VATICANO

Coletiva de Imprensa

Leia a íntegra da entrevista do Papa no voo de volta a Roma após a JMJ do Panamá

Por Filipe Domingues/ Especial O SÃO PAULO
29 de janeiro de 2019

O São Paulo traduziu a conversa, com base na transcrição não-oficial e no vídeo da TV 2000

Vatican Media

A fé dos jovens, a questão migratória, o aborto, o celibato, a educação sexual, a crise na Venezuela. A coletiva de imprensa do Papa Francisco no voo de retorno do Panamá para Roma, na segunda-feira, 28, abordou todos esses temas, ligados direta ou indiretamente à Jornada Mundial da Juventude (JMJ). O São Paulo traduziu a conversa, com base na transcrição não-oficial e no vídeo da TV 2000.

 

Rádio Panamá: Santo Padre, qual era a sua missão na Jornada Mundial da Juventude? Foi cumprida?

 

Minha missão é a missão de Pedro, de confirmar na fé, e não com mandamentos frios, mas deixando tocar meu coração e respondendo ao que acontece lá. Eu a vivo assim. É difícil pensar que alguém só pode cumprir uma missão com a cabeça. Para realizar uma missão, você deve sentir… e quando sente acaba sendo tocado. Toca a sua vida, toca os seus problemas.

 

No aeroporto, eu estava cumprimentando o presidente e eles trouxeram uma criança, um negrinho simpático, pequenino. E o presidente me disse: “Olha, essa criança estava atravessando a fronteira da Colômbia, sua mãe morreu, ele ficou sozinho. Ele tem cinco anos. Vem da África, mas ainda não sabemos de qual país, porque não fala inglês nem português nem francês. Ele fala apenas a língua tribal. Nós praticamente o adotamos.” É o drama de uma criança abandonada pela vida, porque sua mãe morreu e um policial o entregou às autoridades para tomar conta dele. Isso mexe com você, e assim a missão começa a tomar cor, faz você dizer algo, acariciar. A missão sempre te envolve. Pelo menos a mim envolve muito.

 

Eu sempre digo aos jovens: o que você faz na vida tem que fazer caminhando, e com três linguagens. A da cabeça, a do coração, a das mãos. E as três linguagens harmonizadas, para que você pense o que sente e o que faz, sinta o que pensa e o que faz, faça o que sente e o que pensa. Eu não sei fazer um balanço da missão. Com tudo isso eu vou diante do Senhor para rezar, às vezes adormeço diante do Senhor, mas trazendo todas essas coisas que vivi na missão, e peço-lhe que confirme na fé através de mim. É assim que eu tento viver a missão do Papa.

 

Rádio Panamá: A JMJ correspondeu às suas expectativas?

 

Sim, o termômetro é o cansaço, e eu estou destruído!

 

Rádio Panamá: Existe um problema comum em toda a América Central: a gravidez precoce. Os críticos da Igreja Católica a culpam por resistir à educação sexual nas escolas. Qual é a opinião do Papa?

 

Eu acredito que é necessário dar educação sexual nas escolas. O sexo é um dom de Deus, não é um monstro. É um dom de Deus para amar e se alguém o usa para ganhar dinheiro ou explorar o outro, é um problema diferente. Precisamos oferecer uma educação sexual objetiva, sem colonização ideológica. Porque se você der uma educação sexual nas escolas imbuídas de colonização ideológica, destrói a pessoa. O sexo, como dom de Deus, deve ser educado, não com rigidez. Educado, de ‘educere’, para fazer emergir o melhor da pessoa e acompanhá-la no caminho. O problema recai sobre os responsáveis ​​pela educação, tanto no nível nacional quanto no local, bem como em cada unidade escolar: quais professores existem para isso, quais livros... Já vi todo tipo de coisas. Há coisas que ajudam a amadurecer e outras que causam danos. Digo isso sem entrar nos problemas políticos do Panamá: é preciso ter educação sexual para as crianças. O ideal é que comece em casa, com os pais. Nem sempre é possível, por causa de muitas situações familiares ou porque não sabem como fazê-lo. A escola pode suprir isso, e deve fazê-lo, caso contrário resta um vazio que é preenchido por qualquer ideologia.

