SÃO PAULO

Sinos de bronze

Grupo Comolatti apoia restauro dos sinos da igreja Nossa Senhora dos Remédios

Por Nayá Fernandes
12 de dezembro de 2018

Missa presidida pelo Cardeal Scherer na quarta-feira, 5, marcou a reinauguração dos sinos, que são do século XIX.

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Os sinos tocaram por quase três minutos enquanto o coral, dentro da igreja, cantava um solene “Glória a Deus” durante a celebração que aconteceu no dia 5, às 19h, na Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, no bairro do Cambuci.

A missa foi presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, concelebrada pelo Padre Ricardo Cardoso Anacleto, Pároco, e contou com a presença de vários membros do Grupo Comolatti, inclusive Sergio Comolatti, seu presidente e benfeitor na restauração dos sinos da igreja. O coral da Paróquia Nossa Senhora do Brasil, juntamente com músicos e cantores do Coral Del Chiaro, regido pelo Maestro Danillo Ferreira e pela Maestrina Rita Del Chiaro, cantou na celebração.

A igreja-matriz da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, na Região Episcopal Sé, é a 12ª a ter os sinos restaurados e automatizados por meio da benfeitoria do Grupo Comolatti. A primeira foi a San Gennaro, em 2008.

Após a celebração, houve o descerramento de uma placa, instalada na entrada da igreja, que data a reinauguração dos sinos e registra o agradecimento aos benfeitores. Os três sinos históricos de bronze que voltaram a tocar foram transferidos para a atual igreja, quando a antiga matriz da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, que 
estava localizada ao lado da Praça João Mendes, foi demolida, em 1943. 

Jornais da época relatam a tristeza dos fiéis que, pela última vez, ouviram o badalar dos sinos daquela igreja. A partir deste ano, contudo, os três sinos voltaram a tocar regularmente, obedecendo às horas canônicas da Igreja.

 

ALEGRIA E ESPERANÇA

O Cardeal Scherer destacou que o badalar dos sinos recorda a presença de Deus no meio do povo. “Quero me alegrar com o povo da Paróquia pelos sinos restaurados e que vão soar, lembrando a presença de Deus no meio de nós. Que a bênção dos sinos seja para o bairro e para todas as pessoas da Paróquia a recordação desse chamado a participar da Igreja, a voltar-nos para Deus”, afirmou. 

“Dizem que os sinos são a voz de Deus; que eles sejam um chamado para que nos lembremos que somos sinais de Deus nesta cidade e possamos anunciar as coisas bonitas que cremos e que fazem parte da nossa fé”, continuou o Arcebispo.

Padre Ricardo, por sua vez, registrou a grande alegria vivida por toda a comunidade paroquial e recordou a história da Paróquia. “Neste tempo de alegria e esperança, reunimo-nos para acompanhar o rito da bênção dos sinos históricos da nossa Paróquia. Vamos fazer memória da Irmandade Nossa Senhora dos Remédios e de todos os que recorriam a Deus e iam à igreja ao tocar destes sinos. Quero agradecer a Deus em nome dos paroquianos da Nossa Senhora dos Remédios e também ao nossos benfeitores, Sergio Comolatti e Ana Lúcia Comolatti, sua esposa, pela atenção e o carinho por nossa comunidade”, disse.

 

OS SINOS DE UM VILAREJO

Em entrevista à reportagem, Sergio Comolatti explicou que a iniciativa do restauro dos sinos surgiu após a entrega de doações feitas à Paróquia San Gennaro. “Normalmente, a empresa faz campanhas de alimentos e agasalhos e os distribui às comunidades. Numa dessas entregas [há cerca de dez anos], perguntei ao padre se a igreja precisava de algo. O padre me informou que estavam reformando as torres para instalação dos sinos e perguntou-me se não poderíamos ajudar. Desde então, fazemos a restauração dos sinos de uma igreja por ano. Já fizemos de igrejas como a Nossa Senhora do Brasil, Nossa Senhora da Consolação, Mosteiro de São Bento e até mesmo a Catedral da Sé.” 

Sobre a alegria de participar da celebração com a comunidade paroquial, Sergio disse sentir-se muito comovido, também por recordar da cidade natal de seu pai, no norte da Itália. “Minha família veio de um vilarejo muito pequeno, na região da Lombardia, e lá a cidade ficava numa colina e o sino da igreja estava bem na altura do nosso quarto. A primeira vez que o ouvi, demorei três horas para conseguir dormir pois ele toca a cada meia hora e a cada hora inteira. À meia-noite, por exemplo, eram 12 badaladas. Mas, depois de três dias, aquele som, melodioso, já me ajudava a dormir”, contou.

 

HISTÓRIA

Com estilo colonial, edificada entre os bairros da Aclimação e do Cambuci, a Paróquia Nossa Senhora dos Remédios tem uma história que remonta ao período abolicionista no Brasil e está localizada na Rua Tenente Azevedo, 182. A primeira Capelinha de São Vicente Ferrer, que abrigou a imagem de Nossa Senhora dos Remédios, foi construída ainda no século XVII, e sobre ela, em 1836, foi erguida a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.

A igreja abrigou a tipografia do jornal abolicionista “A Redenção” e foi símbolo do espírito de libertação que crescia entre os paulistas. Assim, a história da igreja dos Remédios ficou para sempre ligada ao movimento abolicionista de São Paulo. Nas novenas de maio e outubro, o povo cantava entre rezas: “Pai, vossos míseros filhos são iguais perante a lei...”. 

Contudo, essa primeira igreja foi demolida em 1943, em decorrência da construção do Viaduto Dona Paulina, apesar dos protestos do povo, como atestam documentos da época. Em 1944, a Confraria se transferiu para a nova igreja no Cambuci, projetada e construída no estilo colonial.
 

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