SÃO PAULO

Sínodo Arquidiocesano

Levantamento de campo ajuda Igreja a conhecer seu rosto na cidade

Por Fernando Geronazzo
09 de novembro de 2018

Banco de dados contém mais de 21 milhões de registros enviados por pesquisadores

Luciney Martins/O SÃO PAULO

O levantamento da realidade religiosa dos moradores das áreas de abrangência das paróquias da Arquidiocese de São Paulo chegou ao fim. Após dois meses de peregrinação pelas casas de diferentes bairros, os 300 pesquisadores voluntários obtiveram uma percepção de como a Igreja é vista pela população e como a fé é vivida nos lares paulistanos.

 

NÚMEROS

Os números do levantamento dão uma demonstração da magnitude da pesquisa. De acordo com o relatório geral do levantamento, foram entrevistados 16.399 católicos, entre homens e mulheres, de diferentes idades, correspondendo à meta da amostragem definida pela Coordenadoria de Estudos e Desenvolvimento de Projetos Especiais (Cedepe), organismo da PUC-SP, que desenvolveu a metodologia científica da pesquisa e treinou os voluntários. Também foram entrevistadas 5.789 pessoas que se declararam não católicas e aceitaram responder às questões gerais da pesquisa destinadas a esse perfil de público.

Alcançar a meta não foi fácil. O relatório contabilizou 33.760 pessoas abordadas que se recusaram a responder o questionário por diversas razões, como falta de tempo ou desinteresse. 

Foram visitados domicílios de 295 paróquias territoriais da Arquidiocese. Em quase todas elas, foi possível atingir a meta de 50 católicos em cada paróquia. Apenas em um pequeno número delas esse número não foi alcançado por dificuldade de acesso aos domicílios.

“Essa dificuldade de acesso também é um dado importante para o sínodo, porque mostra o quanto a Igreja consegue chegar a esses lugares, sobretudo nas áreas de condomínios, mais fechadas à atuação eclesial”, explicou Dom Devair Araújo da Fonseca, Bispo Auxiliar de São Paulo, Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação e um dos responsáveis pela organização do levantamento. “Não significa que nesses lugares não existam católicos. O que existe concretamente é a dificuldade para ter acesso a eles”, acrescentou. 

 

DADOS

O banco de dados do levantamento contém mais de 21 milhões de registros de dados enviados pelos pesquisadores por meio do aplicativo digital utilizado para o questionário. Ao todo, foram cerca de 1,7 milhão de questões respondidas e mais de 55 mil questionários enviados. 

Esses dados permitem inúmeras possibilidades de cruzamentos entre si e com outras informações, como os dados do Censo do IBGE, enviados pela Cedepe junto com os relatórios do levantamento. 

Dom Devair ressaltou ao O SÃO PAULO que a análise geral dos dados é positiva. “Percebemos o interesse das pessoas pela Igreja, abertura e desejo pela vida sacramental. Percebemos, ainda, a importância da missa, que acaba sendo a principal forma de vinculação dos católicos com a Igreja”, disse.

Ainda de acordo com o Bispo, a partir da comparação desses dados com os obtidos pelo levantamento interno sobre a realidade pastoral das paróquias, será possível identificar movimentos de crescimento e de diminuição da procura por determinados sacramentos nos últimos anos. “Identificamos, por exemplo, um aumento da procura de adultos pelos sacramentos da Iniciação Cristã”, destacou. 

 

EXPERIÊNCIA MISSIONÁRIA

A maneira como a pesquisa foi realizada, por meio de voluntários indicados pelas paróquias e comunidades, favoreceu que o levantamento sinodal fosse uma experiência missionária. Sair às ruas, bater de porta em porta, ouvir recusas e as impressões dos entrevistados causou um impacto na vida desses homens e mulheres.

A dona de casa Graça Ferreira Barros Mendes, 62, visitou casas na área da Paróquia São João Batista e ajudou na conclusão da pesquisa na Paróquia Nossa Senhoras das Graças, ambas no Setor Guarani da Região Episcopal Ipiranga. Para ela, foi uma experiência desafiadora, pois pôde constatar uma realidade diferente da que imaginava. 

“Imaginei que ao mencionar ‘Arquidiocese de São Paulo’ facilitaria a abordagem. Porém, já nas primeiras tentativas, constatei o total desconhecimento das pessoas, assim como o desconhecimento da realização do sínodo e, no decorrer do questionário, o significado e função da CNBB, por exemplo”, relatou.

No entanto, a pesquisadora destacou a riqueza de poder ouvir os comentários e justificativas dos entrevistados ao responderem as questões. “Foi uma experiência marcante saber como pensam”, ressaltou. 

Pesquisadora da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Brasilândia, a pedagoga Daniela Valle Spadini destacou o quanto as pessoas precisam ser ouvidas. “Nós, da Igreja Católica, precisávamos viver isso. Foi realmente uma missão”, disse. 

A publicitária Ana Cristina Paula de Lima, 51, que pesquisou no território da Paróquia Imaculado Coração de Maria (Capela da PUC-SP), na Região Episcopal Sé, destacou a oportunidade de entrar em contato com as pessoas que, por diversas razões, estão afastadas da Igreja e ouvi-las. “Muitas delas demonstraram o desejo de retornar à Igreja, mas não sabem como. E nós teremos que ajudá-las”.  Ela salientou que o próprio questionário levou as pessoas a pensar em coisas que nunca haviam refletido. “Creio que esse questionário tinha um aspecto evangelizador, pois mexia com as convicções profundas da pessoa. Enquanto respondiam, as pessoas paravam para pensar sobre o assunto”. 

 

EM FAMÍLIA

A pesquisa de campo mobilizou famílias inteiras, como o caso da psicóloga Alessandra Roberta Taques, 45, que realizou pesquisas em seis paróquias do Setor Vila Maria, na Região Episcopal Santana, junto com seu marido, o analista de sistemas Jony Celestino da Silva, 51, e sua filha, a estudante de Nutrição Beatriz Taques Amorim, 20. A família percorreu 3,5 mil casas para alcançar a amostragem de católicos entrevistados dessas paróquias. 

“Esse sínodo serviu de aprendizado para nós mesmos. Há muitas perguntas do questionário que eu fazia a mim mesma: ‘Eu faço isso?’ Eu mudei muitos hábitos e costumes a partir dessa experiência. Por exemplo, eu não conhecia ainda o Catecismo da Igreja Católica, mas tratei de comprá-lo e lê-lo”, partilhou Alessandra.

 

ASSEMBLEIAS

As paróquias já receberam os relatórios da pesquisa de campo para fazerem suas análises nas assembleias paroquiais do sínodo, que já estão ocorrendo. Essas informações são essenciais para que aconteça a “renovação missionária” desejada pelo caminho sinodal da Igreja em São Paulo. Como enfatizou o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, na ocasião da convocação do sínodo, será a oportunidade de a Igreja “olhar-se no espelho” e fazer uma profunda reflexão sobre sua vida e missão na cidade.

 

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