 

Rome Reports: Nestes dias, o senhor conversou com tantas pessoas. Também com jovens que deixaram a Igreja. Quais são os motivos para se afastarem da Igreja?

 

São muitos, alguns bem pessoais. Mas a mais geral é a falta de testemunho dos cristãos. Dos padres, bispos. Não digo dos Papas porque... mas também! (risos). Falta de testemunho. Se um pastor é um empreendedor ou organizador de um plano pastoral, se ele não está perto do povo, ele não dá o testemunho de pastor. O pastor deve estar com as pessoas. O pastor deve estar à frente do rebanho, para indicar o caminho. No meio do rebanho para sentir o cheiro das pessoas e entender o que as pessoas sentem, o que elas precisam. E deve estar atrás do rebanho para proteger a retaguarda.

 

Mas se um pastor não vive com paixão, as pessoas se sentem abandonadas ou sentem um certo sentimento de desprezo. As pessoas se sentem órfãs. Eu falei sobre os pastores, mas também há cristãos, católicos hipócritas, que vão à missa todos os domingos à missa mas não pagam o décimo terceiro, sonegam, exploram pessoas. E depois vão para o Caribe tirar férias, com a exploração do povo. Se você fizer isso, dá um contra-testemunho.

 

Isso, na minha opinião, é o que mais afasta as pessoas da Igreja. Também os leigos. Eu sugeriria: não diga você é católico, se não dá testemunho. Diga: sou de educação católica, mas sou morno, sou mundano, me desculpe, não olhe para mim como modelo. Isso se deve dizer. Eu tenho medo de católicos assim, que acreditam ser perfeitos. A história se repete. O mesmo aconteceu com Jesus, com os doutores da lei, que oraram dizendo: ‘Eu te agradeço Senhor porque não sou como esses pecadores.’

 

Paris Matich: Vimos jovens rezarem com grande intensidade e podemos pensar que muitos têm vocação religiosa. Talvez alguns estejam hesitando, porque não poderiam se casar. É possível pensar que na Igreja Católica, seguindo o rito oriental, o senhor permitirá homens casados a se tornarem padres?

 

Na Igreja Católica do rito oriental eles podem fazer isso. Eles fazem a opção de celibato ou casado antes do diaconato. Quanto ao rito latino, uma frase de São Paulo VI vem à minha mente: “Eu prefiro dar a minha vida antes de mudar a lei do celibato.” Quero dizer isso porque é uma frase corajosa. Ele disse isso em 1968-1970, em um momento mais difícil do que o atual. Pessoalmente, penso que o celibato é um dom para a Igreja. Segundo, não concordo com permitir o celibato opcional. Não.

 

Permaneceriam algumas possibilidades em lugares distantes, penso nas ilhas do Pacífico, mas é algo a se pensar. Quando há necessidade pastoral, o pastor deve pensar nos fiéis. Há um livro do padre [Fritz] Lobinger, interessante, é algo que está em discussão entre os teólogos, não há decisão minha. Minha decisão é: celibato opcional antes do diaconato, não. É uma coisa pessoal. Eu não farei isso. Eu sou um fechado? Talvez. Mas não me sinto à vontade diante de Deus com essa decisão.

 

Mas o padre Lobinger diz: a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja. Onde não há Eucaristia – pense nas ilhas do Pacífico – Lobinger pergunta: quem faz a Eucaristia? Os diretores e organizadores dessas comunidades são diáconos, irmãs ou leigos. Lobinger diz: pode-se ordenar um idoso casado, esta é sua tese. Mas só para exercitar o “munus sanctificandi”, isto é, celebrar a missa, administrar o sacramento da reconciliação e dá a unção dos enfermos. A ordenação sacerdotal dá a três munera: o munus regendi (o pastor que lidera), o munus docendi (o pastor que ensina) e o munus sanctificandi. O bispo só lhe daria a licença para o munus sanctificandi.

