INTERNACIONAL

Cone Sul

Leigos em cargos públicos e bispos dialogam sobre desafios políticos no Cone Sul

Por Daniel Gomes
17 de abril de 2019

Amar muito a Jesus Cristo e conhecer bem o Evangelho; formar-se na Doutrina Social da Igreja; ter sempre em vista o bem comum; promover a solidariedade e a justiça social; ter em conta a opção preferencial pelos pobres são algumas das recomendaçõe

Conferência Episcopal Paraguaia

Refletir sobre caminhos para a regeneração da vida política e a busca do bem comum, a partir da contribuição da Igreja e da pluralidade de opiniões político-partidárias, foi um dos propósitos do “Encontro de Católicos com Responsabilidades Políticas a Serviço dos Povos da Região do Cone Sul”, realizado em Atyra, a 47km da capital paraguaia, Assunção, entre os dias 10 e 12.

Participaram da atividade 80 católicos que ocupam cargos públicos no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, bem como padres e bispos que atuam nestes países, entre os quais o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano de São Paulo.

A iniciativa foi do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e da Pontifícia Comissão para a América Latina (CAL), e deu sequência às reflexões de um encontro realizado em Bogotá, na Colômbia, em dezembro de 2017, no qual se destacou a importância da presença e testemunho dos católicos na vida pública.

 

PELO BEM COMUM E EM RESPEITO ÀS DIFERENÇAS

Na abertura dos trabalhos, no dia 10, houve a reapresentação do vídeo que o Papa Francisco enviou aos participantes do encontro de 2017, em que se menciona a dimensão do servir daqueles que se dispõem a atuar na política.

O Cardeal Rubén Salazar Gómez, Arcebispo de Bogotá e Presidente do Celam, ressaltou a contribuição dos católicos na vida pública. Ainda no primeiro dia, o professor Rodrigo Guerra, do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, apresentou o histórico da atuação política e da democracia nos países do Cone Sul; e o Doutor Guzmán Carriquiry, Secretário da Vice-Presidência da CAL, falou sobre as prioridades e desafios de uma política democrática na América Latina segundo o magistério do Papa Francisco e do episcopado latino-americano.

 

SEM IDEOLOGIAS E PARTIDARISMOS

Ao longo do evento, os participantes realizaram trabalhos em grupo, nos quais, entre outros aspectos, refletiram sobre a contribuição da Igreja no processo de regeneração da política e a preocupação em formar uma nova geração de católicos a serviço da política latino-americana.

Carriquiry lembrou que em vez de polarizações ideológicas, os católicos com responsabilidades políticas devem buscar uma dialética democrática, que leve a um ponto superior de unidade.

Também o Cardeal Gómez reforçou que a Igreja não apresenta uma ideologia nem busca criar partidos, mas motiva ao compromisso de todos com as questões da vida pública.

Houve, ainda, dois painéis com os temas “O que dizem os políticos aos pastores?”, e “O que dizem os pastores aos políticos?”, nos quais cada um dos participantes pode apresentar um conteúdo reflexivo.

(Com informações de Vatican News, Celam e Conferência Episcopal Paraguaia)
 

Cardeal Scherer: os cristãos e a política

O Cardeal Odilo Scherer participou de um dos painéis temáticos do evento. Inicialmente, expressou sua admiração e respeito pelos católicos empenhados na política, e lembrou que “os cristãos não podem se eximir de participar consciente e responsavelmente da promoção do bem do País”.

O Arcebispo de São Paulo também manifestou que as condições de sofrimento, exclusão social, violência e injustiça em que vivem ainda muitos brasileiros “não condizem com a dignidade humana nem dão glória ao nome de Deus. Os cristãos, eleitores e candidatos, precisam sentir-se profundamente interpelados a desempenhar uma cidadania ativa para a definição dos rumos que o seu país deverá trilhar, orientados, certamente, pelos princípios da justiça, da dignidade humana e da solidariedade social”.

