INTERNACIONAL

Papa na Colômbia

Francisco pede reconciliação ao povo colombiano

Por Filipe Domingues
14 de setembro de 2017

A viagem teve o objetivo de "dar o primeiro passo rumo à reconciliação" e inspirar a paz

Reuters

Dar o primeiro passo rumo à reconciliação foi o espírito que guiou toda a visita apostólica do Papa Francisco à Colômbia, entre os dias 5 e 11. Sua 20ª viagem ocorreu no momento em que o governo do Presidente Juan Manuel Santos vem tentando pacificar a nação com acordos e certa anistia à principal guerrilha do País, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O Papa encontrou um povo divido, mas caloroso e disposto a ouvi-lo. 

O governo Santos tenta dar fim a mais de 50 anos de violência, sequestros, comércio de drogas e guerra civil, abrindo mão de punir severamente os envolvidos em crueldades que se tornaram o dia a dia dos colombianos. As Farc, maior grupo rebelde da Colômbia, fundadas em 1964 como braço armado dos comunistas, agora são um partido político legalizado. Outras guerrilhas e paramilitares aceitaram dialogar uma trégua. Quase todos esses movimentos têm alguma relação com o tráfico de cocaína.

A oposição política, liderada pelo Ex-Presidente Álvaro Uribe, se diz “a favor da paz, mas contra a impunidade a assassinos”. Com financiamento dos Estados Unidos, consumidores de 90% da cocaína colombiana, Uribe liderou uma pesada luta armada contra as Farc no início dos anos 2000, matando muitos de seus líderes e enfraquecendo o movimento. Já Santos é o presidente elogiado internacionalmente por conduzir o processo de desarmamento das Farc – o que lhe rendeu até o Nobel da Paz. 

Nesse complexo contexto, o Papa Francisco se encontrou com o presidente Santos e deixou claro de que lado está: apoia o acordo de paz e pede ao povo colombiano que recomece do zero. “Esta é a oportunidade para expressar meu apreço pelos esforços que se fazem, nas últimas décadas, para se pôr fim à violência armada e encontrar caminhos de reconciliação”, declarou. “No último ano, certamente avançouse de modo particular”, disse, pedindo leis que “nasçam do desejo de resolver as causas estruturais da pobreza, que geram exclusão e violência”.
 

Um grande perdão

Em seu terceiro dia no País, o Papa participou de um “grande encontro de oração pela reconciliação nacional”, em Villavincenzio, com vítimas de diferentes lados da guerra civil. “Esperei desde o primeiro dia por esse encontro”, afirmou. “Esta é uma terra regada pelo sangue de milhares de vítimas inocentes. São feridas difíceis de cicatrizar e que nos doem a todos, porque cada ferida contra um ser humano é uma ferida na carne da humanidade. Cada morte violenta nos diminui como pessoas.” 

Apesar do discurso emotivo, ele explicou que só queria mesmo estar perto dessas vítimas, “escutá-las e olhar nos olhos” de cada uma. E as incentivou a praticar um grande perdão. “Queria chorar com vocês, queria que rezássemos juntos e nos perdoemos – eu também tenho que pedir perdão – e que, assim, todos juntos possamos olhar e caminhar para frente com fé e esperança.” 

Com efeito, durante a visita do Papa à Colômbia, o líder político das Farc, Timoschenko, agora Presidente do novo partido, pediu perdão pelos erros do passado. “Dirijo uma organização que deixou as armas e se reincorpora à sociedade depois de mais de meio século de guerra”, escreveu, em carta aberta. “Nos anima o propósito de perdoar aqueles que foram nossos inimigos.” Dirigindo-se ao Pontífice, completou: “Suas reiteradas exposições sobre a misericórdia infinita de Deus me levam a suplicar o seu perdão por qualquer lágrima ou dor que tenhamos causado ao povo da Colômbia.”

 

Passos que a Igreja também deve dar

Como de costume, o Papa também foi ao encontro de movimentos católicos que ajudam os mais necessitados, como o Hogar San José e a Missão Talitha Khum. Encontrou, ainda, religiosos e seminaristas, diáconos, jovens e crianças. 

Seja no encontro com bispos colombianos, seja no Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), cuja sede é em Bogotá, Papa Francisco reafirmou o valor da vida humana, “do ventre materno à sua conclusão natural”, e da família “desejada por Deus”. Lamentou as “pragas da violência e do alcoolismo”, que destroem a família e deixam muitos órfãos. Afirmou que a esperança “tem um rosto jovem” e também “um rosto feminino”, referindo-se a uma maior valorização dos jovens e da mulher na Igreja, criticando o clericalismo. 

Aos bispos colombianos, o Santo Padre aconselhou, também, que “deem o primeiro passo”. Usando um neologismo seu, disse: “Deus é o Senhor do primeiro passo. Ele sempre nos ‘primereia’”. E ainda: “O nome do primeiro passo é Jesus, e é um passo irreversível.” O Bispo de Roma pediu a eles que fiquem próximos ao seu povo sofrido e fiel, sem se deixarem levar pela agenda dos poderosos. “A Colômbia precisa de seu olhar próprio de bispos”, lembrou. “Vocês não são técnicos nem políticos. São pastores.”

 

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