INTERNACIONAL

Africa - Pemba

Missão África- Pemba

Por Padre Michelino Roberto
03 de setembro de 2019

Cardeal Odilo Pedro Scherer, com comitiva do Regional Sul 1 da CNBB, realiza visita pastoral às missões mantidas pelas dioceses do Estado de São Paulo em Pemba, Moçambique

Seis dias, 2.500km percorridos entre idas e vindas de Pemba, sede da diocese pastoreada por Dom Luís Fernando Lisboa, até cada uma das missões, conventos, paróquias, comunidades, centros sociais, hospitais, escolas, comunidades religiosas e aldeias visitadas pela comitiva do Regional Sul 1 da CNBB, em visita pastoral às missões que fazem parte do Projeto Missão África-Pemba. 


A visita pastoral aconteceu entre os dias 13 e 18 e teve como objetivo principal ir ao encontro, acompanhar e animar os missionários brasileiros atuantes nas três missões mantidas pelas dioceses do Estado de São Paulo na Diocese de Pemba, localizada na Província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, próximo da fronteira com a Tanzânia.


A comitiva foi liderada pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo e Representante do Regional Sul 1 da CNBB, que reúne todas as dioceses do Estado de São Paulo. Acompanharam o Cardeal, entre outros, Marcos Antônio Domingues, diácono permanente da Arquidiocese de São Paulo e Secretário-Administrativo do Regional Sul 1, e Antônio Evangelista, Secretário-Executivo da Cáritas Regional. 
Uma equipe de jornalistas da TV Canção Nova acompanhou e documentou toda a visita pastoral.

Igreja em saída

Diácono Domingues, como é conhecido, é o gestor do projeto missionário batizado Missão África-Pemba, criado em abril de 2017, quando Dom Luís Fernando se reuniu com a Comissão Episcopal Representativa (Conser) do Regional Sul 1. Desse encontro, surgiu uma parceria do Regional Sul 1 com a Diocese de Pemba, pela qual as dioceses do Estado de São Paulo assumiram o compromisso de apoiar as missões na diocese africana, cuja extensão equivale à metade de todo o Estado de São Paulo. 


O apoio é realizado com o envio de missionários e ajuda financeira: 12 missionários entre padres, religiosos(as) e leigos(as) já foram enviados e estão em ação, entre os quais, o casal Cesar Henrique Campos, 61, e Roseani de Campos, 61, recém-chegados e que atuarão na Missão de Metoro, onde trabalha o Padre Adriano Ferreira Rodrigues, 41, sacerdote da Diocese de Jundiaí (SP) e que há dois anos atua em Moçambique. 


Ao todo, o Regional Sul 1 da CNBB está mantendo três missões na Diocese: Missão de Metoro – distante 80km de Pemba; Missão de Mazeze – distante 204Km; Missão de Nangade – distante 400km. Cada uma dessas missões atende dezenas de comunidades e aldeias, com grandes distâncias entre elas. 


Segundo informou à reportagem o Diácono Domingues, no primeiro ano foram investidos pouco mais de R$ 600 mil na compra de veículos – os missionários precisam percorrer grandes distâncias –, reformas de edificações, manutenção e sustento das estruturas das missões e dos missionários, além da assistência à população local, muito pobre. Os recursos investidos são provenientes de um fundo missionário para o qual contribuem anualmente todas as dioceses do Regional Sul 1, além de arrecadações obtidas por meio de campanhas veiculadas pelas mídias. 

As dores da África 

Pobreza, falta de saneamento básico, desnutrição, maternidade precoce, analfabetismo, sistema de saúde pública extremamente precário, violência, exploração do trabalho em minas de metais e pedras preciosas, prostituição, malária, lepra, Aids. Essas são algumas das realidades encontradas e que desafiam o ânimo e a criatividade dos missionários em solo africano, que não medem esforços para ir em socorro da população.


Em Mazeze, a religiosa boliviana Irmã Teresa, da Congregação das Filhas de Jesus, especializou-se em Medicina Natural e abriu um centro de saúde, onde trata febres, dores, diarreias, problemas digestivos e até mesmo depressão, tudo à base de medicamentos produzidos no próprio local com ervas plantadas em uma horta. “Temos muitos doentes e poucos postos hospitalares e médicos. Esse foi o modo que encontramos para socorrer essa população”, explicou a Religiosa em entrevista ao O SÃO PAULO. 