 

LAICIDADE

Dom Odilo considerou como algo grave o descrédito que a maioria das pessoas tem em relação à política, e pontuou que quando representantes da hierarquia da Igreja falam sobre questões políticas “aparecem logo ânimos inflamados, sempre prontos a reivindicar que o Estado é laico e que religião e política devem permanecer separadas e distantes”. No entanto, o Cardeal apontou que “a Igreja Católica não busca privilégios nem quer tomar o poder do Estado e também entende que o Estado seja laico, não imponha a religião a ninguém e assegure a todos a liberdade de crer e de expressar publicamente as próprias convicções”, o que inclui o direito dos cristãos em falar e agir em conformidade com as próprias convicções. “O ‘Estado laico’ não pode ser invocado como pretexto para a discriminação religiosa, nem para a imposição, sobre a sociedade, de um pensamento oficial e único.”

 

RECOMENDAÇÕES

Por fim, Dom Odilo apresentou algumas recomendações aos políticos que professam a fé católica, entre as quais: amar muito a Jesus Cristo e conhecer bem o Evangelho; formar-se na Doutrina Social da Igreja; ter sempre em vista o bem comum; promover a solidariedade e a justiça social por meio de ações políticas eficazes; ter em conta a opção preferencial pelos pobres, dando atenção especial às categorias sociais mais frágeis e vulneráveis; testemunhar pessoalmente a honestidade, a retidão de caráter e o respeito profundo pelas pessoas; “construir pontes” em vez de colecionar adversários e inimigos; manter o diálogo com os pastores da Igreja, não buscando classificá-los no simplismo “direita-esquerda”; e ter coragem de assumir publicamente as convicções católicas.

“Temos uma contribuição importante a dar à sociedade, a partir do Evangelho e das convicções cristãs sobre a pessoa, a ordem cultural, social e econômica. O Evangelho é um bem para todos”, concluiu o Cardeal Scherer.

 

IMPRESSÕES DOS POLÍTICOS BRASILEIROS NO EVENTO

“Os diálogos entre pastores da Igreja e católicos leigos com responsabilidades políticas nos fez aprofundar principalmente em dois aspectos, na minha visão: em primeiro lugar, no que diz respeito ao sentido sobrenatural da vocação política, como compromisso de serviço e de caridade; em segundo, nas diversas formas de presença da Igreja na vida pública como promotora incansável de uma sociedade justa, fraterna e atenta às exigências do bem da pessoa humana”

Enrico Misasi deputado federal (PV-SP), que esteve no evento com o deputado estadual Reinaldo Souza Alguz (PV)

“Infelizmente, esta conexão [fé e política] é muitas vezes distorcida até se transformar no avesso do que deveria ser, ou seja, não na materialização de uma política fundada nos valores espirituais, éticos e morais inspirados pela fé, mas em um esforço para conquistar a hegemonia política e aparelhar o Estado para atender a interesses sectários, negação da universalidade e justiça que a fé determina.”

José Police Neto (PSD), vereador em SP. Também pela Câmara foram Ricardo Nunes (MDB) e Paulo Frange (PTB)

“Não podemos ser no mundo medíocres nem médios. O mundo merece o nosso melhor. Por isso, a importância do formarse, mas também não ficar estagnados na formação, numa cátedra, numa cadeira de universidade para o resto da vida. Mas sim chegar ao equilíbrio. Formação e serviço, serviço e formação. A política também é um sacrifício e é uma entrega.”

Matheus Ayres (PP), vereador em Porto Alegre (RS), em entrevista à rádio Vaticano

“É indiscutível a necessidade dos nossos pastores nos ouvirem e também de nós que temos esta responsabilidade política de sermos ouvidos, principalmente no que diz respeito à necessidade que nós temos de um maior apoio da Igreja a nível de formação, a nível de cursos, de cuidados, de orientação, para que nós não cometamos tantos erros.”

Jorge Pinheiro (PSDC), vereador em Fortaleza (CE), em entrevista à rádio Vaticano

 

 

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