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Esporte

Muito além de 222 milhões de euros

Por Daniel Gomes
19 de agosto de 2017

Ida de Neymar para o PSG foi a transação mais cara da história do futebol. Clube francês acredita que recuperá investimento em até 3 anos

C. Gavelle/PSG

O novo camisa 10 do Paris Saint-Germain (PSG) finalmente entrou em campo, no domingo, 13, e fez um dos gols da vitória do clube por 3 a 0 sobre o Guingamp, pela segunda rodada do Campeonato Francês.

Neymar chegou a PSG no início deste mês, após o clube pagar ao Barcelona a multa rescisória de 222 milhões de euros (aproximadamente R$ 820 milhões). A transferência mais cara de toda a história reacendeu a polêmica sobre os altos valores pagos aos astros do esporte mais popular do planeta.

Neymar custou ao PSG mais que o dobro dos 105 milhões de euros que o Manchester United, da Inglaterra, pagou à Juventus, da Itália, por Paul Pogba, em 2016, até então a negociação mais cara do futebol. O salário anual do craque brasileiro na equipe francesa será de 30 milhões de euros (o equivalente a R$ 111 milhões).

Para se ter uma ideia do que essas cifras representam, basta um simples comparativo: neste ano, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) repassou às confederaçõesque administram os esportes olímpicos no País (à exceção do futebol) um total de R$ 85 milhões – ou seja, aproximadamente R$ 26 milhões a menos que o salário de Neymar no PSG.

Quanto custa o espetáculo?

O dinheiro para a compra de Neymar tem como origem o fundo de investimentos Qatar Sports, pertencente ao mandatário do PSG desde 2011, Nasser Al-Khelaifi, que tem proximidade com o governo do Qatar. Na apresentação do jogador, Nasser demonstrou confiança de que rapidamente o investimento será recuperado.

“Hoje se pergunta se foi caro demais, mas será que em dois ou três anos se perguntará isso? Eu tenho certeza de que vamos arrecadar mais dinheiro do que gastamos. Isso traz muito poder para a gente, vai fazer crescer o clube. O valor da transferência foi incrível, mas incrível no sentido positivo. Vamos arrecadar do primeiro ao último dia”, garantiu. A grande dúvida que paira agora é se o PSG conseguirá fechar as contas após a compra de Neymar, pois, do contrário, violaria o fair play financeiro, determinação da UEFA que impede que os clubes europeus gastem mais do que arrecadam por ano. Nasser assegura que sim, mas Josep María Bartomeu, presidente do Barcelona, criticou, no dia 7, o valor da negociação. “[O Barcelona] é contra essa inflação artificial do mercado, também porque quer proteger o futebol para que ele seja sustentável. E isso ocorre porque ninguém pode gastar mais do que arrecada”, disse.

Na avaliação de Anderson Gurgel, professor de Marketing e Jornalismo Esportivo na Universidade Mackenzie, o montante pago pelo PSG por Neymar tende a aumentar os valores de negociações futuras, o que justifica a preocupação com o fair play financeiro. Para ele, porém, sob a perspectiva dos negócios do esporte, o que aconteceu não foi tão surpreendente. “A lógica do espetáculo do esporte é ficar cada vez mais espetacular e essa negociação não deixa de ser um espetáculo financeiro, nem a transição em si, por que o efeito que se busca é muito maior que a mera contratação de um jogador talentoso. Há algo simbólico em contratar um atleta desse porte e levá-lo para Paris. Há uma lógica que vai além do PSG, envolve a Liga Francesa, um interesse do Campeonato Francês no seu todo”, afirmou ao O SÃO PAULO.

Questionado pela reportagem sobre o impacto que esse tipo de negociação pode gerar nos planos de crianças e jovens futebolistas e de seus pais, Anderson apontou que tal situação tende a reforçar ilusões. “Existe um imaginário muito forte que se constrói a partir da midiatização do esporte e que cria a ideia de que o futebol é um território no qual o talento por si só é suficiente para ser um jogador famoso e rico, mas, na prática, não é assim. A maior parte dos jogadores, por mais que jogue bem, não tem esse destaque midiático e muito menos ganha tanto dinheiro assim numa profissão que é cruel e muito curta. Uma situação como essa do Neymar alimenta ainda mais esse imaginário e acaba mascarando a realidade que é a do mercado do esporte”, avaliou.

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