NACIONAL

Migrações

‘Eu era estrangeiro e me receberam em sua casa’

Por Nayá Fernandes
19 de abril de 2019

Número de brasileiros que deixam o país é quase o dobro em relação àqueles que chegam em busca de oportunidades

Nunca se falou tanto em migração e refúgio quanto hoje. Novelas, filmes, conferências, notícias e uma enxurrada de informações que, às vezes, ajudam e, às vezes, atrapalham. O fato é que, desde sempre, o ser humano migrou. “Saiu da sua casa, da sua parentela e da casa de seu pai”, como narra o livro do Gênesis no capítulo 12.

No relato bíblico, sair é uma ordem de Deus, que promete abençoar Abrão com uma numerosa descendência. Porém, nem sempre o que leva as pessoas a sair é uma promessa. Em muitas situações, elas são obrigadas a deixar tudo devido a catástrofes naturais, questões econômicas, religiosas, políticas e, até mesmo, familiares.

E Jesus? Ele também foi refugiado? A Bíblia recorda que os pais de Jesus foram para o Egito a fim de fugir da perseguição de Herodes. Além disso, os relatos do Novo Testamento contam como Jesus e seus discípulos andavam pelas cidades como peregrinos, para anunciar a boa notícia do Reino de Deus. Também o Antigo Testamento orienta, em muitos momentos, o amor ao estrangeiro.

 

DEIXAR A PORTA ABERTA

“Se um estrangeiro vier habitar convosco na vossa terra, não o oprimireis, mas esteja ele entre vós como um compatriota, e vós o amareis como a vós mesmos, porque fostes já estrangeiros no Egito.”

O trecho acima foi retirado do livro do Levítico 19,33-34, sendo que muitos outros textos bíblicos exortam para a acolhida do estrangeiro. O livro de Jó, por exemplo, no capítulo 31, versículo 32, recorda que é preciso “deixar uma porta sempre aberta para o viajante”. E o próprio Jesus, como recorda o capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, diz: “Eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa”.

O termo estrangeiro foi substituído ao longo dos séculos e, hoje, usase a palavra migrante para aqueles que saem de um país ou região diferente daquela em que nasceram e chegam a outra localidade. Usa-se o termo refugiado no caso das pessoas que são obrigadas a sair, assim como se usam outros termos, como apátrida ou deslocado, para designar situações específicas.

Durante a visita ao Marrocos, em março deste ano, o Papa Francisco, mais uma vez, falou sobre a necessidade que os governantes dos países e todas as pessoas de bem têm de não ficar indiferentes à questão da migração no mundo.

“Quando se constata que são muitos milhões os refugiados e outros migrantes forçados que pedem a proteção internacional, sem contar as vítimas do tráfico e das novas formas de escravidão nas mãos de organizações criminosas, ninguém pode ficar indiferente perante esse sofrimento”, disse o Pontífice, em um encontro realizado com cerca de 80 migrantes na sede da Caritas no Marrocos.

 

CENÁRIO MUNDIAL

A cada minuto, 31 pessoas sofrem com deslocamentos forçados no mundo. São 68,5 milhões de refugiados. Os dados se referem ao ano de 2017 e foram compilados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), que publica, anualmente, o relatório “Global Trends”.

A maioria dos refugiados é de países como a Síria, mas também de nações que passaram por graves violações de direitos humanos ou conflitos armados, como é o caso da Colômbia, onde 7,7 milhões de pessoas foram obrigadas a mudar de localidade por causa de conflitos.

De acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), entre 2010 e 2017, o Brasil recebeu 126.102 solicitações de refúgio e reconheceu 10.145 pedidos, porém apenas 5.134 refugiados vivem atualmente no País. A reportagem com os dados completos foi publicada pela Conectas Direitos Humanos, em 6 de junho de 2018.

Já o Relatório de Migração Internacional 2017, publicação do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, da ONU, concluiu que 3,4% dos habitantes do mundo são migrantes internacionais. Em países desenvolvidos, o número de residentes migrantes passou de 9,6%, em 2000, para 14% em 2017. Os dados foram publicados na página do Centro Regional de Informação das Nações Unidas, em Língua Portuguesa.

 

MÃOS À OBRA

Congregações, instituições e movimentos que acolhem migrantes e refugiados em vários países do mundo fazem trabalhos em diferentes frentes. Em alguns casos, ajudam as pessoas que chegam a conseguir regularizar a documentação, um lugar para morar e um trabalho que as possibilite viver com dignidade.

Em outras situações, os migrantes recebem hospedagem e alimentação, como é o caso da Casa do Migrante, que faz parte do complexo da Missão Paz, no centro da Capital Paulista, ou da Casa Scalabrini 634, em Roma, na Itália. Com perfis diferentes, contudo com o mesmo objetivo de ajudar os migrantes e refugiados a se integrar à nova sociedade em que estão, ambas as casas estão ligadas à Congregação dos Padres Scalabrinianos.

Outras comunidades religiosas, como os Jesuítas e os Franciscanos, mantêm projetos semelhantes. Em Lampedusa, na Itália, por exemplo, porta de entrada para os imigrantes na Europa, existem várias instituições religiosas atuantes.

Em quase todos os países, a Caritas Internacional e o Acnur estão presentes e desempenham um trabalho diretamente com migrantes e refugiados, procurando, sobretudo, ter pessoas que falem diferentes idiomas para ajudar os recém-chegados em tudo o que for possível.

