NACIONAL

Comunicação

FAKE NEWS: O que isso tem a ver comigo?

Por Fernando Geronazzo
06 de fevereiro de 2018

 Redes sociais, principais fontes de informação da atualidade, colaboram para a produção e disseminação em larga escala das notícias falsas

Arte: Jovenal Pereira

Quando chega ao grupo de WhatsApp de sua família, ou em seu perfil na rede social, uma notícia bombástica sobre o momento político ou, por exemplo, alguma denúncia a respeito da eficácia da vacina contra a febre-amarela distribuída nos postos de saúde, ou até mesmo alguma declaração polêmica atribuída ao Papa Francisco, qual é a sua primeira atitude: ler, verificar a sua veracidade, ou compartilhá-la imediatamente com os amigos?

É diante de situações comuns como essas que se disseminam as chamadas fake news, objeto da mensagem do Papa Francisco para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, publicada no dia 24. Essas notícias falsas, no entanto, não nascem de repente, mas são fruto de um contexto potencializado pelas redes sociais digitais chamado “pós-verdade”. Eleita palavra do ano em 2016 pelo dicionário britânico Oxford, a “pós-verdade” ganhou relevância nas mídias após a ampla veiculação de notícias falsas durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos.

Post-truth (pós-verdade): relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”, define o verbete do termo no dicionário. Em outras palavras, é quando os fatos importam menos do que aquilo em que as pessoas escolhem acreditar, ou seja, “quando a verdade é substituída pela opinião”.

 

DISSEMINAÇÃO

Para a Pollyana Ferrari, Professora de Jornalismo da PUC-SP e pesquisadora em Comunicação Digital, as redes sociais, principais fontes de informação da atualidade, colaboraram para a disseminação em larga escala das notícias falsas. “Muito rapidamente se dissemina e se produz notícias falsas hoje em dia. Existe uma polarização de vozes nas redes e isso favorece ainda mais para essa prática”, explicou Ferrari, ao O SÃO PAULO. Ela iniciou sua pesquisa sobre o tema para seu pós-doutorado pela Universidade Beira Interior, em Portugal. 

A Professora destacou, no entanto, que o fenômeno das fake news não é novo. “Notícias falsas criadas por interesse pessoal, partidário, econômico, sempre existiram. Quando dizíamos a ‘imprensa marrom’ ou os tabloides sensacionalistas, nos referíamos a isso. Mas nas redes sociais o alcance é muito maior e mais rápido”. 
 

BOLHAS

Um dos fatores que potencializaram a propagação de fake news são as chamadas bolhas das redes sociais, geradas pelos algoritmos dos desenvolvedores dessas mídias, que fazem com que o usuário receba em seus perfis cada vez mais informações relacionadas aos seus gostos e interesses pessoais. “Quanto mais eu gosto de um tema, mais ele aparece na minha rede, seja a pesquisa de um produto, ou um assunto de viagem. Isso vai crescendo como uma avalanche”, salientou Ferrari. 

Na avaliação da Especialista, essas bolhas fazem com que as pessoas se isolem cada vez mais em grupos pequenos nos quais não se toleram opiniões divergentes. Isso favorece a crescente polarização de ideias que se vê nas redes sociais. “Quando alguém diz ‘não brigo mais no Facebook, porque fiz uma limpeza dos meus amigos e agora só falo com quem pensa igual a mim’, é muito ruim, porque todo mundo não é igual”. 

O Papa Francisco reforça essa ideia quando afirma que a dificuldade em desvendar e erradicar as fake news se deve também ao fato de as pessoas interagirem muitas vezes dentro de ambientes digitais “homogêneos e impermeáveis a perspectivas e opiniões divergentes”. “Esta lógica da desinformação tem êxito, porque, em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação (que poderia colocar positivamente em discussão os preconceitos e abrir para um diálogo construtivo), corre-se o risco de se tornar atores involuntários na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas”.

