SÃO PAULO

IGREJA

Mentalidade urbana exige uma pastoral mais missionária e sinodal

Por Fernando Geronazzo
16 de agosto de 2019

A convite do Cardeal Scherer, Dom Joel Portella Amado, Secretário-Geral da CNBB, assessora as reflexões do 17º Curso de Aprofundamento Teológico e Pastoral do Clero da Arquidiocese

Urbanidade, missionariedade e sinodalidade foram as palavras-chave que pautaram as reflexões do 17º Curso de Aprofundamento Teológico e Pastoral do Clero da Arquidiocese de São Paulo, realizado entre os dias 5 e 8, no Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba (SP). 
O assessor principal do evento foi Dom Joel Portella Amado, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ele integrou a comissão de elaboração das novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, aprovadas na última Assembleia Geral da CNBB, em maio, tendo como foco a “Igreja na cidade”. 


Doutor em Teologia Pastoral, Dom Joel realizou seus estudos principalmente nos temas de evangelização, inculturação, pastoral urbana, teologia e urbanização. Para o clero arquidiocesano, ele desenvolveu a temática levando em conta o contexto vivido pela Igreja em São Paulo com a realização do sínodo arquidiocesano. 


“A Arquidiocese de São Paulo vivencia um tempo muito bonito com o sínodo. No momento, vive a fase de analisar as consultas. Torna-se, portanto, necessário voltar-se para um instrumental que ajude a interagir com as informações coletadas”, afirmou o Bispo em entrevista ao O SÃO PAULO.

PASTORAL URBANA?
O Secretário-Geral explicou, ainda, que essa reflexão vai além da compreensão usual de “pastoral urbana”, cujo conceito possui vários significados, sendo o mais usual aquele que identifica urbano e cidade. “Nesse sentido, ela [a pastoral urbana] seria, então, o modo como a Igreja vive sua missão nas metrópoles ou megalópoles, as cidades imensas demograficamente e com um estilo próprio de viver. Esse sentido não é satisfatório para explicar a realidade”, afirmou.


“As atuais Diretrizes, ainda em sua fase de preparação, enfrentaram esse problema, pois, se identificamos, sem mais, urbano com cidade, corremos o risco de passar a ideia de que o mundo chamado de rural está totalmente de fora. Para superar esse risco, as Diretrizes chamaram a atenção para o fato de que o mundo atual está se tornando cada vez mais urbano. E isso não apenas porque as pessoas estão migrando do campo para as cidades, mas também, e acima de tudo, porque a mentalidade e o jeito de lidar com a vida que se gesta nas megalópoles se espalham por todos os ambientes, em especial com a ajuda dos meios de comunicação, notadamente a internet”, ressaltou o Assessor. 

URBANIDADE E MISSIONARIEDADE
Por essa razão, ele usa o termo urbanidade, como “um jeito de compreender a vida e lidar com ela, que acontece de modo mais intenso nas grandes cidades e que se espalha pelos outros ambientes que não são cidades imensas”. Esse modo de vida é caracterizado, dizendo de modo resumido, por alguns fatores: individualização, pluralização e mobilidade, entre outros”, acrescentou Dom Joel.


Como consequência, essa mentalidade exige da Igreja uma outra maneira de compreender e concretizar sua missão. “A Igreja é sempre missionária. Não pode deixar de ser. Muda, porém, o jeito como ela vive sua missão. A missionariedade marcada pela urbanidade implica, entre outros aspectos, anunciar Jesus Cristo e possibilitar a vida de comunidade tão própria dos que O seguem”, frisou o Bispo.

SINODALIDADE
Uma vez que a urbanidade afeta a missionariedade, isso exige a sinodalidade. “Esta expressão é a forma como hoje estamos abordando a comunhão das diversas formas de viver a beleza da experiência de Igreja. São Paulo utilizou a imagem do corpo. Na época do Concílio Vaticano II, falou-se, por exemplo, em colegialidade. Falou-se, também, em eclesiologia de comunhão. Atualmente, a partir das indicações feitas pelo Papa Francisco desde 2013, quando iniciou seu pontificado, temos falado em sinodalidade”, explicou Dom Joel.


“Num mundo cada vez mais urbano e, por isso mesmo, cada vez mais plural, é preciso que a missionariedade seja concretizada de modo também plural, diversificado. Só que essa pluralização não é suficiente. Deve-se encontrar a unidade. A sinodalidade é esse caminhar juntos rumo a um objetivo comum”, completou o Secretário-Geral.

DESAFIOS
Sobre os desafios da pastoral nos grandes centros urbanos, Dom Joel enumerou alguns considerados mais importantes e urgentes. O primeiro deles é “apresentar Jesus Cristo e despertar, acima de tudo pelo testemunho, o fascínio por segui-Lo na comunidade eclesial”. 
“Em segundo lugar, é preciso que a pastoral acompanhe os ritmos de tempo e espaço da vida nas grandes cidades. As comunidades necessitam se multiplicar, capilarizando-se, mas, também, adaptando-se aos ritmos de tempo das pessoas” indicou. 


Dom Joel Portella também chamou a atenção para os desafios da pobreza e da violência. “A Igreja, ao concretizar sua missionariedade nas grandes cidades, precisa ser um instrumento de solidariedade, reconciliação e paz”.

MASSAS E COMUNIDADES
Durante sua apresentação, o Bispo recordou aos padres a respeito da existência de dois grandes caminhos na ação evangelizadora nas grandes cidades. “Um caminho é o do trabalho com as multidões, o trabalho, como se costumava dizer, com as massas. O outro caminho é o das pequenas comunidades. Esses dois trabalhos não são opcionais, no sentido de que se pode fazer um ou outro”, afirmou.


“As Igrejas nas grandes cidades necessitam seguir por esses dois caminhos, articulando-os. Não há como ficar apenas com o trabalho em grandes eventos sem pequenas comunidades que forneçam o suporte, nem há como ficar somente com o trabalho em pequenas comunidades sem a presença maior na cidade, presença que fala à própria cidade e ajuda as pequenas comunidades a se fortalecerem em si e entre si”, concluiu Dom Joel.

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