INTERNACIONAL

Puebla - México

‘Evangelização no presente e no futuro da América Latina’

Por Fernando Geronazzo
16 de mai de 2019

São João Paulo II, durante discurso inaugural da Conferência de Puebla, em 28 de janeiro de 1979

Reprodução

A 3ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano aconteceu em Puebla, no México, entre os dias 27 de janeiro e 13 de fevereiro de 1979. Foi convocada por São Paulo VI em 12 de dezembro de 1977, com o tema “Evangelização no presente e no futuro da América Latina”.

O evento seria realizado entre os dias 12 e 18 de outubro de 1978. No entanto, com o falecimento do Papa, em 6 de agosto daquele ano, e o breve pontificado do Papa João Paulo I, o evento foi adiado para o ano seguinte, sendo inaugurado por São João Paulo II.

A Conferência de Puebla reuniu 364 pessoas, sendo 21 cardeais, 66 arcebispos, 131 bispos, 80 padres, 16 religiosos, 33 leigos, cinco observadores não católicos, quatro diáconos permanentes, quatro camponeses e quatro indígenas.

 

REFERÊNCIAS

Além das referências da Conferência de Medellín, na Colômbia, realizada 11 anos antes, e do próprio Concílio Vaticano II, a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (1975), de São Paulo VI, inspirou significativamente as reflexões do evento.

“Este documento se converte num testamento espiritual que a Conferência deverá esquadrinhar com amor e diligência para fazer dele outro ponto de referência obrigatório e ver como colocá-lo em prática”, destacou São João Paulo II, ao referir-se à Exortação de seu Predecessor, no discurso inaugural da Conferência.

O contexto sociopolítico e cultural vivido no continente também marcou fortemente essa Conferência, como o agravamento de regimes ditatoriais e as decorrentes violações de direitos individuais, o crescimento da pobreza e da desigualdade social.

“Como atuar pastoralmente na América Latina, numa total fidelidade ao Evangelho? Quais são os critérios e as linhas de uma verdadeira e autêntica evangelização para a América Latina?”, indagou, no início da Conferência, o Cardeal Aloísio Lorscheider, então Arcebispo de Fortaleza (CE) e Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam).

 

DOCUMENTO

As conclusões da Conferência de Puebla foram publicadas em um documento que, conforme as palavras de São João Paulo II, é “fruto de uma oração assídua, de uma profunda reflexão e de cuidados apostólicos intensos”. Ainda segundo o Pontífice, o texto aprovado por unanimidade pelo episcopado latino- -americano oferece “uma vasta gama de orientações pastorais e doutrinais acerca de questões da máxima importância”.

O Documento desdobra-se em cinco partes segundo o método ver-julgar-agir: visão pastoral da realidade da América Latina; desígnio de Deus sobre a América Latina; a evangelização na Igreja da América Latina: comunhão e participação; a Igreja missionária a serviço da evangelização na América Latina; e opções pastorais.

 

REALIDADE

Os bispos chamam a atenção para o fenômeno da desigualdade e da injustiça social no continente, que gera uma “pobreza desumana”, expressa pela mortalidade infantil, falta de moradia, problemas de saúde, fome, desemprego e subemprego, entre outros fatos vistos como “escândalo e uma contradição com o ser cristão”.

Uma das contribuições da Exortação Evangelii Nuntiandi para o Documento de Puebla se refere à evangelização da cultura e o valor da religiosidade popular para a evangelização, como “presentes na alma de nosso povo”. O Documento acentua a importância da organização de uma adequada catequese, como “primeira opção pastoral” capaz de formar indivíduos pessoalmente comprometidos com Cristo.

 

POBRES

O episcopado voltou a reafirmar a opção preferencial e solidária pelos pobres feita em Medellín, como “compromisso evangélico da Igreja”. Ressalta, ainda, que “o serviço dos pobres é medida privilegiada, embora não exclusiva, do seguimento de Cristo”.

O Documento explica que, para o cristão, o termo “pobreza” não é somente expressão de privação e marginalização das quais ele precisa se libertar. Designa também um modelo de vida que é vivido e proclamado por Jesus como bem-aventurança.

“A pobreza evangélica une a atitude de abertura confiante em Deus com uma vida simples, sóbria e austera, que aparta a tentação da cobiça e do orgulho”, reforça o texto, explicando que, no mundo de hoje, essa pobreza é “um desafio ao

materialismo e abre as portas a soluções alternativas da sociedade de consumo”.

