SÃO PAULO

REPORTAGEM ESPECIAL

Joga lá na esquina

Por Daniel Gomes
24 de novembro de 2019

Ruas repletas de entulho e materiais volumosos, jogados muitas vezes pelas pessoas de localidades próximas

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Véspera de feriado, fim de tarde da quinta-feira, 14. No campinho de terra na esquina da Rua Forte de São Caetano com a Rua Palmas de São Moisés, no Jardim Peri, zona Norte de São Paulo, jovens e adultos se divertem jogando futebol, mas é melhor torcer para a que bola não saia pela lateral. Na esquina, imersos em uma água barrenta, estão jogados caixotes de madeira, telhas usadas, restos de materiais de construção, sofás, sacos plásticos, um televisor, armários desmontados, um colchão e, até mesmo, seis galinhas mortas. 
Moradores locais ouvidos pela reportagem disseram que quase todo dia aquela esquina (foto acima) e outras do bairro estão assim, repletas de entulho e materiais volumosos, jogados muitas vezes pelas pessoas de localidades próximas.

EM ESQUINAS, CALÇADAS E TERRENOS
As montanhas de materiais descartados em vias públicas não são exclusividade do Jardim Peri. Na última semana, a reportagem do O SÃO PAULO recebeu relatos de pontos viciados próximos à Escola Estadual João Solimeo, no Jardim Maristela, zona Noroeste (em frente às obras paradas da Linha 6-Laranja do Metrô); na Avenida Tibúrcio de Souza, no Itaim Paulista, zona Leste (neste caso, de lixo doméstico de condomínios); e também nas proximidades do Hospital Heliópolis, na zona Sul.
Também no dia 14, a reportagem percorreu as ruas do Jardim Fontális, Jardim Sobradinho, Jardim Campo Limpo e Jardim Flor de Maio, bairros localizados no extremo da zona Norte, no limite com o município de Guarulhos (SP).
Nas esquinas, calçadas e terrenos abertos, entulhos de construção e restos de móveis são o conteúdo predominante. A lista inclui ainda televisores, mochilas, tênis, espumas, garrafas de vidro, caixas de som, pneus, entre outros itens. 

ESVAZIANDO A CASA
Moradora do Jardim Flor de Maio há mais de 20 anos, Sirlene de Souza Pereira relata que, embora a Prefeitura faça a limpeza dos pontos viciados ao menos uma vez por mês, a frequência com que se descartam as coisas nas áreas comuns é maior. 
“Quando um inquilino deixa uma residência, muitas vezes não leva os móveis. Então, muitos proprietários, principalmente de madrugada, fazem o descarte nesses locais abertos”, disse Sirlene, comentando, ainda, que frequentemente essas pessoas pagam pequenas quantias, próximas a R$ 15, para que outras executem o descarte irregular. “A população precisa se conscientizar, ligar para o 156  [telefone de atendimento da Prefeitura]e pedir o agendamento do cata-bagulho”, complementou. 
Quem vive próximo a esses pontos viciados de descarte, como o existente na esquina da Rua Amor Perfeito com a Rua Dália, tenta contornar a situação. “Às vezes, a solução que a gente encontra é colocar fogo nesse entulho. A Prefeitura vem com frequência limpar as áreas, mas não demora muito para voltar a ter entulho, às vezes já no mesmo dia. A gente que mora aqui perto, se presencia uma pessoa tentando jogar lixo fora, não deixa”, relatou Célio Marcos Durval da Silva.
Muitos moradores também reclamaram da grande quantidade de ratos e baratas nestes bairros, além de escorpiões que passaram a surgir com a proliferação dos pontos viciados de descarte de entulhos e demais itens volumosos.

QUEM VAI RESOLVER?
No Jardim Campo Limpo, a rede de transmissão de energia de Furnas Centrais Elétricas passa sobre um terreno localizado na esquina da Rua Santa Isabel da Hungria com a Rua Santo André Corsini. Alguns anos atrás, uma moradora zelava pelo terreno com algumas plantas, mas tudo mudou neste ano após uma empresa contratada pela Prefeitura realizar um muro de arrimo na Rua Santa Isabel e despejar a terra da obra neste terreno. Desde então, aquele se tornou um ponto viciado de descarte, e, segundo os moradores, a Prefeitura não limpa o espaço por alegar que a responsabilidade é de Furnas. 

 

OUTROS RELATOS PELA CIDADE

"No entorno do hospital Heliópolis e outras ruas próximas, as pessoas descartam bastante entulho, provenientes, talvez, de reformas ou construções. Eu vejo quando passo de ônibus. Um cidadão está habitando em meio a um monte de tralhas. Ele fez um barraco na calçada e junta vários materiais. Entendo que parte sirva para reciclagem, mas a maioria é lixo mesmo. O hospital fica na zona sul, bem próximo ao Santuário de Santa Edwirgens, da Estrada das Lágrimas" - Edilson de Oliveira

“Em frente à Escola João Solimeo, na Brasilândia, há alguns tapumes de uma obra abandonada do Metrô, separando o terreno da obra, restou um ponto de ônibus e uma banca de jornal aparentemente abandonada, e ali virou ponto de lixo, tanto atrás da banca de jornal que fica entre o tapume e a banca quanto em volta da bancada de jornal. Ali virou um ponto viciado. É lamentável. A Prefeitura passa por lá de vez em quando faz a coleta da sujeira, mas sempre há quem vá e volta jogando de novo. O povo não tem essa educação toda de ter uma consciência que esse descarte pode causar problema por quem transita pela calçada, mas pode também alavancar doenças, pois há ratos, animais que passam por ali, reviram. A sujeira começou principalmente após o abandono da obra do metrô. Enquanto estavam mexendo na obra o espaço estava organizado” - Alberto dos Anjos

Relatos diversos de ruas com pontos viciados no Jardim Peri (confome dados fornecidos pela página Galeria Jardim Pery zona Norte)

- Avenida Peri Ronchetti x Dolores Barreto Coelho

- Rua Tereza penoy

- Viela da Flor de Lótus

- Córrego na rua Domingos José sapienza

- "Campo do pé”,  próximo a escola Zilka, Rua Forte de São Caetano, sempre tem lixo lá

- Esquina da Brasiluso Lopes com a Rua São Lourenço do Sul

- Esquina da Rua Amilcar Marchesini com a Rua Santo Adriano

- Rua Salles Malheiros x Rua José Mário Teixeira Leão

- Rua Índio Peri, próximo à bica de água

- Avenida Massao Watanabe, 1300

- Rua Ministro Lins de Barros entrada sem terra área 1

(Colaboraram com informações: Alberto  dos Anjos, Elaine da Silva, Edilson de Oliveira e Galeria Jardim Pery zona Norte)

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Reportagem Especial - O lixo em São Paulo

Jardim Fontális / Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO
Jardim Fontális / Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

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