 

OPINIÃO NÃO É FATO

Pollyana Ferrari apontou a parcela de responsabilidade do jornalismo, que, nos últimos 15 anos, teria se distanciado da sua essência quando priorizou o chamado jornalismo opinativo. “Jornalismo sempre foi prestação de serviço. Não existe duas verdades. Sob a justificativa de adotarem um viés editorial, os veículos acabaram virando opinativos, jornalismo de colunista”.

Esse também é chamado de “jornalismo de aspas”, isto é, aquele no qual o repórter é enviado pelos editores com o compromisso de retornar para a redação com uma declaração de alguém que corresponda aos interesses editoriais. “Mas quem disse que o que a pessoa falou é verdade?”, questionou Ferrari, que considera que o excesso de opinião empobreceu o jornalismo. “A opinião não se checa. Mas opiniões não são fatos. Cada pessoa pode ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos”, continuou. 

 

EM BUSCA DE LIKES

É preciso ter claro que não são apenas fake news aquelas notícias completamente falsas, mas também as informações construídas de modo que a opinião de quem a produz são mais valorizada do que a verdade dos fatos, geralmente para atender a interesses políticos, ideológicos e até comerciais. 

Nesse aspecto, com o objetivo de obter “cliques”, “curtidas”, em seus perfis ou páginas, muitos veículos manipulam manchetes, títulos ou informações completas, quando não produzem notícias totalmente falsas em meio a outras verdadeiras em busca de mais acessos e maior audiência.

O mesmo fenômeno acontece com os indivíduos que compartilham as informações sem verificarem sua autenticidade pelo simples desejo de obterem mais likes, mais repercussão e visibilidade. “Quando comecei a pesquisar sobre as fake news, percebi que o lastro com o real está se perdendo, e a ‘persona digital’ tem falado mais alto. Sem perceber, a mentira vai tomando conta de tudo”, alertou Ferrari. 

 

COMBATE

Há uma discussão mundial sobre a necessidade de uma legislação que combata as fake news. Na Alemanha, por exemplo, quem compartilhar notícias falsas será multado. Redes como o Facebook se consideram empresas “pós-mídia”, uma vez que não produzem informações ou conteúdos jornalísticos, que é de responsabilidade dos que utilizam a plataforma. Isso aumenta a responsabilidade dos usuários.

Recentemente, os desenvolvedores do Facebook anunciaram novas mudanças nos algoritmos da rede sob o argumento de permitirem que as pessoas voltem a acessar mais conteúdos compartilhados por seus amigos e familiares do que de páginas institucionais ou de veículos de jornalismo. Essa medida pode ser interpretada como uma tentativa de diminuir o crescimento das bolhas, mas a professora da PUC acredita que isso também pode ser uma tentativa da rede social de Mark Zuckerberg ingressar em países como a China, onde há um grande controle do acesso à internet, ou para se adaptarem às propostas de regulamentação de combate às notícias falsas em outros países.

RESPONSABILIDADE PESSOAL

Assim como na mensagem de Francisco, a Professora da PUC-SP reforçou a necessidade de se batalhar por um mundo onde o senso crítico prevaleça. “É um momento muito rico e oportuno para discutir sobre ética e senso crítico. Temos que discutir sobre verdade, critérios éticos na escola, na universidade, na Igreja, no clube. Como disse o Papa, é a verdade que liberta”, afirmou Ferrari.

O primeiro conselho da Especialista é “desconfie de tudo”. “Todo mundo precisa ser um ‘checador’ de fatos. Ao receber a foto de algum fato político, por exemplo, antes de ser do partido que gosta ou não, verifique se essa imagem corresponde à realidade, se não foi manipulada. Temos que aprender a checar o tempo todo. E quando for falso, não compartilhemos e avisemos para as pessoas que é mentira, independentemente se é algo que eu gosto ou não”, indicou. 