 

JOVENS

Os bispos em Puebla também assumiram uma opção preferencial pela juventude. Tal compromisso implica apresentar a eles “o Cristo vivo, como único Salvador, para que, evangelizados, evangelizem e contribuam, como em resposta de amor a Cristo, para a libertação integral do homem e da sociedade, levando uma vida de comunhão e participação”. “A Igreja vê na juventude da América Latina um verdadeiro potencial e o futuro de sua evangelização. Por ser verdadeira dinamizadora do corpo social e especialmente do corpo eclesial, com vistas à sua missão evangelizadora no continente”, completa.

 

SACRAMENTO DE COMUNHÃO

O episcopado latino-americano reafirmou a opção por uma “Igreja-sacramento de comunhão”, servidora e missionária, “que anuncia alegremente ao homem de hoje que ele é filho de Deus em Cristo, que denuncia as situações de pecado, que chama à conversão e compromete os fiéis na ação transformadora do mundo”.

 

SÃO JOÃO PAULO II

NÃO HÁ EVANGELIZAÇÃO VERDADEIRA SEM O ANÚNCIO DO FILHO DE DEUS

“É um grande consolo para o pastor universal constatar que vos congregais aqui não como um simpósio de peritos, não como um parlamento de políticos, não como um congresso de cientistas ou técnicos, por mais importantes que possam ser estas reuniões, mas como um fraterno encontro de pastores da Igreja”, afirmou São João Paulo II, no discurso inaugural da Conferência de Puebla, recordando o dever dos bispos de serem “mestres da verdade”

Referindo-se à Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, o Papa enfatizou: “Não há evangelização verdadeira enquanto não se anunciar o nome, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus”.

No discurso, o Pontífice também indicou algumas tarefas prioritárias para a Conferência: a família, as vocações sacerdotais e religiosas e a juventude.

 

RELEITURAS DO EVANGELHO

O Pontífice polonês também alertou para o fenômeno das “releituras” do Evangelho resultantes de especulações teóricas. “Elas causam confusão ao afastar-se dos critérios centrais da fé da Igreja e se cai na temeridade de comunicá-las, a modo de catequese, às comunidades cristãs”, destacou.

Ainda de acordo com São João Paulo II, tais “releituras” silenciam a divindade de Cristo ou incorrem em interpretações contrárias à fé da Igreja, apresentando Jesus apenas como um “profeta” anunciador do Reino de Deus. Em outros casos, Jesus é apresentado apenas como “comprometido politicamente, como um lutador contra a dominação romana e contra os poderes, e inclusive implicado na luta de classes (...) Esta concepção de Cristo como político revolucionário, como o subversivo de Nazaré, não se coaduna com a catequese da Igreja”.

 

DIGNIDADE HUMANA

São João Paulo II reconheceu a preocupação dos bispos com a América Latina sobre as relações existentes entre evangelização e promoção humana. “Se a Igreja se faz presente na defesa ou na promoção da dignidade do homem, o faz na linha de sua missão, que, mesmo sendo de caráter religioso e não social ou político, não pode deixar de considerar o homem na integridade de seu ser”, afirmou.

“Quem pode negar que hoje em dia existem pessoas individuais e poderes civis que violam impunemente direitos fundamentais da pessoa humana, tais como o direito de nascer, o direito à vida, o direito à procriação responsável, ao trabalho, à paz, à liberdade e à justiça social; o direito de participar nas decisões que concernem ao povo e às nações?”, indagou o Santo Padre, ressaltando, ainda, formas variadas de violência coletiva, como a discriminação racial de indivíduos e grupos, a tortura física e psicológica de prisioneiros e dissidentes políticos. “Clamamos novamente: Respeitai o homem! Ele é imagem de Deus!”, manifestou.

 

LIBERTAÇÃO

Nesse sentido, São João Paulo II falou da necessidade de “uma reta concepção cristã da libertação”, em seu sentido integral, profundo, como anunciou e realizou Jesus. “Libertação de tudo o que oprime o homem, mas que é, antes de tudo, salvação do pecado e do maligno, dentro da alegria de conhecer a Deus e de ser conhecido por Ele”, disse, citando São Paulo VI.

“Libertação feita de reconciliação e perdão. Libertação que nasce da realidade de ser filhos de Deus, a quem somos capazes de chamar ‘Abba, Pai!’ e pelo qual reconhecemos em todo homem um irmão nosso, capaz de ser transformado em seu coração pela misericórdia de Deus”, acrescentou o Pontífice.

Lembrando, ainda, o texto da Evangelii Nuntiandi, o Papa concluiu que, dentro da missão própria da Igreja, a libertação “não pode reduzirse à simples e estreita dimensão econômica, política, social ou cultural... que jamais se pode sacrificar às exigências de uma estratégia qualquer, de uma práxis ou de um êxito a curto prazo”.

 

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