SÃO PAULO

REDES SOCIAIS

Fotos das crianças nas redes sociais?

Por Nayá Fernandes
16 de agosto de 2019

Publicar ou não

Um estudo da empresa de segurança digital AVG, a partir de dados de cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Espanha, Itália, Austrália, Nova Zelândia e Japão, revelou que três a cada quatro crianças com menos de 2 anos de idade têm fotos colocadas no ambiente on-line.


O estudo mostra o fenômeno das redes sociais e a publicação, muitas vezes compulsiva, de fotos de crianças e adolescentes, na maioria das vezes pelos próprios pais.


A pesquisa revela que, em média, os pais de crianças menores de 6 anos publicam 2,1 informações por semana sobre elas. Dos 6 aos 13 anos, há uma queda: 1,9 informação por semana. Quando o adolescente completa 14 anos, o ímpeto se reduz a menos de uma menção por semana (0,8). 

Existe um limite?

Auris Sousa é jornalista e mãe da pequena Cecília, de 1 ano de idade. Com o esposo, ela divide a rotina de trabalho, casa e cuidado com a filha. Ao comentar sobre o tema e a exposição de fotos e vídeos da pequena nas redes, Auris disse que “é bem difícil controlar a emoção diante de uma carinha, do olhar tão amoroso de um filho”. 


Sobre esse aparente descontrole dos pais, Adriana Friedmann, doutora em Antropologia, mestre em Educação, pedagoga e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid) e do Mapa da Infância Brasileira, recordou que os pais são, por um lado, os guardiões da informação pessoal de seus filhos e, por outro, os narradores de suas vidas. “Ao narrar, compartilhamos informações sobre os filhos, ao mesmo tempo em que os privamos do direito a fazê-lo eles mesmos em seus próprios termos. E isso é uma fonte potencial de dano à qual prestamos pouca atenção”, disse.


Mas, por que muitos pais, mesmo sabendo dos riscos dessa exposição, continuam a publicar tais imagens?


Auris, por exemplo, pela própria profissão que exerce, disse que sempre soube dos riscos e se questionou, várias vezes, sobre os possíveis exageros de postagens de crianças antes de ser mãe.


“Porém, desde que minha filha nasceu, o meu Instagram parece dela. Tento evitar e hoje já diminuí muito as postagens, mas sei o quanto queremos dividir com o mundo as fofurices, a inteligência, o desenvolvimento tão fascinante e até mesmo as dificuldades. Contudo, acho que tudo precisa ter limite, e, sem dúvida, há outros aspectos que vão além de uma reprovação futura da criança”, continou Auris. 


Para Adriana, as redes sociais têm se tornado, para muitos pais, álbuns compartilhados das suas vidas e, principalmente, das dos seus filhos. 


“A tentação de publicar, compartilhar fotos ou fatos de crianças, pode ter diversas motivações: orgulho dos filhos, mostrar para o mundo (em princípio para seus contatos) as conquistas, feitos, imagens, comemorações e eventos, relatar vivências, comunicar doenças, férias etc. Raramente esses adultos têm consciência das potenciais consequências desses compartilhamentos, sobretudo para a vida de seus filhos, uma vez que, em geral, não os consultam sobre seu desejo ou consenso. Quanto mais novas as crianças – ainda antes de nascerem, quando estão sendo gestadas – mais e mais imagens são veiculadas, fase esta da primeira infância, em que as crianças não têm compreensão nem ideia desse tipo de divulgação das suas vidas”, continuou a pesquisadora.

Há perigo?

O que parece uma foto inocente e atrairá uma série de likes, pode, porém, tornar-se um pesadelo para os pais e para a própria criança ou adolescente. 


“Nunca fiz postagens da minha filha de uniforme escolar, nem de nada que identifique o lugar em que ela estuda. Acho também perigoso apontar as comidas preferidas, porque fica muito fácil para um estranho tentar atrair a confiança por meio da alimentação. Amo fotos, mas não quero trocar histórias por imagens, experiências por exposição. Por isso, curto muito cada evolução, cada novidade com a minha filha, depois penso na foto. Se tiver os dois, ótimo. Caso contrário, minha prioridade é viver o momento”, disse Auris.


Adriana salientou o que tem sido discutido nas formações de educadores, pesquisadores e especialistas: “Há, na verdade, uma ‘violência’, um ‘atravessamento’ sendo praticado pelos adultos todo dia e em todos os grupos com relação às crianças. Não respeitar as crianças, não ter a capacidade de se colocar no lugar delas, não é somente uma violação à sua individualidade. Pode, também, trazer quebra de confiança e consequências aos seus comportamentos e desenvolvimento futuros”.

Foto X experiência

As fotografias marcam momentos inesquecíveis e ajudam a família a recontar a própria história. Mas, quando a fotografia perfeita se torna o objetivo principal, deixando de lado a experiência, pode tornar-se um problema. E, se a superexposição parece estar naturalizada hoje, as curtidas, compartilhamentos e interações nas redes sociais parecem ter mais importância do que a convivência.

 
“Certa vez, ainda quando eu não tinha a Cecília, vi uma mãe tirando fotos do seu filho em frente aos enfeites de Natal de um shopping center. O pátio estava lindo, eu me encantei e imaginei que a criança tivesse ainda mais encantada. Mas a mãe não deixou o menino viver a experiência e fez com que ele parasse para inúmeras poses, ficasse paradinho até que ela conseguisse a selfie perfeita. Depois, para minha surpresa, saiu com ele dali. Nem percorreu todo cenário. Acredito que, por trás de uma superexposição, também mora o risco de enfraquecimento dos laços”, afirmou Auris.

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