Jornal o São Paulo

INTERNACIONAL

Igreja na América Latina

Medellín completa 50 anos

Por Nayá Fernandes
17 de mai de 2018

II Conferência do Celam, que aconteceu na Colômbia em agosto de 1968, foi essencial para a recepção do Concílio Vaticano II na América Latina.

Fotos: Celam

A II Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) foi solenemente inaugurada em um sábado, 24 de agosto de 1968, na Catedral Metropolitana de Bogotá, na Colômbia, com discurso do Papa Paulo VI. A notícia foi publicada no jornal O SÃO PAULO à época, com repercussão dos bispos brasileiros que participaram da Conferência.

Entre eles, Dom Avelar Brandão, então Arcebispo de Teresina (PI) e Presidente do Celam, que, ainda no início da Conferência, pediu aos bispos para não adotarem posições radicais. “Somos todos irmãos”, disse o Bispo brasileiro “e a Igreja não pode ter linhas que corram em forma paralela, sem jamais se encontrarem”, afirmou o Bispo. 

O fato é que Medellín, Conferência da qual participaram cerca de 4 mil pessoas, foi um marco para a Igreja na América Latina e, com ela, afirma-se que, efetivamente, o Concílio Vaticano II (1962-1965) encontrou espaço nas igrejas particulares latino-americanas.

Em outro texto publicado no O SÃO PAULO , em agosto de 1968, o Cardeal Juan Landazuri Ricketts, então Arcebispo de Lima, no Peru, e um dos três presidentes da reunião do Celam, afirmou: “Por que não o dizer? Nossa mentalidade e formação, nossa maneira de pensar e agir são diversas, inclusive alguns pareçam discordantes, mas, talvez, não é esta a hora da claridade? Estamos reunidos para aplicar o espírito do Vaticano II que continua despertando esperanças por toda parte”.

A continuidade do Concílio Vaticano II e as conclusões da Conferência – que terminou no dia 6 de setembro de 1968 – marcaram uma posição inteiramente inovadora para a Igreja na América Latina. 

O Cardeal Rossi, então Arcebispo de São Paulo, também salientou esse sentimento de novidade, quando afirmou em texto publicado no Semanário da Arquidiocese: “Iniciou-se uma nova era na Igreja da América Latina em que o espírito eclesial e de colegialidade episcopal saiu fortalecido em nosso continente. Contribuiu o Brasil com especial quinhão para esse êxito, graças à sua delegação, em que se quis levar em conta também a representatividade das diversas regiões do nosso País”.

 

UM ANO DE TRANSFORMAÇÕES

Padre José Oscar Beozzo, Doutor em História Social e coordenador-geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular, recordou também que a Conferência de Medellín aconteceu em um ano de transformações em todo o mundo. 

“Já em janeiro de 1968, o mundo surpreendeu-se quando a ofensiva do Tet, no Vietnã, ficou conhecida pela ofensiva às tropas norte-americanas. No Brasil, o regime militar ganhou força nas ruas do País e as prisões e torturas aconteceram de forma violenta, precedendo o Ato AI-5. Já em Praga, na Europa, ficou conhecida a Primavera de Praga, com a liberalização política na Tchecoslováquia. Enfim, Medellín aconteceu no meio desses movimentos em todo o mundo e isso não pode ser ignorado”, salientou Beozzo.

Ele também recordou que o Beato Paulo VI criou a Pontifícia Comissão Justiça e Paz e escreveu a encíclica Populorum Progressio . “Tais ações foram, de alguma maneira, uma resposta aos bispos latino-americanos que pediram ao Papa uma atenção especial da Igreja acerca da realidade latino-americana, sobretudo no que se refere à pobreza e às injustiças sociais”, continuou. 

Em 2018, comemora-se os 50 anos da Conferência de Medellín, que significou um ponto de partida para a construção de uma identidade eclesial no continente. Com Medellín, o Concílio Vaticano II teve uma recepção criativa, com raízes espirituais profundas. 

‘O episcopado em Medellín assumiu como imperativo de ação a consolidação da justiça, a promoção da paz, a educação libertadora e uma Igreja pobre em defesa dos empobrecidos’

(Padre Ney de Souza)
 

MEMÓRIA, PROFETISMO E ESPERANÇA

Em entrevista à reportagem, Padre Ney de Souza, Professor da PUC-SP e autor do livro “Medellín - memória, profetismo e esperança na América Latina”, publicado pela editora Vozes , afirmou que na América Latina a recepção do Vaticano II aconteceu a partir dos diversos níveis eclesiais. “Em certos momentos com dinamismo maior e em outros com passos lentos. Desde a liturgia até o ecumenismo, perpassando pela eclesiologia, pelo laicato, pelo episcopado e pela formação do clero, não faltaram esforços para consumar o Concílio convocado de maneira imprevista e surpreendente pelo Papa João XXIII.”

Padre Ney recordou que Medellín foi fruto da gestão realizada pelo então Presidente do Celam, Dom Manuel Larrain, Bispo de Talca, no Chile. “A sua intenção era propiciar um aggiornamento (atualização) da Igreja latino-americana, mediante a aplicação do espírito e orientação do Vaticano II. Como se sabe, Dom Larrain faleceu em 1966 e foi Dom Avelar Brandão Vilela, à época Arcebispo de Teresina (PI), que o sucedeu na Presidência do Celam e tocou adiante o projeto”, explicou. 