Em Nangade está instalada a Missão de São Miguel Arcanjo, onde atuam missionários brasileiros da Fraternidade O Caminho. A fim de combater a fome e a desnutrição infantil aguda, os religiosos criaram um centro de nutrição e fizeram um convênio com o posto hospitalar local. 


“Percebemos que os doentes não prosseguiam com os tratamentos, porque o hospital não oferece alimentação para os seus pacientes. Assim, fizemos um acordo que nos permite entrar no hospital para alimentá-los”, contou à reportagem a Irmã Hadassa, uma das responsáveis pela missão. 


Os religiosos inauguraram também uma escola de educação infantil, em início de funcionamento, que já atende 32 crianças. Lá, além de receberem alimentação e serem higienizadas, as crianças são preparadas para conseguir acompanhar o ensino fundamental. Significa que os missionários estão, literalmente, implantando em Moçambique a pré-escola. 


A língua oficial de Moçambique é o Português. Como nas aldeias predomina o uso das línguas nativas, muitas crianças desistem de estudar porque não conseguem acompanhar as aulas nas escolas, administradas sempre no idioma oficial. 


Dom Luís Fernando Lisboa contou à reportagem que a Igreja Católica, além de levar o Evangelho, desempenha um papel fundamental para o desenvolvimento de Moçambique e para a promoção humana dos moçambicanos. “Boa parte das escolas de ensino básico e secundário é uma iniciativa da Igreja Católica mantida com a ajuda do Estado”, afirmou. O Bispo disse ainda que o índice de analfabetos em sua Diocese é altíssimo, “atinge quase metade da população”. 


No Distrito de Metoro, concentra-se a segunda maior população da área de abrangência da Diocese de Pemba (220 mil habitantes). Lá, o forte da missão é educação, catequese e evangelização. A missão católica local mantém uma das poucas escolas a oferecer ensino secundário (corresponde ao ensino médio no Brasil). 


“A paróquia já é bem consolidada e possui uma catequese que se tornou referência na Diocese”, afirmou o Padre Adriano Ferreira Rodrigues, Pároco da Paróquia Cristo Rei – a paróquia é parte da missão – e que todos os dias reserva parte de seu tempo para visitar os moradores das aldeias próximas – são 60 no total. Para tanto, Padre Adriano em pouco tempo aprendeu a falar Macua, um dos muitos idiomas nativos – fala-se de 30 – existentes em Moçambique. 


A igreja paroquial da missão de Metoro também é uma inovação. Idealizada por um sacerdote espanhol que era formado em Arquitetura, foi construída com lonas no lugar de paredes, o que permite a entrada de luz natural.

Fé, esperança e caridade

As missões católicas em Pemba influenciam sem medo e positivamente as culturas locais. Preservam o que nelas é bom, ao mesmo tempo em que as pacificam, elevam, dignificam, humanizam e divinizam. Tudo isso se observa no esforço de elevação moral, na transmissão de padrões de higiene, na melhoria das construções, no aprimoramento das leis (a Igreja influenciou em uma lei recente que proíbe o casamento de menores de 18 anos), nos projetos educacionais, na evangelização. Se as dores da África são uma consequência do pecado, a presença e a ação dos missionários católicos são uma viva expressão do amor de Deus e de redenção humana.


 A liturgia inculturada em Moçambique é piedosa, natural, solene, limpa, sem sincretismos. Ajoelham-se durante o ato de contrição, mantêm silêncio profundo durante a Liturgia da Palavra, prestam atenção e reagem às homilias, ofertam generosamente o que têm, comungam com extremo respeito e devoção.


Os missionários que atuam na África são religiosos simples, homens e mulheres que revelam profunda vida interior. Não se perdem em ideias ou teorias. Têm em mente a profunda verdade de que são chamados a ser presença do amor de Deus na vida dos mais carentes e necessitados. 


São homens e mulheres: padres, religiosos, religiosas, leigos e leigas, casados, viúvos e solteiros que têm os olhos erguidos para o alto, o coração e as esperanças assentadas em Deus. Eles desejam o Céu para si e para os outros. Abraçam a vida pobre na terra como um dom, enquanto que no exercício puro e simples da caridade, se enriquecem do amor de Deus.
 

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