 

Eu acredito que o tema deve ser aberto nesse sentido, onde há um problema pastoral por causa da falta de padres. Não digo que deva ser feito, pois não refleti nem rezei o bastante sobre isso. Mas os teólogos devem estudar. Conversando com um funcionário da Secretaria de Estado, um bispo que trabalhou em um país comunista no início da revolução, e quando eles viram como era essa revolução, na década de 50, os bispos secretamente ordenaram camponeses, bons e religiosos. Depois, passada a crise, trinta anos depois, a coisa foi resolvida. E ele me contou a emoção quando viu esses camponeses, com mãos de camponeses, colocarem suas túnicas para concelebrar com os bispos. Isso ocorreu na história da Igreja. É algo para estudar, pensar e rezar.

 

Esqueci de mencionar o Anglicanorum coetibus, de Bento XVI, para os padres anglicanos casados que se tornaram católicos, mantendo suas vidas, como se fossem orientais.

 

DPA: Durante a Via Crucis, um jovem pronunciou palavras muito fortes sobre o aborto. Gostaria de lhe perguntar se esta posição também respeita o sofrimento das mulheres nesta situação e se corresponde à sua mensagem de misericórdia.

 

A mensagem de misericórdia é para todos, também para a pessoa humana que está em gestação. Para todos. Depois desse fracasso, também há misericórdia. Mas uma misericórdia difícil, porque o problema não dar o perdão, mas acompanhar uma mulher que tomou consciência de ter abortado. São dramas terríveis. Uma mulher, quando ela pensa no que ela fez... Você tem que estar no confessionário, aí você tem que dar consolo, não punir.

 

Por isso eu concedi [a todos os padres] a faculdade de absolver o aborto por misericórdia. Elas devem ‘se encontrar’ com o filho. Muitas vezes, quando elas choram e têm essa angústia, eu recomendo assim: seu filho está no céu, fale com ele. Cante a canção de ninar que você não cantou para ele. E há um caminho de reconciliação da mãe com seu filho. Com Deus, a reconciliação já existe: Deus sempre perdoa. Mas ela também deve elaborar o que aconteceu. O drama do aborto, para entendê-lo bem, é preciso estar em um confessionário. Terrível.

 

Televisa: O senhor disse que se sentia muito próximo dos venezuelanos e pediu uma solução justa e pacífica, respeitando os direitos humanos de todos. Os venezuelanos querem entender: o que isso significa?

 

Eu apoio, neste momento, todo o povo da Venezuela agora porque eles estão sofrendo, aqueles de um lado e do outro. Se eu entrasse para dizer ‘escutem este ou aquele país’, eu me expressaria sobre algo que não conheço, seria uma imprudência pastoral e causaria danos.

 

Eu pensei e repensei as palavras que eu disse. Acredito que expressei minha proximidade, o que sinto. Eu sofro pelo que está acontecendo agora na Venezuela e por isso desejo que entrem em um acordo, não sei como. Pedi que houvesse uma solução justa e pacífica. O que me assusta é o derramamento de sangue.

 

Peço grandeza àqueles que podem ajudar a resolver o problema. O problema da violência me aterroriza, depois de todo o processo de paz na Colômbia, o ataque à escola de cadetes do outro dia é terrível. Não gosto da palavra “equilibrado”, mas quero ser pastor para todos. Se houver necessidade de ajuda para chegar a um acordo, que eles peçam.

 

Catholic News Service: Uma garota americana nos disse que o senhor falou com ela sobre a dor da crise dos abusos sexuais. Muitos católicos se sentem traídos e abatidos após relatos de abuso e acobertamento. Quais são as suas expectativas e esperanças para a reunião de fevereiro, para que a Igreja possa reconstruir a confiança?

 

A ideia deste encontro nasceu no C9 [Conselho de Cardeais] porque vimos que alguns bispos não entendiam bem ou não sabiam o que fazer ou fizeram uma coisa boa e outra errada. Sentimos a responsabilidade de dar uma ‘catequese’ sobre este problema às conferências episcopais e por isso são chamados os presidentes dos episcopados.


