NACIONAL

Canonização

Irmã Dulce será proclamada santa

Por Fernando Geronazzo
15 de mai de 2019

Papa Francisco reconheceu o milagre atribuído à religiosa baiana e autorizou sua canonização

Obras Sociais Irmã Dulce - Arquivo

Os católicos brasileiros receberam a notícia de que uma das grandes testemunhas do amor a Deus e serviço ao próximo no Brasil, Irmã Dulce dos Pobres, será canonizada.

Na terça-feira, 14, o Papa Francisco reconheceu o segundo milagre atribuído à intercessão da Bem-Aventurada baiana, o que possibilita, assim, ser proclamada santa da Igreja.

A notícia foi recebida com alegria na Arquidiocese de Salvador (BA), onde Irmã Dulce nasceu e dedicou a sua vida ao cuidado dos pobres, tornando-se conhecida como “O Anjo bom da Bahia”.

Segundo informações divulgadas pela Arquidiocese de Salvador, o milagre reconhecido tem relação com uma pessoa cega que recuperou a visão enquanto dormia. Ainda não foi divulgada, no entanto, a identidade da pessoa miraculada nem quando e onde o milagre aconteceu.

 

GRAÇA E RESPONSABILIDADE

O Arcebispo de Salvador, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, afirmou para a rádio 9 de Julho que a canonização de Irmã Dulce é para a Igreja no Brasil, ao mesmo tempo, uma graça e uma responsabilidade. “Uma graça porque será a primeira santa nascida no Brasil, em Salvador, onde viveu a maior parte de sua vida”, disse.

Dom Murilo destacou, ainda, que Irmã Dulce demonstra que não é necessário ter dons extraordinários, cultura excepcional ou muitos recursos para ser santo. “Muito pelo contrário, ela nos ensina que o importante é fazermos a nossa parte, deixarmos que o Espírito Santo nos conduza.”

O Arcebispo acrescentou que os conterrâneos e devotos de Irmã Dulce têm a responsabilidade de imitar o seu exemplo. “Não nos tornamos santos automaticamente porque ela será canonizada. Temos nela um modelo, uma maneira de seguir Jesus Cristo e o estímulo da Igreja que nos lembra que precisamos de santos.”

 

MODELO DE SANTIDADE

“Irmã Dulce fez a parte dela e agora nos motiva a fazer a nossa parte para construirmos um mundo mais solidário e fraterno”, continuou o Arcebispo, lembrando que, na medida em que se dedicou aos pobres, a Bem-Aventurada soube multiplicar as pessoas que se dedicavam aos mais necessitados.

“Ela pedia a todos, ao presidente da República, governador, prefeito, ao quitandeiro, a uma pessoa simples que a encontrava. Pedia sempre em função dos seus pobres. Seu coração estava voltado para Jesus e, consequentemente, para os pobres.”

 

Quem foi o Anjo bom da Bahia

 

Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes nasceu em 26 de maio de 1914 em Salvador (BA). Aos 13 anos, manifestou o desejo de se consagrar a Deus. Já naquela época, inconformada com a pobreza, amparava miseráveis e carentes.

Aos 18 anos, recebeu o diploma de professora e entrou para a Congregação da Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Em 13 de agosto de 1933, recebeu o hábito religioso e adotou, em homenagem a sua mãe, o nome de Irmã Dulce.

 

OS POBRES

A primeira missão de Irmã Dulce como religiosa foi ensinar em um colégio mantido pela Congregação, em Salvador. No encontro, o seu pensamento estava voltado para o trabalho com os pobres. Já em 1935, dava assistência à comunidade pobre de Alagados, conjunto de palafitas localizado na parte interna do bairro de Itapagipe. Nessa mesma época, começou a atender também os operários que viviam no bairro, criando um posto médico e fundando, em 1936, a União Operária São Francisco.

Em 1937, fundou, com Frei Hildebrando Kruthaup, o Círculo Operário da Bahia. Em maio de 1939, Irmã Dulce inaugurou o Colégio Santo Antônio, escola pública voltada para operários e filhos de operários, no bairro da Massaranduba.

 

A OBRA

No mesmo ano, ocupando um barracão, passou a abrigar pessoas em situação de rua e doentes, levados depois ao Mercado do Peixe, nos Arcos do Bonfim. Desalojados pela Prefeitura da cidade, acolheu-os, com a permissão da madre superiora, no galinheiro do Convento, transformado, em 1960, em Albergue Santo Antônio, com 150 leitos (hoje o Hospital Santo Antônio).

Irmã Dulce inaugurou ainda um asilo, o Centro Geriátrico Júlia Magalhães, e um orfanato, o Centro Educacional Santo Antônio e, em 1983, inaugurou o novo Hospital Santo Antônio.

Em 1988, foi indicada, pelo então presidente da República José Sarney, ao Prêmio Nobel da Paz.

Em 7 de julho de 1980, teve seu primeiro encontro com São João Paulo II por ocasião da visita dele ao País. O segundo encontro foi em 20 de outubro de 1991, quando ela já estava bastante debilitada por problemas respiratórios. O Anjo bom da Bahia morreu em 13 de março de 1992, com 77 anos.

 

PROCESSO DE CANONIZAÇÃO

A causa da canonização de Irmã Dulce começou em janeiro de 2000. Suas virtudes heroicas foram reconhecidas em abril de 2009, sendo, então, considerada Venerável.

Em 10 de dezembro de 2010, o Pontífice reconheceu o primeiro milagre e autorizou a beatificação da Religiosa. Trata-se da recuperação de uma paciente que teve uma grave hemorragia pós-parto e cujo sangramento subitamente parou, sem intervenção médica.

Para a Santa Sé, são necessárias quatro exigências para o reconhecimento de um milagre: ser preternatural (a ciência não consegue explicar), instantâneo (acontecer imediatamente após a oração e o pedido de intercessão), duradouro e perfeito.

 

BEATIFICAÇÃO

A beatificação de Irmã Dulce aconteceu em 22 de maio de 2011, em Salvador, em missa presidida pelo Cardeal Geraldo Majella Agnelo, Arcebispo Emérito de Salvador e delegado papal do rito de beatificação, então Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, com a participação de 70 mil pessoas. A Religiosa recebeu o título de Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, tendo como data de sua memória litúrgica o dia 13 de agosto.

No mesmo dia da beatificação, após a oração do Ângelus, no Vaticano, Bento XVI dirigiu uma saudação aos fiéis de Língua Portuguesa, destacando que a Bem-Aventurada “deixou atrás de si um prodigioso rastro de caridade ao serviço dos últimos, levando o Brasil inteiro a ver nela ‘a mãe dos desamparados’”.

(Colaborou Flávio Rogério Lopes)
 

O LEGADO DE IRMÃ DULCE

Fundadas em 1959, as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID) atualmente são um dos maiores complexos de saúde com atendimento 100% gratuito do Brasil. São 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano a usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), entre idosos, pessoas com deficiência, crianças e adolescentes em situação de risco social, dependentes químicos e pessoas em situação de rua.

De acordo com as OSID, nos últimos 25 anos, foram contabilizados 60 milhões de atendimentos ambulatoriais e mais de 280 mil cirurgias realizadas.

 

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