NACIONAL

Suicídio

Falar sobre a dor para salvar a vida

Por Nayá Fernandes
16 de novembro de 2017

Quarta maior causa de morte entre os jovens no brasil, o suicídio mata uma pessoa a cada 40 segundos no mundo

Sergio Ricciuto Conte

A frase pode até parecer positiva, e quem a diz pode pensar que é uma tentativa de ajuda para quem passa por um grande sofrimento. Porém, em muitos casos, não é o suficiente quando o que está em jogo é o drama do suicídio. 

O suicídio mata cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo, uma a cada 40 segundos. No Brasil, para cada 100 mil mortes, 5,3 são causadas por suicídios. Os dados são do Ministério da Saúde e mostram que o número de suicídios cresceu no País de 2011 a 2015, sendo a quarta maior causa de morte entre os jovens.

Na grande maioria dos casos, as pessoas que cometem suicídio têm, no momento do ato, o diagnóstico de algum transtorno mental ou psiquiátrico, que pode ter sido desenvolvido ao longo dos anos ou por algum acontecimento pontual, como uma morte na família, a perda do emprego ou o fracasso de um relacionamento. 

Já no caso dos adolescentes e jovens, as causas estão relacionadas à falta de adequação ao meio em que vivem, não aceitação do corpo ou dificuldades familiares, além de problemas como o bullying. 

Pesquisas apontam como essencial que a sociedade comece a falar mais sobre as causas do suicídio e os possíveis caminhos de prevenção. Os especialistas são unânimes quando sugerem que é preciso romper o isolamento e mostrar possibilidades de integração em diferentes ambientes sociais. Outro fator determinante é a religião e a espiritualidade, que têm um papel importantíssimo quando o objetivo é a valorização e a preservação da vida. 

 

‘Quando eu percebi, o dia havia amanhecido e eu não tinha me jogado’

Carina Ferreira da Silva, 22, é paulista e viveu uma experiência muito dolorosa, que começou a se agravar em janeiro de 2016. A jovem passou no vestibular para cursar Ciências Contábeis na Unesp, em Rio Claro, no interior do Estado. “Eu pensei que, estando lá, meus pais me ajudariam, pois o curso era integral e eu não poderia trabalhar. Mas, depois de quase um mês e sem condições de me manter sozinha, precisei voltar para São Paulo. Naquele momento, vivi uma grande sensação de fracasso”, contou à reportagem. 

“Foi aí que minha depressão desencadeou, algo que eu já tinha desde criança, mas pensava ser apenas uma tristeza. E, como sempre fui uma pessoa quieta e calada, com uma personalidade mais introspectiva, ninguém se preocupou”, disse a jovem. 

Ainda em Rio Claro, andando pelas ruas da cidade à noite e sozinha, num momento de grande angústia, Carina encontrou um grupo de jovens que estava indo para a igreja participar de uma celebração e, vendo a situação dela, a convidaram para os acompanhar. “Eu fui, fiquei sentada chorando e pedi a Deus que me ajudasse. Foi quando senti que devia mesmo voltar para a casa dos meus pais, em São Paulo.” 

No mês de dezembro, porém, depois de afastar-se de todos os amigos e da comunidade que participava, Carina fez a primeira tentativa de suicídio, quando comprou veneno e tomou um coquetel. “O plano não deu certo, porque vomitei tudo. A única consequência foi a dor de estômago durante toda a semana”, relatou. 

E não foi a única vez. Carina fez um novo coquetel no mesmo mês, que a levou para o hospital e fez com que seus pais tomassem conhecimento da situação. Além disso, ela tentou se jogar no metrô, mas foi segurada por uma senhora.  Pensou, também, em pular da laje da casa em que morava, quando uma amiga enviou mensagens para perguntar por que ela tinha se afastado. 

“Sentei na laje e ia pular, mas quando coloquei o celular de lado, comecei a receber mensagens de uma amiga que falava uma série de coisas bacanas. Ficamos conversando durante aquela madrugada e, quando eu percebi, o dia havia amanhecido e eu não tinha me jogado”, disse. 

