos eliminando ou, se não, asfixiando a ideia de Ocidente.

 

Muitos autores consideram que a mentalidade do brasileiro, em particular, caracteriza-se pela noção do público como o espaço de sujeição às leis e responsabilidade do Estado, enquanto o privado seria o espaço da liberdade individual e da responsabilidade pessoal. O senhor concorda com essa imagem?

Concordo com que essa é a imagem criada, mas não me parece que seja especificamente do brasileiro. Acho que é a imagem corriqueira de todo aquele que vive dentro do modelo do Estado liberal contemporâneo. Os ingleses são assim, os norte-americanos também, os franceses, espanhóis... Não acho que seja peculiaridade brasileira. Se concordo? Não. Não concordo. Parece-me que tudo isso começou com Locke quando aconselhou nas suas obras a distinguir na conduta humana dois âmbitos: o individual, que seria o da liberdade de consciência e que deveria ser vivido apenas dentro do âmbito privado e doméstico; e o âmbito público, em que se deveria seguir sempre a lei, mesmo injusta. Penso que está aqui a origem de muitas neuroses modernas e daquilo que chamo de alienação da consciência. É uma falácia opor liberdade ou consciência contra lei civil ou penal. A maior parte das pessoas, pelo menos aquelas que poderíamos chamar de “pessoas comuns”, se não roubam ou não matam não é porque estejam sendo obrigadas a isso por força da lei penal, mas porque simplesmente, na sua consciência mais íntima, não querem ter esse tipo de conduta.

 

No livro, o senhor fala do relativismo atual e da mentalidade marcada pela “pós-verdade”, uma situação na qual nenhuma afirmação pode ser considerada como mais justa ou condizente com a realidade que as demais. Nesse contexto, como situar a afirmação evangélica “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32)?

Penso que é como se fosse dito em chinês. Embora possa fazer sentido, não temos mais instrumentos que nos permitam entendê-lo. Volto à pergunta inicial e ao artigo do Jorge Pereira Coutinho. É estranho e incompreensível, em muitos lugares onde isso não deveria soar nem ser estranho, como o campo político e o mundo acadêmico, falar de verdade e, mais ainda, afirmar que é precisamente a verdade aquilo que nos tornará livres. Parece-me que a questão se coloca precisamente porque, hoje, estamos pouco dispostos a debater, a conversar e a dialogar. Contentamo-nos com clichês, frases feitas e “twitadas”. Dessa forma, fica muito difícil entender uma frase como essa e mais difícil ainda tentar explicá-la.

 

No final do livro, o senhor explica que o escreveu pensando nos muitos que sempre lhe perguntam “como pode alguém que tem um credo religioso ter a pretensão de dar a sua opinião na vida pública?”.  Para entender sua resposta, sem dúvida, é necessário ler o livro, mas poderia nos dar uma síntese breve do que responder a essas pessoas?

Como disse, penso que uma das maiores conquistas da Modernidade foi construir a separação tensionada entre o público e o privado e, ao mesmo tempo, encontrar o sistema democrático como forma de tornar possível que essa tensão, em lugar de desembocar em conflito, possa seguir as trilhas de uma convivência moderada, temperada e pacífica. O próprio Habermas que, durante tanto tempo, defendeu a ideia de um espaço público sem interferência alguma do elemento religioso, mudou de opinião e tornou pública essa opinião precisamente no debate aberto com o Papa Bento XVI. O que me estranha é que, curiosamente, se antes se falava tanto do Habermas para não permitir o ingresso de pessoas religiosas no debate público, por quê agora não se fala tanto dele? Parece-me que essas pessoas que têm um credo religioso, em primeiro lugar, não pensam todos da mesma forma e, em segundo lugar, para ter “carta de autorização” para entrar na esfera pública devem usar argumentos explicitados e justificados de forma racional e não de forma religiosa nem sobrenatural. Também me parece uma falácia, que muitas vezes vivi na pele, dizer que o que uma pessoa crente fala é sempre uma “fala religiosa”. Acho uma falácia cômoda e excludente. Primeiro, é preciso deixar falar, depois é preciso ouvir, mais tarde é preciso debater e, então, e só então, se poderá concluir o conteúdo do que se está falando. E, finalmente, e é nisso que consiste a democracia: poder votar, escolhendo dentre as diferentes opiniões e propostas, aquela que cada um considerar mais conveniente, mais justa ou mais adequada para aquela sociedade e aquele momento.

 

 

Serviço:

Título: Alienação e Intolerância.

Autor: Rafael Ruiz

Editora: Cultor de Livros

Páginas: 154

Formato: 14 x 21 cm

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