LUTA PELA LIBERDADE

Prudence Kalambay Libonza, 37, é uma modelo e ativista congolesa que foi convidada a participar da abertura da nova novela da Globo, “Órfãos da Terra”. No Brasil desde 2008, Prudence chegou a vencer um concurso de miss, na mesma época em que iniciou uma ONG para atender mulheres que eram abandonadas com os filhos no Congo. A situação em seu País começou a complicar e ela chegou a ser perseguida, tendo que sair de lá rapidamente.

Depois de morar um tempo no Rio de Janeiro (RJ), Prudence veio para a cidade de São Paulo, mas demorou a conseguir um emprego e, devido a isso, chegou a viver numa ocupação na região da Praça da República.

Quando mudou de estado, procurou a Caritas Arquidiocesana de São Paulo e foi convidada a participar de diversos eventos que a ajudaram a conhecer pessoas e começar uma mudança de vida, com uma rede de apoio na Capital. Hoje, ela é convidada para participar de eventos em todo o Brasil.

Fonte: Caritassprefugio.wixsite.com
 

VENEZUELANOS EM SÃO PAULO

A Pastoral do Migrante da Paróquia Santa Cruz de Itaberaba, na Região Episcopal Brasilândia, acolheu sete imigrantes venezuelanos numa casa preparada para eles na região. A chegada dos imigrantes aconteceu em março.

Cruz Angel Lezama Natera, 47, e Yussi Elizabeth Yepez de Lezama, 41, vieram com os três filhos: Isabella Victoria, 9, Samantha Valentina, 7, e Juan Pablo, 4. Junto com eles, estavam os irmãos Marvin Joel Arnal Gomez, 28, e Josué Manases Arnal Gomez, 22.

Os imigrantes chegaram a São Paulo com o desejo de conseguir emprego e logo ter condições de alugar uma casa e poder prover o seu próprio sustento. Eles saíram da Venezuela após perceberem que as condições estavam cada vez mais difíceis e que não conseguiriam se manter com o que ganhavam.

A reportagem sobre a acolhida dos venezuelanos foi publicada na edição de 13 de março de 2019 do jornal O SÃO PAULO.

 

7 FILMES SOBRE IMIGRAÇÃO

O professor Helion Póvoa Neto, diretor do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios (NIEM) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez uma lista com algumas das produções que abordam o tema da migração e do refúgio.

A lista foi atualizada e disponibilizada no blog Migra Mundo e tem como objetivo ajudar as pessoas a refletir sobre esse processo por meio da sétima arte.

 

1 BOLÍVIA (ISRAEL ADRIÁN CAETANO, ARGENTINA, HOLANDA, 2001)

A lista foi atualizada e disponibilizada no blog Migra Mundo e tem como objetivo ajudar as pessoas a refletir sobre esse processo por meio da sétima arte.

2 BEM-VINDO (PHILIPPE LIORET, FRANÇA, 2009)

Um jovem iraquiano de 17 anos deseja visitar sua amada na Inglaterra. Porém, ao tentar ir para lá, depara-se com a real situação que os imigrantes indocumentados enfrentam na Europa.

3 ATRAVESSANDO O ARIZONA - CROSSING ARIZONA (DAN DEVIVO, JOSEPH MATHEW, EUA, 2006)

O filme traz uma série de relatos de pessoas em meio à crise da imigração no Arizona – relato que fica ainda mais atual com a ascensão de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos e seus planos de ampliar o muro já existente na fronteira entre aquele País e o México.

4 A BOA MENTIRA (PHILIPPE FALARDEAU, EUA/QUÊNIA/ÍNDIA, 2015)

Após caminhar quilômetros para chegar a um campo de refugiados no Quênia, um grupo de sudaneses tem a oportunidade de entrar em um voo humanitário para os Estados Unidos. Lá, conhecem Carrie Davis, uma assistente social. Embora ela seja um pouco perdida, está disposta a ajudá-los a ter uma vida melhor. Ela passa a ter uma nova visão de mundo a partir do contato com os sudaneses.

5 CENTRAL DO BRASIL (WALTER SALLES, FRANÇA, BRASIL, 1998)

Dora é uma professora que trabalha escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Ao conhecer um garoto que acabara de perder a mãe em um atropelamento, ela decide partir com ele para o Nordeste, para ajudá-lo a encontrar o pai, que nunca conhecera. Foi o último filme brasileiro a conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

6 COISAS SUJAS E BELAS - DIRTY PRETTY THINGS (STEPHEN FREARS, GRÃ-BRETANHA, 2002)

Dora é uma professora que trabalha escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Ao conhecer um garoto que acabara de perder a mãe em um atropelamento, ela decide partir com ele para o Nordeste, para ajudá-lo a encontrar o pai, que nunca conhecera. Foi o último filme brasileiro a conseguir a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

7 CONTO CHINÊS, UM (SEBÁSTIAN BORENSZTEIN, ARGENTINA, 2011)

Roberto é um argentino dedicado a cuidar de sua loja e colecionar notícias incomuns. Sua rotina é interrompida quando ele testemunha um chinês sendo arremessado de um carro em movimento. O homem fora assaltado e ficou sem qualquer documento. Para piorar, o chinês não entende sequer uma palavra em Espanhol. Roberto decide ajudá-lo e o leva para sua casa, até que encontra um tradutor e finalmente entende a dramática história de sua vida.

Fonte: Blog Migramundo
 

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