SÃO PAULO

GERAL

Mãos que rezam e amassam o pão

Por Nayá Fernandes
19 de julho de 2019

Doces em compota, geleias, pães, biscoitos, mel, licores e cervejas são produzidos nos mosteiros e conventos de São Paulo

Sabia que o cafezinho que você toma todos os dias foi uma descoberta dos monges? Um pastor de cabras da Etiópia percebeu a diferença de comportamento de seus animais após estes comerem um fruto diferente e de coloração vermelho-escura. Levou as frutinhas e algumas folhas ao mosteiro próximo, e o abade, juntamente com alguns monges, julgou que aquele era um fruto do diabo, pois causou certa agitação nas cabras. Jogou no fogo os frutos do café com as folhas e um delicioso aroma se espalhou por todo o mosteiro, fazendo com que os monges retirassem às pressas os frutos das chamas e os colocassem na água para limpar; como em uma infusão, o líquido escureceu e o cheiro se evidenciou ainda mais. Passou a ser considerado uma bebida divina.


A história sobre a origem do café foi contada por Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB, Monge do Mosteiro de São Bento, em São Paulo. No Mosteiro de São Bento, bem como em outros mosteiros e conventos de São Paulo, os monges, monjas e religiosos fazem pães, geleias, doces e outros ítens para vender e oferecer às pessoas que visitam esses locais ou participam das celebrações, missas e festas. As famosas lojinhas dos mosteiros escondem raridades que, com certeza, além de alimentar o corpo, podem também fazer bem para a alma.


Em entrevista ao O SÃO PAULO, Dom João Baptista falou sobre a relação que um monge tem com a comida e como o preparo e a hora da refeição devem ser tratados com importância e equilíbrio. 


“A Regra de São Bento pode ser sintetizada pela divisa ora et labora (oração e trabalho), uma vez que o cotidiano no mosteiro é perpassado por momentos de oração e trabalho. Dos 73 capítulos da Regra, ao menos 10 são dedicados à refeição (logística e postura) no mosteiro. Aí encontramos orientações de como tudo deve ocorrer – com silêncio e sobriedade”, explicou. 


Em geral, os monges tomam suas refeições em horários definidos pelo abade e pela comunidade monástica, sendo as principais refeições o desjejum, o almoço e a ceia. “Como a comida é algo essencial para a vida, a hora da refeição deve ser tratada com muitíssima importância e equilíbrio. A comida irá sustentar o corpo para um bom trabalho, para uma boa oração. Enfim, para ter uma vida saudável”, continuou Dom João Baptista.

Criatividade e qualidade
Segundo o Monge, a cozinha monástica exige uma boa dose de criatividade porque, dependendo das circunstâncias e do contexto em que o mosteiro está inserido, muitas vezes com escassez de comida, o monge cozinheiro tem que se virar com o que tem no lugar – tal desafio esteve particularmente presente em séculos anteriores. 


“Daí acabam por surgir novas receitas, como pães, bolos, queijos etc. A manteiga, por exemplo, foi o aproveitamento da gordura extraída do queijo. O trato da comida acaba por ser diferente no mosteiro. A comida é primeiramente para a subsistência dos religiosos. Mas, em muitos mosteiros, devido às suas vastas terras, é aproveitada para venda dos frutos ou para a produção de alimentos que são comercializados nas lojas dos mosteiros e abadias”, explicou o Monge, que lançou, em 2019, o livro “Devocionário e Novena de São Bento”.
Ele salientou, contudo, que diferentemente do que acontece com a maioria dos comerciantes de alimentos, não há o ideal capitalista e o desejo de expandir comercialmente. “Tudo é feito com muita calma, paciência e manualmente. Por isso uma qualidade única”, continuou.


No século XVII, os monges do Mosteiro de São Bento comercializavam telhas e tijolos que eram produzidos numa olaria na região de São Caetano do Sul (SP). Já a comercialização dos pães, bolos e outras iguarias, surgiu em 1999. 


Em 2018 foi publicado o livro “Cozinhe com os monges: as tradicionais receitas de entradas, pratos e sobremesas do Mosteiro de São Bento”, pela Editora Planeta. O livro traz cem receitas do mosteiro e se trata de uma publicação diferente, que, além das receitas, traz a história da comida e orações para antes e depois das refeições.

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