“Compartilhamos fake news porque, na maioria das vezes, nem sequer clicamos no texto que recebemos”, acrescentou a Professora, explicando que o cérebro precisa de um a quatro minutos para absorver uma informação nova. Imagine o tempo que o dedo leva para curtir ou compartilhar uma notícia na tela do smartphone”. 


CHECAGEM DE FATOS

Para auxiliar na verificação das notícias, surgiram em vários países serviços de Fact-Checking (checagem de fatos) que, por meio do cruzamento de dados, analisam notícias e declarações feitas por fontes citadas nas matérias, informando o grau de veracidade dos dados. O Instituto Poynter, líder mundial em jornalismo, com sede nos Estados Unidos, por exemplo, elaborou um código de princípios para sua Rede Internacional de FactChecking, que vem sendo adotado por diversos veículos noticiosos.

No Brasil, as agências Pública, Aos Fatos e Lupa integram a rede internacional de checagem de fatos.  

Código internacional de príncípios do Fact-Checking

UM COMPROMISSO DE APARTIDARISMO E EQUIDADE

Checamos declarações usando os mesmos parâmetros para todas as nossas checagens. Não concentramos nossas checagens em um só lado do espectro político-ideológico. Seguimos o mesmo método em todas as nossas checagens e permitimos que as evidências ditem nossas conclusões. Não advogamos por agendas políticas ou declaramos preferência ideológica em assuntos que checamos.

UM COMPROMISSO PELA TRANSPARÊNCIA DAS FONTES

Queremos que nossos leitores tenham autonomia para comprovar o que apuramos. Fornecemos acesso às nossas fontes detalhadamente, para que os nossos leitores possam replicar nosso trabalho — à exceção de casos em que a segurança da fonte esteja sob ameaça. Nessa hipótese, oferecemos o máximo de detalhes que for possível.

UM COMPROMISSO PELA TRANSPARÊNCIA DE FINANCIAMENTO E ORGANIZAÇÃO

Somos transparentes em relação à origem do nosso dinheiro. Se aceitamos financiamento de outras organizações, asseguramos que nossos financiadores não tenham influência sobre as conclusões de nossas reportagens. Detalhamos o histórico profissional de todos os principais membros da nossa organização e explicamos nossa estrutura organizacional e nossa situação jurídica. Também indicamos claramente maneiras de nossos leitores entrarem em contato conosco.

UM COMPROMISSO COM TRANSPARÊNCIA DE MÉTODO

Explicamos nossa metodologia: como selecionamos, pesquisamos, escrevemos, publicamos e corrigimos nossas checagens. Encorajamos nossos leitores a nos mandar temas para checagem e somos transparentes a respeito de como e por que checamos determinados fatos.

UM COMPROMISSO COM CORREÇÕES FRANCAS E AMPLAS

Temos uma política pública de correções e a seguimos escrupulosamente. Corrigimos com clareza e transparência, de acordo com nossas práticas públicas. Divulgamos o resultado final, de modo que nossos leitores tenham acesso à versão corrigida.

 

PRINCIPAIS SITES DE FAKE NEWS DO BRASIL 

Um levantamento feito pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), com base em critérios de um grupo de estudo da Universidade de São Paulo (USP), identificou os maiores sites de notícias do Brasil que disseminam informações falsas, não-checadas ou boatos pela internet, as chamadas notícias de "pós-verdades".

* Ceticismo Político: http://www.ceticismopolitico.com/

* Correio do Poder: http://www.correiodopoder.com/ 

* Crítica Política: http://www.criticapolitica.org/ 

* Diário do Brasil: http://www.diariodobrasil.org/ 

* Folha do Povo: http://www.folhadopovo.com/ 

* Folha Política: http://www.folhapolitica.org/ 

* Gazeta Social: http://www.gazetasocial.com/ 

* Implicante: http://www.implicante.org/ 

* JornaLivre: https://jornalivre.com/ 

* Pensa Brasil: https://pensabrasil.com/

(fonte: Isso é Notícia)
 

 

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