 

Primeiro: que se torne consciência do drama. É uma criança abusada. Eu recebo regularmente pessoas abusadas. Lembro-me de um: 40 anos sem poder rezar. O sofrimento é terrível. Segundo: que saibam o que deve ser feito, qual é o procedimento. Porque às vezes o bispo não sabe o que fazer. É algo que cresceu muito e não chegou a todos os lugares. Depois, que façam programas gerais, mas para todas as conferências episcopais: o que o bispo deve fazer, o que o arcebispo metropolitano deve fazer e o presidente da conferência episcopal. Que existam protocolos claros.

 

Esse é o objetivo principal. Ali, na reunião, rezaremos, haverá testemunhos para tomar consciência, uma liturgia penitencial para pedir perdão a toda a Igreja. Estão trabalhando bem na preparação da reunião.

 

Eu gostaria de dizer que percebi uma expectativa inflada. Temos que desinflar as expectativas, focando nesses pontos que falei. Porque o problema dos abusos continuará: é um problema humano, em todo lugar. Li uma estatística outro dia que diz: 50% dos casos são relatados e apenas 5% deles são condenados. Terrível. É um drama humano. Resolvendo o problema na Igreja, ajudaremos a resolvê-lo na sociedade e nas famílias, onde a vergonha encobre tudo. Mas primeiro precisamos nos conscientizar, ter protocolos e ir em frente.

 

Ansa: O senhor disse que é absurdo e irresponsável considerar migrantes como portadores dos males sociais. O que sente sobre as novas políticas para migrantes na Itália, como o fechamento do centro de Castelnuovo di Porto?

 

Eu ouvi rumores do que acontece na Itália, mas estava imerso na Jornada. Não sei com precisão, mas imagino. É verdade que o problema dos migrantes é muito complexo. Requer memória. Devemos nos perguntar se meu país foi feito por migrantes. Nós argentinos, todos os migrantes. Os Estados Unidos, todos os migrantes.

 

As palavras que eu uso: receber, o coração aberto para acolher. Acompanhar, crescer e integrar. O governante deve usar a prudência, porque a prudência é a virtude daqueles que governam. É uma equação difícil. Lembro-me do exemplo sueco, que nos anos 70, com as ditaduras na América Latina, recebeu muitos imigrantes, mas todos foram integrados. Vejo também o que faz a Comunidade Sant'Egidio: integra-se imediatamente. Mas os suecos disseram no ano passado: parem um pouco porque não podemos concluir o processo de integração. E esta é a prudência do governante.

 

É um problema de caridade, de amor, de solidariedade. Reitero que as nações mais generosas a receber foram a Itália e a Grécia e também um pouco da Turquia. É verdade que se deve pensar com realismo. A maneira de resolver o problema da migração é ajudar os países de onde os migrantes vêm. Eles vêm por fome ou por guerra. A Europa é capaz de investir onde há fome, e essa é uma maneira de ajudar esses países a crescer. Mas há sempre esse imaginário coletivo que temos no inconsciente: a África deve ser explorada. Isso é histórico e faz mal. Os migrantes do Oriente Médio encontraram outras saídas. O Líbano é uma maravilha de generosidade, hospedando mais de um milhão de sírios. Jordânia, o mesmo. E fazem o que podem, esperando de se reintegrar. É um problema complexo sobre o qual devemos falar sem preconceito.

 

Muito obrigado pelo trabalho de vocês [jornalistas]. Eu gostaria de dizer algo sobre o Panamá: senti algo novo e essa palavra me veio: o Panamá é uma nação nobre. Eu encontrei nobreza. Gostaria de dizer algo mais: que nós, na Europa, não vemos, e que vi aqui no Panamá. Eu vi pais criando seus filhos e dizendo: esta é a minha vitória, esse é o meu orgulho, esse é o meu futuro. No inverno demográfico que vivemos na Europa – e na Itália abaixo de zero – isso deve nos fazer pensar. Qual é o meu orgulho? Turismo, feriados, a vila, o cachorrinho? Ou o filho? Obrigado. Rezem por mim, pois eu preciso.

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