SÃO PAULO

Arte e Fé

Exposição destaca mistério da santidade presente nas relíquias

Por Fernando Geronazzo
10 de novembro de 2017

Com o título ‘Relíquia: transcendência do corpo’, a exposição permanece até 8 de janeiro no Museu de Arte Sacra
 

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Uma das tradições mais antigas do Cristianismo é destaque em uma exposição aberta no dia 8 de outubro, no Museu de Arte Sacra de São Paulo. “Relíquia: transcendência do corpo” apresenta 20 séculos de Cristianismo por meio de 300 relíquias de santos e beatos e objetos que, segundo a tradição, estão ligados à vida de Jesus Cristo, pertencentes ao acervo familiar de Ario Borges Nunes Junior, Curador da mostra junto com Beatriz Vicente de Azevedo.

Psicanalista e doutor em Direito Canônico, Ario Borges explicou ao O SÃO PAULO que ele sempre se interessou pelo estudo da vida dos santos e, consequentemente, por suas relíquias. Alguma delas já pertenciam a sua família, outras foram obtidas após contatos com ordens e congregações religiosas ao longo de 40 anos. Além das relíquias, o curador possui uma biblioteca com aproximadamente 2 mil livros sobre a vida e escritos dos santos. 

 

Sinal da Comunhão do Santos

O termo relíquia tem sua origem na palavra latina reliquiae , que significa resto, aquilo que sobrou. Desde a antiguidade cristã, os restos mortais de mártires e santos reconhecidos pela Igreja, assim como objetos que pertenceram a eles ou estiveram em contato com seus corpos, eram considerados pelos fiéis como mais valiosos que o ouro ou pedras preciosas. “O corpo do cristão, isto é, daquele que, no transcurso de sua vida terrena, agiu como outro Cristo, depois da morte, não será considerado como um mero cadáver, mas como uma relíquia, e, portanto, como um objeto de grande valor, ao qual deverá ser tributada a respectiva honra”, destaca a apresentação da exposição. 

Ario Borges destacou que, no sentido teológico, a relíquia está ligada à comunhão dos santos, enquanto sinal concreto daqueles que conformaram a própria vida com a de Cristo. “A relíquia é um sinal material da esperança na ressurreição para aqueles que se uniram a Cristo e, por isso, são conservadas em relicários com enfeites e adornos justamente para dar a dimensão dessa glória”. 

 

Herança cristã

A história das relíquias se confunde com a história do próprio Cristianismo. No primeiro século, as comunidades cristãs se reuniam nas catacumbas junto aos túmulos dos mártires para celebrar a Eucaristia. Dessa prática surgiu a tradição mantida até hoje de depositar relíquias dos santos junto aos altares das igrejas no rito de dedicação. “A celebração na sepultura do mártir exprimia o desejo de comunhão com ele no seguimento de Cristo”, explicou Ario Borges, em seu livro “Relíquia, o destino do corpo na tradição cristã”, da editora Paulus . Um grande exemplo dessa tradição são as basílicas de São Pedro e de São Paulo Fora dos Muros, ambas em Roma, erguidas sobre os lugares onde estão sepultados os apóstolos e mártires que dão nome a esses templos.

 

Naturezas

Tradicionalmente, são três as naturezas das relíquias. A primeira são as provenientes do corpo, como ossos, órgãos, pele e sangue. A segunda natureza se refere a objetos que pertenceram ao santo em vida, como roupas e indumentárias. As de terceira natureza são aquelas que tiveram contato com o corpo do santo, como tecidos que envolveram seus restos mortais durante a exumação. Há, ainda, as relíquias insignes, de grandes partes do corpo, como cabeça e membros. Essas não podem ser conservadas de forma privada, mas mantidas em locais de culto público e sob custódia de instituições religiosas. 

Todas as relíquias, sobretudo as de primeira natureza, possuem um certificado que atesta sua autenticidade, emitido geralmente por autoridades eclesiásticas ou pelos postuladores das causas de beatificação e canonização. As relíquias de terceira natureza são mais populares, geralmente fixadas em santinhos e estampas com orações, costumam ser distribuídas pelos postuladores das causas dos santos com o objetivo de difundir a devoção ao servo de Deus que está em processo de beatificação. 

Em relação às relíquias ligadas a Jesus Cristo, como fragmentos da cruz, da coroa de espinhos, da coluna da flagelação ou da mesa do Cenáculo, que são mais antigas, Ario Borges explicou que sua autenticidade é atestada por alguma autoridade eclesiástica e por seu “lastro histórico”. “Desde os séculos III e IV, elas são veneradas como relíquias pelos cristãos. Só esse fato já dá um valor histórico por si mesmo”.

 

Cronologia

Os curadores organizaram a exposição em nove módulos. Os oito primeiros são apresentados em ordem cronológica, abrangem aspectos históricos significativos da Igreja e se caracterizam pelas expressões específicas que o conceito de santidade foi adquirindo ao longo da história: as relíquias atribuídas a Cristo e aos seus contemporâneos; os mártires, doutores, eremitas e monges; fundadores e membros de ordens mendicantes;  protagonistas da reforma católica; místicos centrados na humanidade de Cristo; religiosos e missionários; mártires dos sistemas políticos totalitários e fundadores inseridos nas regiões mais carentes. 

No nono módulo estão expostas relíquias de santos, beatos, veneráveis e servos de Deus, de diversos períodos históricos, de uso privado dos fiéis. 

 

Finitude e eternidade 

Ario Borges ressaltou, ainda, que a relíquia não é um amuleto, mas um objeto de culto e veneração que está associado à história de vida e ao testemunho deixado pelos santos.

Referindo-se ao título da mostra, o curador explicou que a contemplação das relíquias permite ao cristão meditar sobre o mistério da eternidade a partir da finitude do corpo. “Especialmente hoje em dia, em que a mídia apresenta o corpo sujeito à virtualidade absoluta. Quando a pessoa contempla a insignificância do corpo presente na relíquia, ela transcende. É um limite entre o nada e transcendência”.

 

Informações

 Exposição: “Relíquia: Transcendência do Corpo”  
Período: 8 de outubro de 2017 a 8 de janeiro de 2018  
Local: Museu de Arte Sacra de São Paulo (avenida Tiradentes, 676, Luz)  
Horário: Terça-feira a domingo, das 9h às 17h (bilheteria das 9h às 16h30)  
Ingresso: R$ 6,00 (estudantes e idosos pagam meia); grátis aos sábados  
Tel.: (11) 3326-5393  
Site: www.museuartesacra.org.br
 

‘Relíquia: transcendência do corpo’

Luciney Martins/O SÃO PAULO
Luciney Martins/O SÃO PAULO

‘Relíquia: transcendência do corpo’

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