NACIONAL

#SIMÀVIDA

É possível dar amor e dignidade

Por Fernando Geronazzo
06 de julho de 2018

Apoio recebido para continuar a gestação garante a dignidade não só para o bebê como para a mulher.

Arte: Sergio Ricciuto Conte

No sofá da sala da jornalista Joana de Souza Schmitz Croxato, 35, e de seu marido, Marcelo Almeida Croxato, 36, em São Paulo, estão todos prontos para a foto da família: os filhos Benjamin, 4, Samuel, 1 ano e meio, e, num porta-retratos, a fotografia da pequena Vitória. Quando perguntado sobre onde está a irmãzinha carinhosamente chamada de “Vivi”, o pequeno Samuel aponta para o alto, na direção do céu. “Desde pequenos, nós explicamos aos nossos filhos que, antes de nascerem, eles tiveram uma irmã que tinha um ‘dodói’ muito sério e foi para o céu”, contou Joana ao O SÃO PAULO.

Em 2009, Joana descobriu que estava grávida. Durante a primeira ultrassonografia morfológica, com 12 semanas de gestação, o feto foi diagnosticado com acrania, que é quando a calota craniana não se fecha. Embora a acrania seja uma malformação relacionada à constituição óssea, ela compromete o desenvolvimento do cérebro, que, exposto ao líquido amniótico, deteriora-se, desenvolvendo uma anencefalia. Imediatamente, os médicos informaram a Joana que se tratava de uma “gestação inviável” e a aconselharam a “interrompê-la”. Naquela época, o aborto para esses casos de malformação era autorizado mediante ação judicial. Anos depois, em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) legalizou a prática do aborto de crianças diagnosticadas com anencefalia.

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No momento do parto, em 13 de dezembro de 2010, o único pedido que Joana fez aos médicos era de poder ver a filha logo que ela nascesse, pois não sabia por quanto tempo a menina resistiria. “Eu senti muita paz quando ela nasceu, consciente de que até ali eu tinha feito a minha parte e tinha cuidado dela e, a partir dali, a vida dela estava nas mãos de Deus”, disse. “Eu cheguei a ouvir o chorinho dela e logo o pediatra veio me dizer que ela estava bem, mas que realmente era um caso muito grave e, por isso, ela foi levada imediatamente para UTI neonatal”. Quando Joana se recuperou da cesariana e foi para o quarto, seu marido lhe mostrou um vídeo que gravou da filha na UTI. “Ela era linda, toda rosadinha, gordinha. Era um bebê, uma criança com toda a pureza de um recém-nascido”, contou a mãe da menina que recebeu o nome de Vitória de Cristo.

Horas depois, Joana foi levada para conhecer a filha pessoalmente. “Eu conversei com ela, falei o quanto eu a amava, e o quanto lamentava que ela tivesse vindo com aquele problema, mas que tinha fé que ela receberia tudo de melhor junto de Deus, quando ela partisse”, relatou a Jornalista, que, no dia seguinte, pôde viver a experiência de pegar sua filha no colo. “Foi algo que curou a alma, de concluir a história dela, viver a gestação, dar à luz. Não era possível curar a doença dela, mas era possível dar amor e dignidade. Ela nasceu em um hospital, estava recebendo os cuidados, alimento, oxigênio e afeto. Era um tratamento paliativo, como qualquer pessoa que tem uma doença incurável recebe. Isso é dar dignidade”, acrescentou.

Vitória viveu um dia após o outro. Aos 4 meses, ela passou por uma cirurgia para fechar a parte aberta do crânio, o que lhe daria um pouco mais de qualidade de vida. Com quase 6 meses, a bebê pôde ir para casa. “Ela viveu um ano tranquilamente conosco em casa. Claro que com necessidades especiais, fazia fisioterapia, mas comia, chorava, arrastava-se no chão. Percebíamos que ela tinha um pouco de audição, coisas que os laudos dos exames diziam não ser possível”, disse Joana. Ao se aproximar dos dois anos, Vitória começou a desenvolver infeções urinárias causadas pelo mal funcionamento da bexiga. Seus últimos oito meses foram mais delicados, tomando antibióticos e passando por algumas internações, até que, em 17 de julho de 2012, com 2 anos e meio, ela faleceu.

Joana é enfática ao afirmar que se ela e o marido tivessem ficado apenas com o diagnóstico do início da gravidez, eles não viveriam toda essa experiência. “Só pelo fato de ela ter nascido, de a conhecermos e amá-la, já valeu muito a pena. Se ela fosse abortada, iríamos conviver com essa dúvida para sempre, se realmente ia viver um minuto, horas, meses ou anos. Se essa vida é interrompida, nunca se saberá qual é a real possibilidade... É importante considerar que há uma vida, um ser humano que tem o direito de nascer e ser respeitado, mesmo que tenha uma deficiência grave”, disse a Jornalista, acrescentando que o apoio recebido para continuar a gestação garante a dignidade não só para o bebê como para a mulher.

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