NACIONAL

Abas primárias

Especial de Natal

Famílias abrem suas casas para a acolhida

Por Fernando Geronazzo
22 de dezembro de 2017

Com o apoio dos Juizados de Menores, familias cadastradas recebem, por um período determinado, crianças, adolescentes ou grupos de irmãos em situação de risco, em suas casas

Oferecer a crianças e adolescentes que esperam pela adoção a oportunidade de viverem uma experiência familiar e amenizar a longa permanência nos abrigos: essa é a proposta de um grupo de casais chamado Famílias para Acolhida, em Salvador (BA).

Iniciativas como essa começam a crescer no Brasil com o apoio dos Juizados de Menores em várias cidades que cadastram famílias da comunidade para receberem em casa, por um período determinado, crianças, adolescentes ou grupos de irmãos em situação de risco pessoal e social, dando-lhes acolhida, amparo, aceitação, amor e a possibilidade de convivência familiar e comunitária. Em alguns países, esses sistemas já funcionam há mais tempo, como na Itália, chamado Affido , e nos Estados Unidos, Foster family . Nesses países, a experiência “temporária” acaba resultando em uma adoção definitiva. 

 
Leia também: "Adoção, uma opção pelo amor"
"Cresce o número de adoções no Brasil"
"Diferentes formas de amar"
"Para acelerar etapas"
"Sublime Mistério do Natal!"
"Acolher o Menino Jesus entre nós!"
 

O grupo de Salvador surgiu a partir de famílias do Movimento Comunhão e Libertação que viviam a experiência da adoção e decidiram se reunir para partilhar vivências e desafios comuns. “Nosso grupo também se voltou para os mais diversos tipos de acolhida, como receber pessoas que estão viajando, que precisam passar períodos na sua casa, ou pessoas que têm filhos com necessidades especiais. Enfim, os vários tipos de realidades que a acolhida abrange”, explicou André Carvalho, Advogado que participa do Famílias para Acolhida

André e sua esposa, Silvana Sá de Carvalho, adotaram três crianças que hoje têm 17, 14 e 11 anos. “Nós adotamos primeiro um garoto. Ele tinha um dia de vida. Conseguimos a guarda da criança e a adoção foi efetivada dois anos depois. A menina que atualmente tem 11 foi adotada com um mês de vida. A terceira, que hoje tem 17, foi adotada por último, com 9 anos”, contou o Advogado, que depois de um tratamento contra um câncer, há 20 anos, ficou estéril e, por isso, desde que se casou, decidiu ter filhos adotivos.

 

Acolhida temporária 

Além de adotarem uma menina que hoje tem 17 anos e um menino de 14, Gilberto Cafezeiro Bomfim, Biólogo e Professor da Universidade Federal da Bahia, e sua esposa, Arlete da Cruz Bomfim, sempre tiveram sua casa aberta para acolher temporariamente crianças e adolescentes. Essas acolhidas são geralmente aos finais de semana. Gilberto destacou ao O SÃO PAULO que atualmente eles se preparam para acolher um adolescente durante as férias de janeiro de 2018.

A experiência de acolhida do casal Bomfim já ajudou, literalmente, a salvar vidas. Em diferentes ocasiões, eles acolheram duas adolescentes entre 14 e 15 anos que estavam grávidas e rejeitavam a gestação. “Nós as acolhemos nos finais de semana, sem retirá-las totalmente do convívio de seus familiares e, graças a Deus, conseguimos dar um respaldo para que elas seguissem a gestação até o fim. Conseguimos estabelecer um vínculo com essas meninas que hoje já são mulheres e ainda entram em contato conosco quando precisam de algum auxílio”, relatou Gilberto.

 

Referência 

Segundo Bomfim, o Famílias para Acolhida tornou-se uma referência para aquelas pessoas que não encontram um suporte em suas famílias de origem, em geral pela situação de fragilidade em que se encontram. Atualmente, as famílias do grupo são indicadas pelo Juizado de Menores para casais que entraram no processo de adoção, para trocarem experiências e não se sentirem sozinhos. O próprio André Carvalho reconheceu a importância do grupo na adoção de seus filhos. “O Famílias para Acolhida foi um grande farol para descobrirmos que é possível enfrentar os desafios da adoção”. 

Gilberto completou que é preciso reconhecer que há muitos adolescentes que vivem em abrigos e completarão 18 anos sem serem adotados. “Nossa proposta é permitir que eles não cresçam apenas com a referência da instituição de acolhida. O contato com uma família, mesmo que temporário, pode gerar um vínculo que certamente servirá de referência no futuro. Imagine, por exemplo, você sair e não ter um telefone para ligar para avisar que deixou a instituição?”, refletiu. 

 

Guarda subsidiada 

A verificação da eficácia da experiência familiar no acolhimento também estimulou a criação do Programa de Acolhimento Familiar, em 2006, pelo Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária. Essa modalidade é também conhecida como guarda subsidiada, pela qual as famílias recebem em casa crianças e adolescentes afastados da família de origem. 

Neste caso, o objetivo prioritário do acolhimento é o retorno da criança ou adolescente à família biológica, que podem ser os pais, irmãos ou parentes próximos. Durante o período de afastamento, todos os esforços são empreendidos para que os vínculos com a família biológica sejam mantidos. Os familiares devem receber do Estado acompanhamento psicossocial para auxílio e superação das situações que provocaram o afastamento. Quando, mesmo após esses esforços, o retorno à família biológica não se mostra possível, a criança é encaminhada para adoção para uma família que esteja devidamente habilitada e inscrita no Cadastro Nacional de Adoção. 

É importante ressaltar que o acolhimento familiar não é um “atalho” para a adoção, que tem critérios e requisitos próprios em conformidade com a Lei de Adoção. 

 

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.