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Por Nayá Fernandes
22 de dezembro de 2017

O apadrinhamento afetivo de crianças e adolescentes, ou mesmo o apoio financeiro dado a instituições educativas e culturais, é uma atitude de comprometimento e solidariedade que transforma vidas 

A situação de crianças e adolescentes em todo o mundo inspira cuidados e atenção. Nos países pobres, são eles os mais vulneráveis e a quem são destinados projetos para que se garanta um desenvolvimento adequado em todos os níveis – físico, intelectual e emocional. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que todos têm direitos iguais. Mas, na prática, são inúmeras as situações de risco em que os menores de 18 anos são expostos, às vezes, dentro do próprio círculo familiar. 

Além dos processos de adoção, as Varas da Infância e da Juventude, em todo o País, têm desenvolvido programas específicos para incentivar o apadrinhamento afetivo. O padrinho ou a madrinha é aquela pessoa, ou casal, disposta a passar tempo com a criança ou com o adolescente que está em situação de abrigo e que, na maioria das vezes, não tem vínculos familiares e, se os têm, estes são, de alguma maneira, insuficientes. O principal objetivo, como o próprio nome sugere, é criar com o afilhado um vínculo afetivo estável e dar a ele a oportunidade de conviver com uma família ou comunidade para além da instituição em que está. 

 
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Anita Stefani e Thiago Pedro são casados há pouco mais de dois anos e ainda não têm filhos. Em 2016, Anita assistiu a uma reportagem sobre apadrinhamento afetivo e gostou muito da ideia de doar seu tempo e criar laços diferentes daqueles familiares. Foi quando o casal procurou o projeto e começou a ser acompanhado para compreender melhor como ocorreria o apadrinhamento. 

Em 2017, depois de quatro meses de formação e encontros semanais promovidos pelo Instituto Fazendo História e o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, eles se encontraram pela primeira vez com os adolescentes, que haviam optado por serem apadrinhados. “Fizemos três encontros lúdicos com os adolescentes e, com o auxílio da equipe técnica e dos profissionais que nos acompanharam, fomos sendo aproximados, ou seja, houve uma identificação entre padrinhos e afilhados”, contou Anita à reportagem do O SÃO PAULO.

O afilhado de Anita e Thiago tem 17 anos e já está se preparando para deixar o abrigo. Tendo passado por várias experiências diferentes, ele tem uma irmã que também está no Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto e encontrou nos padrinhos pessoas em quem confiar para contar seus medos e sonhos. “No início, nós tivemos medo também, e eu confesso que, em certo momento, estava cética sobre a possibilidade de desenvolver um vínculo afetivo forte com ele. Mas aconteceu de forma tão natural, que hoje eu não tenho dúvidas que o quero bem”, disse Anita.

 

Projeto Piloto

O apadrinhamento afetivo no Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto teve início em fevereiro de 2017 com um projeto piloto. Ele foi feito e pensado em parceria com o Fórum Central, pela Vara da Infância e da Juventude, junto ao Instituto Fazendo História. 

“A ideia era trabalhar pretendentes a padrinhos e as nossas crianças e adolescentes. Foi utilizada a metodologia do Instituto Fazendo História – que além do apadrinhamento tem atividades com crianças e adolescentes – e divulgadas as vagas para a comunidade, principalmente nas redes sociais. Muitas pessoas se inscreveram. O objetivo é atender crianças que têm dificuldades de se recolocar em alguma família, a maioria devido à idade”, explicou Marina Gomes, Coordenadora de uma unidade do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto.

O apadrinhamento afetivo também começou a ser desenvolvido em junho de 2016, numa parceria entre a Vara da Infância e da Adolescência de Santo Amaro e o Centro Universitário Assun Amar ção (Unifai).  A partir da divulgação do projeto em diferentes mídias e em canais de televisão, muitas pessoas inscreveram-se no site do Unifai. “Foram mais de 400 inscrições desde o começo”, disse, à reportagem, Alessandra Medeiros, Coordenadora do curso de Serviço Social no Unifai.

“Oferecemos um curso de capacitação que fala sobre apadrinhamento do ponto de vista legal, e principalmente no que difere da adoção, bem como quais as características das crianças e adolescentes institucionalizados e outros aspectos importantes para os pretendentes. Para isso, colaboram o curso de Pedagogia, de Direito e de Serviço Social. Depois disso, há uma avaliação social, realizada pelos professores assistentes sociais do Unifai, e a avaliação psicológica com uma professora psicóloga. Emitimos um parecer social e psicológico e encaminhamos esses relatórios para a Vara de Santo Amaro e também a do Jabaquara, que por sua vez, entram em contato com os abrigos”, explicou Alessandra. 

Em contato com uma média de 30 abrigos, o projeto teve, em um ano e meio, 24 apadrinhamentos bem-sucedidos. “Parece pouco, mas é um processo de afunilamento. Temos muitas crianças e adolescentes disponíveis, mas nem sempre os padrinhos interessados se enquadram no perfil. Por exemplo, não é fácil encontrar alguém disposto a apadrinhar uma criança com deficiência num abrigo em Parelheiros, no extremo Sul da Capital”, disse ela. 

Para Alessandra, uma das principais preocupações é justamente a expectativa dos candidatos ao apadrinhamento. “As pessoas buscam um perfil de crianças semelhante ao da adoção. Por isso, ainda temos muitas crianças e adolescentes nos abrigos. É preciso despertar a consciência das pessoas. Apadrinhar requer doação de tempo, não significa só levar para comer um lanche ou passear e devolver para o abrigo”, continuou Alessandra.