 

PAULO VI

Padre Ney lembrou que o próprio Papa Paulo VI veio à América Latina para inaugurar a Conferência de Medellín: “Nos três dias previstos para sua estada em Bogotá, realizou 21 alocuções a diferentes públicos. No discurso de abertura da Conferência, o Bispo de Roma frisou que, com sua presença, inaugurava-se ‘um novo período da vida eclesiástica’ na América Latina. Em vias de iniciar as atividades de Medellín, dirigiu-se aos bispos com um claro intuito de orientá-los. Escolheu em sua admoestação três pontos a serem refletidos com o episcopado: espiritual, pastoral e social.” 

Padre Ney recordou ainda os principais temas tratados pelo Papa em seu discurso. “No que se refere ao espiritual, Paulo VI instigou os bispos a viverem com intensidade os mistérios divinos antes de dispensá-los aos outros. Na mesma linha, chamou a atenção para certa desconfiança vigente em relação à fé, bem como a adesão a ‘filosofias da moda, muitas vezes tão simplistas quanto confusas’, inclusive de teólogos. Disse, ainda, que cabe ao episcopado, para o bem espiritual dos fiéis, promover a reforma litúrgica e a formação espiritual do povo de Deus”, comentou.

“Na ótica pastoral, o Papa afirmou em sua alocução que ‘encontramo-nos no campo da caridade’. Exortou o episcopado a continuar a reflexão e assegurou que ‘a caridade com o próximo depende da caridade com Deus e os alertou contra as tendências que denomina de secularizantes e pragmáticas do Cristianismo, bem como uma visão dualista da Igreja, em que a carismática prescinde da institucional que já é expressão superada do Cristianismo. Nesse sentido, para aplainar visões distorcidas do Cristianismo, prosseguiu o discurso, duas categorias merecem especial caridade e atenção: os sacerdotes e a juventude. Sem prescindir das outras categorias: ‘trabalhadores do campo, da indústria e similares’”, destacou  Padre Ney. 

O Padre concluiu sua reflexão falando sobre a situação social extrema que vivia a população na América Latina. “O extremo empobrecimento da população, as injustas condições de vida e a violência institucionalizada que grassavam entre a população era marca que definia a realidade deste território. É nesse sentido que o episcopado em Medellín assumiu como imperativo de ação a consolidação da justiça, a promoção da paz, a educação libertadora e uma Igreja pobre em defesa dos empobrecidos.” 

 

Sínodo da Igreja em São Paulo no horizonte do eixo Medellín-Aparecida

Na sexta-feira, 11, na conclusão da Semana Teológica que aconteceu nos campi Ipiranga e Santana da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUC-SP, falou-se sobre o sínodo arquidiocesano de São Paulo. Na mesa de debates, Cônego Antonio Manzatto, Doutor em Teologia e Professor da PUC-SP; Cônego Sergio Conrado, Pároco da Paróquia São Gabriel Arcanjo e Professor Emérito da PUC-SP; e Padre Tarcísio Mesquita, Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo, falaram sobre o sínodo como um momento privilegiado para a Igreja em São Paulo.

Cônego Manzatto recordou que, para os bispos que participaram da Conferência, Medellín não foi somente uma reunião estratégica para pensar questões pastorais a partir do Concílio Vaticano II, mas marcou um modo novo de ser Igreja. “Situamo-nos num horizonte teológico-pastoral, que se desenvolve a partir de práticas eclesiais concretas, numa Igreja que vive a fé de maneira concreta, pois não há como fazer uma separação entre reflexão teológica e prática eclesial”, disse, ao introduzir o tema.

Cônego Sergio Conrado, por sua vez, afirmou que a Arquidiocese de São Paulo não poderia fazer outra coisa pós-Medellín a não ser abraçar a Conferência. “Foi uma assembleia de bispos, voltada para as Igrejas locais, e que valorizou as Igrejas locais em suas necessidades”, disse. Ele recordou, ainda, algumas questões que foram e continuam sendo essenciais para a missão da Igreja, como a questão do pluralismo religioso, a crise dos valores morais, a distância cada vez maior entre pobres e ricos, e fez uma provocação que, segundo ele, precisa ser atenciosamente contemplada pelo sínodo. “Como ouviremos os que não participam das paróquias e comunidades? Quem vai ouvi-los? Isso é muito importante para garantir que nosso sínodo não seja só um olhar para dentro”, reforçou.

Padre Tarcísio Mesquita salientou o fato de o sínodo ser um caminho de comunhão, conversão e renovação. “Queremos sair das nossas estruturas para ouvir a todos. A ideia é que todos possam fazer-se ouvir, sobretudo aqueles que trabalham nas periferias, as urbanas e as existenciais. O nosso centro da cidade, por exemplo, é uma grande periferia”, explicou.

“Se nosso sínodo conseguir renovar nossos quadros de agentes de pastoral que ocupem lugar nos presídios, nas periferias existenciais e geográficas, nos edifícios, nos cortiços, o sínodo terá tido êxito. É necessário que leigos e leigas, membros do clero e religiosos sejam exemplares no ouvir e no agir, uma Igreja que escuta e uma Igreja servidora”, continuou Padre Tarcísio.

 

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