SÃO PAULO

Povo da rua e o frio

E se fosse você?

Por Fernando Geronazzo, Renata Moraes, Fábio Augusto da Silva e Millena Guimarães
17 de julho de 2017

Com a chegada de uma nova frente fria, aumentam os riscos de mortes de pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo

(Foto: Luciney Martins)

Após uma semana de temperatura alta e ar seco em São Paulo, os serviços de meteorologia informaram que o tempo começará a mudar na capital paulista a partir desta segunda-feira, 17.

Mas a virada do tempo vai acontecer mesmo na terça-feira, 18, quando a frente fria passa pelo estado e muda a direção dos ventos e trazem ar frio e úmido do mar para o continente. A previsão é de temperatura entre 10ºC e 15ºC.

Com a queda da temperatura aumentam os casos de mortes de pessoas em situação de rua, realidade que se repete todos os anos.

Na edição de 15 de junho de 2016, o jornal O SÃO PAULO publicou uma reportagem sobre as mortes do povo da rua por causa do frio e as ações de solidariedade promovidas por grupos da Igreja. Confira: 

Pouco se sabe sobre João Carlos Rodrigues, a não ser que ele tinha 55 anos e fazia pequenos “bicos” coletando material reciclável e montando a estrutura de palcos para shows da Prefeitura de São Paulo.

Com o dinheiro desses pequenos trabalhos, ele alugou um quartinho na região da estação Belém do Metrô, onde o valor médio do aluguel de um cômodo simples é próximo a R$ 500. Mas os “bicos” acabaram e João teve que voltar para a rua. E foi atrás das escadarias do terminal de ônibus dessa mesma estação, na zona leste de São Paulo, que ele foi encontrado morto, sozinho, na manhã da sexta-feira, 10 [de junho de 2016], dia em que os termômetros da Capital Paulista registraram temperatura mínima de 5ºC. Ao seu lado, havia apenas uma mochila na qual ele guardava roupas doadas e documentos.

“Nós o conhecíamos na convivência com o pessoal de rua, vinha na igreja buscar as coisas que necessitava”, relatou o Padre Julio Lancellotti, vigário episcopal para a Pastoral da Povo da Rua. Entre as coisas que João Carlos buscava na Paróquia São Miguel Arcanjo, na Região Belém, estava o cobertor com o qual ele foi encontrado enrolado.

João Carlos não foi a única vítima do frio que atingiu a Cidade nos últimos dias. Na avenida Paulista, cartão postal de São Paulo, próximo ao cruzamento com a não menos conhecida avenida Brigadeiro Luís Antônio, Adilson Roberto Justino, de idade não identi cada, morreu na madrugada do domingo, 12. Uma testemunha chamou a Polícia Militar por volta das 4h, quando o encontrou sofrendo uma convulsão. Os policiais chamaram o socorro, mas Justino não resistiu.

No bairro de Santana, na zona Norte, dois corpos não identificados também foram encontrados. Um, localizado na rua Doutor Gabriel Piza, próximo ao metrô Santana, na quinta-feira, 9, é de um homem. O outro é de uma mulher, achado na avenida Cruzeiro do Sul, perto do Terminal Rodoviário do Tietê, no domingo, 12.

“Os dois casos de Santana, eu descobri quando estava indo ver a situação do morador morto na Paulista, e lá fiquei sabendo dessas duas pessoas que faleceram por conta do frio, o que acontece normalmente no período da manhã. Sempre há alguém que informa”, relatou o Frei Agostino, da Comunidade Voz dos Pobres, que também atua na Pastoral do Povo da Rua. Na madrugada da segunda-feira, 13, dia em que o Centro de Gerenciamento de Emergência (CGE) registrou a temperatura mais baixa dos últimos 12 anos em São Paulo (0º C), mais uma vítima foi encontrada, dessa vez diante do número 107 da rua Amazona, no Bom Retiro. Segundo a Polícia Militar, Nailson Paulo Batista, 51, passou mal no período da tarde. O Samu foi acionado, mas o rapaz já estava morto quando a equipe chegou ao local. Ele foi identificado por causa de uma carteirinha do posto de saúde que portava.
Quem serão os próximos ‘Joãos’, ‘Nailsons’, ‘Justinos’, vítimas da noite fria nas calçadas, praças, diante de comércios, residências e monumentos? Como ajudar os que mais sofrem com as baixas temperaturas na “selva de pedra”?

“O ‘problema dos pobres’ desafia toda a cidade de São Paulo a se mostrar acolhedora e sensível diante das necessidades do próximo. Mais do que seu patrimônio e riqueza mate- rial, vale cada ser humano, que nela habita e precisa ser acolhido amparado. A maior riqueza da cidade são as pessoas sensíveis e solidárias diante dos sofrimentos do próximo. Elas humanizam a vida da cidade”, afirma a nota da Arquidiocese de São Paulo, assinada pelo arcebispo metropolitano, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, e pelo Padre Julio Lancellotti. “Lembremos sempre as palavras de Jesus: tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes (cf. Mt 25,40). Isso mesmo também ensina a sabedoria popular: ‘o que se dá ao pobre, empresta-se a Deus’”, continua o texto.

