SÃO PAULO

Massacre do Carandiru

As diferentes versões sobre o 2 de outubro de 1992

Por Daniel Gomes e Fernando Geronazzo
03 de outubro de 2017

Muitas versões e depoimentos surgiram do um jogo de futebol entre os detentos que acabou em confusão no Pavilhão 9 e porteriormente transformou-se na rebelião que deixou 111 mortos

Imagens: Arquivo/OSÃO PAULO

Casa de Detenção de São Paulo, 2 de outubro de 1992. Aquele que seria mais um jogo de futebol entre os detentos acaba em confusão no Pavilhão 9. Rapidamente, os presos se dividem em grupos rivais e a briga se espalha pelos andares. Horas depois, se transforma na rebelião que terminaria com o trágico número de 111 presos mortos, segundo dados oficiais do Governo do Estado de São Paulo.

O fato gerou repercussão nacional e internacional e não passou indiferente ao Cardeal Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo de São Paulo, que, em nota, classificou o episódio como “profundamente lamentável” e “uma verdadeira chacina, massacre deplorável que nos enche de indignação e entristece a todos”. O Arcebispo, assim como os familiares dos presos e representantes de grupos de direitos humanos, pedia que houvesse punição aos culpados “para que episódios hediondos como esse nunca mais se repitam”.

 

Como e Por quê?

Ainda hoje não há uma única resposta para o desfecho daquele 2 de outubro de 1992. Uma das versões dá conta que ao perceber que a situação havia saído do controle no Pavilhão 9, o então Diretor da Casa de Detenção, José Ismael Pedrosa, acionou a Polícia Militar, que chegou ao Carandiru com mais de 300 homens. Pedrosa teria tentado uma última negociação, mas sem sucesso, o que levou o Coronel Ubiratan Guimarães, que chefiava a operação, a decidir pela entrada na unidade prisional. Ele e um efetivo de 86 policiais teriam controlado a situação no térreo, mas o Coronel acabaria sendo atingido por uma explosão ao tentar chegar aos andares superiores, o que teria gerado um cenário de descontrole, que redundaria na entrada do restante do efetivo policial, recebido a facadas, estiletes ensanguentados e tiros.

“A ordem [para invadir o Carandiru] partiu do Coronel Ubiratan, que, como comandante da operação, tinha essa autorização implícita de que poderia entrar no momento que achasse oportuno. Eu não dei a ordem pois estava dentro do meu helicóptero, retornando de Sorocaba (SP) para São Paulo, mas se estivesse no meu gabinete teria dado a ordem, porque era a hora de entrar. E dar a ordem para entrar não quer dizer dar a ordem para matar. A Polícia tinha que agir, porque minha Polícia não se omitia”, disse em entrevista à TV Brasil, em 2012, Luiz Antônio Fleury Filho, governador de São Paulo na época do episódio do Carandiru.

A versão dos familiares dos presos e de grupos de direitos humanos que acompanharam o massacre difere da oficial, a começar pela quantidade de detentos mortos, que teria sido maior que 200. Também afirmam que após a conversa com o Diretor do Carandiru, os presos decidiram pôr fim à rebelião e alguns até teriam entregues suas armas e já estavam dentro das celas, quando foram atingidos por tiros na cabeça e no tórax, na maioria dos casos. Alguns, para escapar da morte, deitaram ao lado dos que já estavam mortos.

A edição do O SÃO PAULO de 8 de outubro daquele ano (imagem ao lado), trouxe o relato de um dos familiares das vítimas, que falou sob a condição de anonimato.

“A todo momento saíam carros de cadáveres. Até as pessoas mais fortes choravam, pessoas em voz alta clamavam por Deus, outros choravam e outros ainda xingavam. Do interior do presídio se ouviam tiros e nas janelas os presos esticavam panos brancos pedindo calma (...) A Polícia não contou que usou helicópteros para metralhar as janelas do Pavilhão 9, não contou também que havia óleo misturado com bolinhas de confetes nas escadas para que os presos que caíssem fossem comidos pelos cachorros ou mortos por eles. A Polícia também não contou que os sobreviventes tiveram que dormir o resto da noite ao lado dos corpos. Se avisassem morriam”.

 

Penalizações

Passados 25 anos do massacre, nenhum dos envolvidos no mando ou execução da ação foi condenado. Pedrosa e Pedro Franco de Campos, Secretário de Segurança Pública à época, foram exonerados de seus cargos. Já o Coronel Ubiratan foi condenado em 2001 a 632 anos de prisão, mas recorreu em liberdade e foi absolvido em 2006, meses antes de ser encontrado morto em uma ocorrência com evidências de crime passional.

Em júris realizados a partir de 2013, a maioria dos 74 policiais réus pela execução dos presos foi condenada, mas pôde recorrer em liberdade. Em setembro de 2016, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou os julgamentos que condenaram os policiais. Os desembargadores da 4ª Câmara Criminal do Tribunal do Júri, responsáveis pelo recurso da defesa dos réus, entenderam não haver elementos para mostrar quais foram os crimes cometidos por cada um dos agentes e pediram novos julgamentos, que deverão ser feitos pelo 2º Tribunal do Júri da Capital Paulista, ainda sem data estabelecida.

 

(Com informações da TV Brasil, G1 e Super Interessante)

 

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