Já no Centro Nossa Senhora do Bom Parto, sete adolescentes passarão pela experiência de viver o Natal e o Ano Novo junto às famílias dos padrinhos. É o caso do afilhado de Anita e Thiago. “Vamos passar o Natal com a família do meu esposo, no interior de São Paulo. Quando falamos para os meus sogros sobre levar nosso afilhado, eles foram extremamente receptivos e disseram: ‘aqui é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um’. Já o Ano Novo, vamos passar na praia. Acho que será uma experiência bem diferente para ele e nós também estamos ansiosos”, contou Anita.

 

Uma rede de solidariedade

“Como é gratificante escutar do seu afilhado que você é uma das pessoas mais importantes na vida dele. Esse é o caminho. Nem sempre fácil e tranquilo, mas o caminho certo.”

A frase foi escrita por Patrícia Leite Lopes, 51, no dia 14 de outubro, na Página Apadrinhamento Afetivo, que ela mesma criou para compartilhar as experiências com o afilhado. Ela também conheceu o projeto por meio de divulgação na mídia e realizou o curso da capacitação em 2016 para compreender melhor a iniciativa. 

“É tudo realizado de maneira muito séria. Não há, por exemplo, uma escolha do afilhado. É a equipe multidisciplinar que faz o pareamento e identifica o que é mais adequado para todos”, explicou Patrícia à reportagem. Ela salientou que o mais importante é que os adultos possam tornar-se referência para os adolescentes abrigados nas instituições. “É bom lembrar que se trata de um apadrinhamento afetivo, não material. É preciso ter disponibilidade de tempo, perceber as necessidades deles, demonstrar carinho, e criar uma rede de acolhimento. Com o tempo, o padrinho também é aquele que ajudará a fazer uma ponte entre o afilhado e o mundo fora do abrigo”, continuou ela. 

Aos 16 anos, o afilhado de Patrícia está em abrigos públicos desde os 5 anos e hoje cursa o primeiro ano do ensino médio. “Ele tem uma irmã no abrigo e outro irmão que já completou 18 anos e saiu do abrigo. A mãe e esse irmão mais velho o visitam frequentemente”, contou Patrícia. Para ela, o objetivo é criar um elo forte de confiança e amor, “quem sabe para o resto de nossas vidas”.

 

Doações também são bem-vindas

Mas para quem não consegue apadrinhar uma criança ou adolescente, devido a questões pessoais, há outros modos de colaborar. Além do apadrinhamento afetivo, muitas instituições trabalham com padrinhos financeiros. São, na maioria, projetos que possibilitam às crianças mais oportunidades de educação e cultura, ou até mesmo em relação a cuidados básicos, como higiene e alimentação. 

A Comunidade Católica Missão Belém, por exemplo, mantém, com a doação de padrinhos, uma escola no Haiti, num dos lugares mais afetados pelo terremoto de 2010. Em entrevista ao O SÃO PAULO, publicada em outubro de 2016, a Irmã Renata Lopes, que está há sete anos no Haiti, enfatizou que as pessoas têm sofrido com a miséria e que grande parte das crianças não vai à escola. “Nossa principal ação tem sido com a educação. O centro educacional atende 1.100 crianças que iniciam no berçário e vão até o 5º ano. Elas passam o dia todo conosco e têm direito a atendimento médico, odontológico, três refeições diárias e a oportunidade de ter e sonhar com uma vida melhor”, disse a Religiosa. Para apadrinhar uma criança no Haiti, basta doar R$ 50,00 por mês. Mais informações pelo e-mail soscriancahaiti@gmail.com. 

Outras instituições mantêm projetos semelhantes internacionalmente. É o caso do “Fé e Alegria”, idealizado pelos jesuítas. Por meio de doações e do trabalho voluntário de jovens do mundo inteiro, eles mantêm centros de atendimento a crianças e adolescentes. Na cidade de Manaus (AM), por exemplo, há centros com aulas de línguas estrangeiras e de esportes, num dos bairros mais carentes daquela capital. No site www. feealegria.org.br é possível doar a partir de R$ 30,00 e ser informado, imediatamente, quantas crianças serão ajudadas com o valor. 

Criado em 1939, com o apoio do à época Arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar d’Affonseca e Silva, o Amparo Maternal acolhe gestantes e mães com bebês que se encontram em situação de vulnerabilidade. O Amparo realiza o acolhimento social e assistência à saúde materno-infantil. A instituição recebe vários tipos de doações, também financeiras. De janeiro a junho de 2017, o Amparo realizou 3 mil intervenções obstétricas, sendo a maior parte delas partos normais.  Para contribuir é só entrar em contato pelo (11) 5089-8275 ou pelo e-mail doacoes@amparomaternal.org. 

A Casa Bakhita, por sua vez, é uma instituição que funciona como um lar transitório. As crianças que vão para a Casa Bakhita, no bairro do Belém, são retiradas das famílias pela justiça, porque estas não têm condições de cuidar das crianças ou as submetem a maus tratos. Ligada ao Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, a instituição atende crianças até os 3 anos e também trabalha com doações. Informações pelo número (11) 2692-4569 ou pelo e-mail casabakhita@ig.com.br.
 

 

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