Ajuda concreta

Em entrevista ao O SÃO PAULO, Ana Maria da Silva Alexandre, agente de pastoral e colaboradora da Casa de Oração do Povo da Rua, entidade liga- da ao Vicariato Episcopal para o Povo da Rua, informou que além dos cobertores, meias e agasalhos, há a necessidade de doações de leite, chocolate, açúcar, margarina e água.

“Tudo que chega de doação é prontamente destinado aos irmãos em situação de rua. Distribuímos as doações para diversos grupos que acolhem esses irmãos”. Ana destacou, ainda, que todas as noites os grupos se revezam para realizar a visita pastoral nas ruas, levando alimentos, cobertores, indicando locais e abri- gos para os que desejam, e também evangelizando os irmãos.

Padre Giampetro Carraro, fundador da Missão Belém, também destacou a situação emergencial da comunidade que acolhe por dia aproximadamente 40 pessoas em situação de rua e precisa de 200 quilos de arroz para alimentá-las. A Missão Belém também busca doações de cobertores, agasalhos e roupas. Frei Tarcísio, da Fraternidade O Caminho, que também atua no acolhimento aos pobres, disse ao Semanário da Arquidiocese, em maio, sobre a preocupação com os que mais sofrem no inverno. “Para aqueles que estão em situação de rua, é muito mais difícil. Às vezes, um cobertor numa noite fria pode salvar uma vida”. Para o Frei, o ato de vestir os nus é mais que uma obra de misericórdia. “O que nos move para ir ao encontro do irmão é o próprio Evangelho, é olhar as pessoas com misericórdia e enxergar o Cristo que há em cada uma delas”, disse, complementando que é durante o inverno que eles acolhem muitas pessoas em situ- ação de rua com doenças respiratórias, como pneumonia e tuberculose.

Segundo o Censo da População em Situação de Rua de 2015, feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) da Prefeitura de São Paulo, são 15.905 pessoas em situação de rua na Cidade. Dessas, 13.046 são do sexo masculino e 52,7% do total estão na região da Subprefeitura Sé. Para Frei Agostino, esse número é maior. “A Prefeitura fala em 15 mil, mas segundo a Pastoral do Povo de Rua são 20 mil pessoas”. De acordo com o Padre Julio, que acompanha há mais de 20 anos essa realidade, a Prefeitura não disponibiliza abrigos emergenciais em toda a Cidade para acolher os irmãos.

Vença o frio com solidariedade

As notícias das mortes por conta do frio geraram uma onda de solidariedade entre as pessoas, grupos, famílias, associações, entidades e igrejas, com iniciativas em favor dos irmãos de rua. Nas redes sociais, as pessoas têm se mobilizado em campanhas de arrecadação de agasalhos, cobertores, meias e alimentos.

A Arquidiocese de São Paulo, por meio da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, do Jornal O SÃO PAULO e da rádio 9 de Julho, iniciou em maio a Campanha do Agasalho 2016, orientando que as paróquias, comunidades, colégios e instituições coloquem uma caixa de papelão em lugar visível para arrecadação dos agasalhos. A campanha acontecerá enquanto o frio persistir. O material arrecadado pode ser distribuído no entorno das comunidades e poderá também ser enviado às seguintes entidades sociais: Centro de Referência para Refugiados, Aliança de Misericórdia, Missão Belém, Arsenal da Esperança, Casa do Migrante, Casa de Oração do Povo da Rua, ou para algumas outras das vá- rias organizações da Igreja que trabalham com a população em situação de rua e abrigamento.

O Centro de Juventude da Companhia de Jesus no Brasil (Anchie- tanum), dedicado à formação e ao acompanhamento da juventude, e o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) estão realizando a Campanha “Doar é gesto de Solidariedade”, que arrecadará agasalhos, meias, roupas e cobertores para serem doados em diversos pontos da Cidade. A arrecadação ocorrerá até o m de junho, podendo ser estendida até julho, nos dias de semana das 8h às 19h, ou em dias de atividade do Anchietanum. O endereço para a entrega das doações é na rua Apinajés, 2.033, Sumarezinho, próximo à estação Vila Madalena do Metrô.

Campanhas de arrecadação de dinheiro via internet têm mobiliza- do diversas pessoas. Este é o exemplo da iniciativa do jornalista André Graziano, no site “Vakinha” (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/co- bertores-2016), que arrecada dinheiro para a compra de meias e cobertores para as pessoas em situação de rua. A Campanha começou em 1o de maio e se encerra em 15 de agosto, com o objetivo de bater a meta de R$ 5 mil.

Também a página do Facebook “Calor Humano” é voltada para arrecadar dinheiro a ser utilizado para comprar cobertores e meias, que serão distribuídos para entidades ligadas à Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.

O Arsenal da Esperança há muitos anos vem acolhendo moradores, abrindo suas portas diariamente para 1.200 homens que se encontram em dificuldades, o assim chamado “povo em situação de rua”: jovens e adultos que sofrem pela falta de trabalho, casa, alimentação, saúde e família. Segundo o Padre Lorenzo Nacheli, membro do Sermig – Fraternidade e Esperança, a média de pessoas acolhidas nestes tempos frios subiu para 1.250 homens por noite.

 

Publicado em O SÃO PAULO, edição 3106, de 15 a 21 de junho de 2016.

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.