Foi naquela noite que Carina sentiu que precisava procurar auxílio e nenhum amigo poderia ajudá-la se ela não assumisse sua depressão. “Procurei uma psicóloga e, no início, achei muito chato. Porém, decidi continuar o tratamento, porque ela diagnosticou minha situação como uma depressão em estado gravíssimo. Foi quando, depois de assistir uma série na qual a personagem principal se suicidava, eu, mais uma vez, tentei pôr fim à minha vida. Comprei um pacote de lâminas e fiz mais de 30 cortes na coxa e 4 cortes em cada um dos pulsos. Mas os cortes foram superficiais. Minha mãe abriu a porta do banheiro e me viu no chão, com as lâminas na mão. Ela me repreendeu e disse que eu não podia mais repetir aquele gesto e, na minha casa, ninguém mais tocou no assunto.” 

Ainda assim, a jovem continou as conversas com a psicóloga e, com o passar dos meses, começou a sentir-se melhor, voltando, inclusive, a participar do grupo de jovens da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba. “Em julho, fui convidada para trabalhar no Encontro de Jovens com Cristo e decidi aceitar. No fim do encontro, que foi muito bonito, resolvi partilhar minha história com o grupo. Foi a primeira vez que falei, para mais pessoas, tudo o que estava vivendo. Foi surpreendente como eles me acolheram e muitos jovens vieram falar comigo. Depois daquele dia, sinto que sou outra pessoa”, continuou Carina.

 

É possível prevenir 

Gabriel Bartolomeu é mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo e trabalhou por alguns anos numa clínica de saúde mental da Capital Paulista. Ele conversou com O SÃO PAULO sobre os fatores que desencadeiam doenças ou transtornos mentais e como é importante que a pessoa com ideações suicidadas encontre espaços de acolhida para falar sobre seus problemas sem acusações ou julgamentos.

“A questão do suicídio é sim, multifatorial, mas na maioria quase absoluta dos casos a pessoa passa por uma angústia ou sofrimento muito intenso, que causam mudança de comportamento ou isolamento social”, explicou Gabriel.

Ele salientou a importância de diferenciar os chamados “pensamentos de morte” - que podem acontecer com qualquer pessoa - da ideação suicida, seja ela estruturada ou não. “Quando a pessoa pensa em estratégias de como fazer isso, está no grau mais grave e pode sim chegar a cometer o suicídio”, esclareceu. 

“Na maioria dos casos, as pessoas falam – de alguma maneira – sobre o que estão vivendo, ainda que não se expressem claramente com palavra. Elas ficam tristes, isoladas, demonstram falta de vontade de fazer as coisas, mostramse ensimesmadas e expressam também a dificuldade em mudar isso”, ressaltou Gabriel.

Mas, nem sempre é fácil para a família identificar esses sinais. Gabriel explicou a dificuldade para alguém que não experimentou esse tipo de sofrimento de compreender e até mesmo de ajudar o outro, sobretudo dentro do círculo familiar. “Por um lado, é uma experiência que eles não têm e, por outro, a família sente-se completamente impotente ou pensa que, ao tentar animar a pessoa ou até repreendê-la pelos seus atos, já a está ajudando”, continou. 

“É muito importante extrapolar o círculo familiar. Nesse sentido, a religião tem um papel fundamental. Sentir-se parte de uma comunidade e ter alguém de confiança para conversar pode reverter sim o quadro de depressão. Porém, cada pessoa é única e não podemos afirmar que todas irão obter os mesmos resultados, e, por isso, o profissional médico é também essencial. Uma coisa não exclui a outra”, afirmou o Psicólogo.

 

Espiritualidade

Pesquisas mostram que em países onde há a predominância de uma religião, há números significativamente menores de mortes causadas por suicídio (veja mais na página 15, a entrevista com José Bertolote). A espiritualidade e a busca do sentido para a vida são essenciais para o desenvolvimento humano.

A doutrina da Igreja Católica, por sua vez, ensina que cada pessoa deve cuidar da própria vida e da vida dos demais e, sendo assim, encaixa o suicídio como um “pecado grave”. 

Porém, o Catecismo da Igreja Católica, no artigo 2283, afirma, também, que “não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.” 

