SÃO PAULO

Educação

História de ‘gênio’ da educação no Brasil desperta interesse de pesquisadora italiana

Por Fernando Geronazzo
05 de novembro de 2018

Professor Clemente Quaglio: pouco conhecido tanto na Itália quanto no Brasil, mas dotado de uma genialidade que influenciou o movimento pedagógico brasileiro

Luciney Martins/O SÃO PAULO

O que há em comum entre uma pesquisadora italiana e uma escola estadual de Ensino Médio na zona Leste de São Paulo?  O nome de uma pessoa pouco conhecida tanto na Itália quanto no Brasil, mas dotada de uma genialidade que influenciou o movimento pedagógico brasileiro: trata-se do professor Clemente Quaglio. 

Sua história veio à tona quando a bibliotecária Valeria Duò, durante uma pesquisa acadêmica em sua cidade natal, Villa d’Adige, província de Rovigo, na Itália, descobriu a existência do “el professore merican” (professor americano no dialeto local) que dá nome à escola na Vila Oratório. Quanto mais pesquisava, mais se encantava por essa “figura desconhecida”.

Nascido em 7 de junho de 1872, em Villa d’Adige, ele emigrou para o Brasil aos 16 anos, com seus pais e irmãos, fixando-se na cidade Serra Negra (SP). Intelectual autodidata e sem títulos acadêmicos, Quaglio foi nomeado, em 1895, professor primário após exames de ingresso no magistério público, sendo indicado para uma escola em Serra Negra.

 

PESQUISAS

No início do século XX, o italiano saiu do anonimato ao implantar, em 1909, nas dependências de uma escola de sua propriedade na cidade de Amparo (SP), um dos primeiros gabinetes de Antropologia Pedagógica e Psicologia Experimental no Brasil, influenciado pelo pedagogo Ugo Pizzoli, contemporâneo da famosa pedagoga Maria Montessori. Ali, deu vazão à atração pessoal pela pesquisa, ao promover estudos analíticos sobre a infância, com destaque para experiências sensoriomotoras. 

Quaglio esteve à frente do gabinete até 1930, ano de sua aposentadoria. Na mesma década, o laboratório foi incorporado à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

O Pedagogo falava nove línguas fluentemente. Proferiu conferências em Espanhol, Italiano, Alemão e Esperanto, em capitais culturais estrangeiras. Ele foi eleito conselheiro do Instituto Ítalo -Brasileiro de Alta Cultura de São Paulo, sócio honorário da Biblioteca Partenopeu de História, Ciência, Letras e Arte “Ernesto Palumbo”, de Nápoles, na Itália, e recebeu o título de Grande Officiale di Grazia Registrale da Ordem Militar de Santa Brígida, Svezia, na Itália. 

Valeria considera Quaglio um verdadeiro gênio. “Quando ele partiu da Itália era apenas um adolescente. Sua cidade era muito pequena, com cerca de 600 habitantes e lá ainda não havia escola. Ele aprendeu tudo no Brasil, sozinho. E foi esse desejo pelo saber que motivou toda a sua contribuição para a educação”. 

 

LEGADO

Clemente Quaglio morreu em 16 de maio de 1948, em São Paulo, deixando mais de 50 publicações científicas. Dez anos depois de sua morte, Jânio Quadros, então governador do Estado de São Paulo, assinou o decreto que dava o nome de Professor Clemente Quaglio a um grupo escolar na Vila Oratório, hoje uma escola de Ensino Médio em tempo integral. 

“Desde que soube da existência dessa escola, eu senti o desejo de conhecê-la. No primeiro número do jornalzinho da escola, feito pelos alunos, há um resumo da história de Clemente Quaglio. Fiquei muito feliz em saber que os estudantes se interessam por conhecer melhor uma personalidade importante não só para a escola como para a educação. Seu exemplo pode inspirá-los a se interessarem pela transformação do mundo à sua volta”, contou Valéria, que visitou a instituição no dia 8 de outubro. 

 

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