VATICANO

Menores

Encontro no Vaticano reúne 190 participantes e propõe boas práticas para a proteção de menores na Igreja

Por Filipe Domingues
20 de fevereiro de 2019

Em coletiva de imprensa, organizadores detalham dinâmica de encontro idealizado pelo Papa

Vatican Media

Conhecer o drama das vítimas de abuso sexual, saber como reagir ao problema, alinhar protocolos e tomar medidas rápidas, com responsabilidade e transparência. São esses os objetivos do encontro intitulado “A proteção de menores da Igreja”, que será realizado no Vaticano esta semana, entre os dias 21 e 24, a pedido do Papa Francisco.

O evento, primeiro do tipo para discutir o problema dos abusos sexuais praticados por membros da Igreja, reúne 190 participantes, entre eles 114 presidentes de conferências episcopais, 12 religiosos e dez religiosas, todos focados em compartilhar experiências em prevenção e combate aos abusos de menores, e produzir material que poderá servir de base para a aplicação de medidas concretas nas realidades locais.

Na segunda-feira, 18, o Papa Francisco tuitou: “Convido-os a rezar nestes dias pelo encontro sobre a proteção de menores na Igreja, evento que quis realizar como ato de forte responsabilidade pastoral diante de um desafio urgente do nosso tempo”

 

EVOLUÇÃO DAS MEDIDAS

Já existe uma rede de estruturas na Igreja para responder ao problema, como a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, instituída pelo Papa Francisco em 2014, e o Centro de Proteção de Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana, criado pelo Padre Jesuíta Hans Zollner, em 2012, com o aval do Papa Emérito Bento XVI, além de normas que se tornaram mais exigentes ao longo da última década.

Também as dioceses, seminários e instituições de educação já estão mais adaptadas, e os casos de abuso diminuíram drasticamente desde os anos 1980.

Entretanto, de acordo com o porta- -voz do Vaticano, Alessandro Gisotti, “o Papa Francisco sabe que um problema global só pode ser resolvido com uma resposta global”. Para o Papa, é necessário que todos os bispos tenham absolutamente claro o que é preciso fazer para prevenir e combater o “drama mundial” dos abusos de menores.

Francisco admite que o problema dos abusos não termina com este encontro e, por isso, pede que as expectativas sejam “desinfladas”, como disse na viagem de retorno do Panamá a Roma, em janeiro. Mas, ao mesmo tempo, ele demonstra que todo esforço possível deve ser feito, e de forma conjunta.

 

ATENÇÃO ÀS VITÍMAS

Em coletiva de imprensa realizada no Vaticano, os organizadores explicaram que esse histórico de medidas deve ser compartilhado e, portanto, este é de fato um encontro sem precedentes. O Cardeal Blase Cupich, Arcebispo de Chicago, nos Estados Unidos, e membro do comitê organizador, definiu o evento como um “momento de virada”.

“A pedido do Santo Padre, vamos nos concentrar no abuso de menores e as decisões que tomarmos aqui vão ajudar a reagir a outros tipos de abuso”, disse o Cardeal Cupich, na segunda-feira, 18. “Como preparação para o encontro, o Papa pediu aos bispos que visitassem vítimas, para que conhecessem o drama e o sofrimento que vivem. Isso manterá o nosso foco”, acrescentou.

O encontro segue uma estrutura parecida com a dos sínodos: há debate em assembleia, reuniões em grupos de trabalho e momentos de oração – neste caso, inclusive, uma liturgia penitencial, para pedir perdão a Deus pelos erros do passado. Algumas vítimas participam com testemunhos e nos pequenos grupos. O primeiro dia é dedicado ao tema da “responsabilidade”, o segundo à “prestação de contas” e o terceiro à “transparência”. O dia a dia dos eventos está no site.

 

LUGAR SEGURO PARA TODOS

Outro membro do comitê organizador, Dom Charles Scicluna, Arcebispo de Malta e Secretário-Adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), disse que é preciso que todos estejam conscientes da importância de prevenir e proteger. “Temos que voltar às nossas dioceses e comunidades sabendo como reagir. E precisamos rezar. Pedimos orações, pois precisamos de toda a ajuda possível”, afirmou.

Conforme definiu o porta-voz Gisotti, o Papa quer que esta seja “uma reunião de pastores, e não um congresso acadêmico. Um encontro de oração, discernimento, catequético e operativo”.

Buscando sinalizar uma política de “tolerância zero” ao problema, poucos dias antes do início do evento, no sábado, 16, a CDF comunicou a demissão do ex-cardeal americano Theodore McCarrick do estado clerical, considerando-o culpado por abuso sexual de menores e adultos e abuso de poder. O ex-arcebispo de Washington, de 88 anos, já estava proibido de exercer o ministério sacerdotal publicamente, vivendo em “reclusão e oração” a pedido do Papa. Agora, não pode mais se apresentar como sacerdote nem presidir a celebração dos sacramentos.

 

APLICAÇÃO NO BRASIL

O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Cardeal Sergio da Rocha, participa das reuniões como representante brasileiro. Ele afirmou ao site da CNBB que hoje há “uma consciência maior a respeito da gravidade dos abusos de menores, especialmente quando cometidos por clérigos, assim como da necessidade de justiça e de assistência às vítimas”

Dom Sergio citou que a CNBB tem uma comissão para tratar do tema, com diretrizes precisas, e que a questão vem sendo discutida especialmente nos encontros de formadores.

 

 

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