A direção espiritual, realizada de forma sistemática com um sacerdote e a participação em grupos na comunidade são, sem dúvida, caminhos importantes para a valorização da vida. Em São Paulo, são muitas as paróquias e comunidades que mantêm atendimento sistemático de confissões e acolhem as pessoas nas suas dificuldades.

“Você acha que, com o suicídio, vai aliviar seu sofrimento e também o das pessoas que estão próximas a você. Mas, isso é mentira. É preciso procurar apoio, é preciso falar sobre o que você sente. Eu procurei apoio nas coisas e depois nas pessoas. E consegui superar a pior e mais difícil fase da depressão, quando não via cor em nada. Arrependo-me por todas as vezes que eu tentei o suicídio. Deus me deu a vida, que é um bem tão precioso e eu queria tirá-la, sendo que há tantas pessoas no mundo que querem viver, mas alguém lhes tira a vida ou elas têm alguma doença grave. Isso seria injusto comigo e com o mundo”, disse, emocionada, Carina, que hoje mora sozinha e cursa Ciências Contábeis.
 

Mitos sobre o suicídio

Mito

Verdades

O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre arbítrio.

FALSO. Os suicidas estão passando quase invariavelmente por uma doença mental que altera, de forma radical, a sua percepção da realidade e interfere em seu livre arbítrio. O tratamento eficaz da doença mental é o pilar mais importante da prevenção do suicídio. Após o tratamento da doença mental, o desejo de se matar desaparece.

Quando uma pessoa pensa em se suicidar terá risco de suicídio para o resto da vida.

FALSO. O risco de suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco.

As pessoas que ameaçam se matar não farão isso, querem apenas chamar a atenção.

FALSO. A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. Boa parte dos suicidas expressou, em dias ou semanas anteriores, seu desejo de se matar.

Se uma pessoa que se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte, passa a se sentir melhor, normalmente significa que o problema já passou.

FALSO. Se alguém que pensava em suicidar-se e, de repente, parece tranquilo, aliviado, não significa que o problema já passou. Uma pessoa que decidiu suicidarse pode sentir-se “melhor” ou sentir-se aliviada simplesmente por ter tomado a decisão de se matar.

Quando um indivíduo mostra sinais de melhora ou sobrevive à uma tentativa de suicídio, ela está fora de perigo. 

FALSO. Um dos períodos mais perigosos é quando se está melhorando da crise que motivou a tentativa, ou quando a pessoa ainda está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta do hospital é um período em que a pessoa está particularmente fragilizada. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa suicida muitas vezes continua em alto risco.

Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco.

FALSO. Falar sobre suicídio não aumenta o risco. Muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem.

É proibido que a mídia aborde o tema suicídio.

FALSO. A mídia tem obrigação social de tratar desse importante assunto de saúde pública e abordar esse tema de forma adequada. Isso não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda etc.

 Fonte: Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio
 

A realidade do suicídio no mundo

  •   Nos últimos 50 anos, houve um aumento em 60% no número de tentativas de suicídio;  
  • Os maiores índices de suicídio estão concentrados em países da antiga União Soviética;
  •  Na Rússia morrem desta forma 70 em cada 100 mil habitantes;  
  • Na Lituânia morrem 75 homens em cada 100 mil habitantes;
  • 90% dos casos têm relação com transtornos psiquiátricos;
  • Depressão e transtorno bipolar aumentam entre 15 a 20 vezes as possibilidades de suicídio;  
  • Um terço das mortes de jovens no mundo é por suicídio;  
  • Na Dinamarca e Japão, a ocorrência é maior em pessoas com idades entre 25 e 34 anos.
     

No Brasil 

  • 5,3 mortes a cada 100 mil habitantes;  
  • Morrem três vezes mais homens do que mulheres;  
  • As mulheres tentam três vezes mais suicídio do que os homens.

 

Fatores sociais que levam ao suicídio

  • Falta de estrutura familiar;  
  • Perdas sociais, econômicas e familiares;  
  • Falta de religiosidade;  
  • Alcoolismo;  
  • Esquizofrenia;  
  • Abuso de drogas.
Fontes: Associação de Suicidologia da América Latina e Caribe (Asulac),
UFMG e Associação Mineira de Psiquiatria
 
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