NACIONAL

Política

Livro ressalta que a política é parte do cotidiano de todos

Por Daniel Gomes
13 de março de 2018

"Política: nós também sabermos fazer”, nasceu da percepção de desânimo dos brasileiros em relação à política

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Em ano eleitoral, as discussões sobre política se multiplicam em todas as partes do País e, muitas vezes, são acompanhadas pelo discurso de descrédito em relação aos políticos, especialmente com as crescentes descobertas de esquemas de corrupção, envolvendo nomes de diferentes partidos. 

Em outubro de 2017, por exemplo, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostrou que 83% dos brasileiros não confiam no Presidente da República, 79% desconfiam dos políticos e 78% dizem não confiar nos partidos. 

A constatação de um cenário de desânimo dos brasileiros em relação à política motivou a editora Vozes (universovozes. com.br) a publicar o livro “Política: nós também sabermos fazer”, que será lançado na segunda-feira, 12, às 19h30, no Teatro Gazeta (Avenida Paulista, 900 – próximo ao Metrô Trianon-Masp), com um debate entre os quatro autores da obra: o jornalista Clóvis de Barros Filho, a filósofa e psicóloga Viviane Mosé, a economista Eduarda La Rocque e o filósofo Oswaldo Giacoia Jr.

“Nós pensamos que resgatar a ideia da política como participação social, como integração na sociedade, seria muito interessante. Começamos a pensar em autores que poderiam desenvolver uma reflexão mais conceitual e não partidária. A ideia básica é resgatar o ser humano como ser político”, explicou, ao O SÃO PAULO , Welder Lancieri Marchini, Mestre em Ciências da Religião, que coordena o trabalho editorial do livro. 

Welder, que também é teólogo e filósofo, destacou que a etimologia da palavra política remete a “pólis” – cidade, em grego – e, como todos vivem em sociedade, ninguém pode se considerar alheio à política, em um sentido mais amplo do que o entendimento comum de política partidária. “Nenhum dos autores fala do que seria um modo certo de fazer política. O mais importante é a ideia de que não há como não ser político, e que a pior maneira de fazer política é pensá-la como algo sujo e que, por isso, alguém não deva envolver-se com ela”, analisou. 

Para ele, um dos problemas atuais é a crença de que apenas os políticos eleitos e os candidatos fazem política. “A partir do momento que nós votamos em alguém, parece que ele é o único responsável, que nós não temos mais que acompanhar, não temos que participar da política. Isso está muito equivocado. A política não é profissão, o ser político também não. Talvez essa insatisfação com a política que os números mostram venha do equívoco de se delegar apenas para o político a função de fazer política. Nós deveríamos participar mais, acompanhar aquilo que é feito”, acrescentou.

Também na avaliação de Teobaldo Heidemann, Coordenador Nacional de Vendas da editora Vozes , “a política não deve ser pensada só no nível de esferas de governo”, mas por todos como parte do dia a dia. “O cidadão deve voltar a ser ativo na discussão política, para que a sociedade esteja representada nas decisões. Muitas vezes, quem toma a decisão o faz por interesses próprios ou em favor de alguém. Assim, é preciso que nós, como cidadãos, voltemos a pensar a política para equilibrar os interesses”. 

 

O QUE É POLÍTICA?

Responder a essa pergunta é o que faz Clóvis de Barros Filho. Ele destaca o ser humano como um ser político e apresenta reflexões sobre os modos atuais de participação política e o entendimento da política na mídia e entre os especialistas.

“Toda instituição cuja atuação interessa à pólis seria política; todo discurso de porta-voz legitimado pela pólis também seria político; o mesmo para todo representante ou candidato a governante na pólis; toda notícia que interessasse à pólis; todo grupo que pretendesse discutir o que é melhor para a pólis; todo livro que falasse da pólis... Perceba a extensão desses exemplos. Muito mais amplo do que diariamente é chamado de política pelos meios e seus consumidores. Um conceito estendido, portanto, que vai além do Estado e da atuação dos profissionais da política. Que implica mais gente. Todo mundo, a rigor. Assim, não se trata só de estar a par dos feitos e malfeitos das autoridades, aplaudir ou vaiar”, afirma em um dos trechos do livro.

 

LUTAS POLÍTICAS

“O Poder e as redes” é o tema tratado por Viviane Mosé, com uma reflexão sobre o fazer político e as maneiras de lutas políticas cotidianas, com destaque para as novas estratégias de ação política na sociedade em rede.

“Vivemos uma guerra da informação, que elege e depõe presidentes, cria e derruba ídolos, compromete ou salva políticos, torna mito ou algoz um cidadão comum. Como cegos em tiroteio, tentamos filtrar uma informação falsa, mas, afinal, nunca sabemos se um fato não foi construído apenas para sustentar uma notícia. Tem sempre um celular esperando um gesto, a qualquer hora, em qualquer lugar. Tem sempre algum discurso defendendo algo, ou algum fato sendo criado para justificar um discurso; não apenas notícias falsas, mas situações objetivamente manipuladas para serem registradas e postadas. Domina quem mais simula, distorce; ganha mais quem sabe inventar realidades, produzir verdades, fatos por encomenda”, consta no livro.

 

DEMOCRACIA E INFORMAÇÃO

Eduarda La Rocque discute o atual modelo democrático, que, segundo ela, está pautado no mercado de votos e negociatas. Ela aponta a democratização do acesso à informação qualificada como instrumento de resgate da democracia, bem como a intensa participação do cidadão nas decisões do poder público.

“A formação dos cidadãos se dá na ação, na participação. A única saída para a democracia é criar instâncias efetivas de participação, a partir de uma base de informação qualificada. Só assim, emergirá uma nova cidadania; forte, ativa, com a transformação do eleitor em cidadão. A democracia requer representatividade, que só se obtém com participação efetiva e uma composição do saber; ou seja, a partir da composição de diferentes saberes”, afirma no livro. 

 

ÉTICA E POLÍTICA

Uma reflexão sobre ética e política é o que oferece Oswaldo Giacoia Jr., no artigo que encerra a obra. Ele mostra como o debate ético nasce da crise contemporânea e como a Filosofia pode trazer alguma clareza para momentos conturbados: “...a pergunta pelo futuro do humano não pode prescindir, em nossos dias, de uma reflexão aprofundada sobre as consequências éticas, sociais, políticas e culturais geradas pelo desenvolvimento das ciências e das tecnologias. Uma vez que o desenvolvimento produziu não apenas uma alteração substancial de nossa cosmovisão, mas também uma mudança radical na autocompreensão ética da espécie humana, parece que se apresenta hoje a necessidade de repensar limites éticos para evitar as consequências potencialmente catastróficas do desenvolvimento técnico-científico...”, consta em um dos trechos do livro.

(Com informações da editora Vozes e FGV)
 

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