Jornal o São Paulo

INTERNACIONAL

Thomas Leoncini

‘Diálogo entre jovens e velhos é solução para a sociedade do descarte’

Por Filipe Domingues
20 de abril de 2018

Thomas Leoncini, encontrou-se com o Papa e, a partir daí, escreveu um livro analisando a juventude atual

Arquivo Pessoal

Um jornalista italiano da geração dos anos 1980 e um Papa argentino nascido na década de 1930 entram em diálogo sobre a juventude do mundo atual e chegam à seguinte conclusão: só o encontro entre jovens e velhos pode combater a atual “cultura do descarte”. No livro “Deus é jovem”, publicado no Brasil pela editora Planeta, Thomas Leoncini relata essa série de encontros que teve com Papa Francisco.

Leoncini ficou conhecido por entrevistar o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman para o livro “Nascidos Líquidos”, o último do famoso teórico da “sociedade líquida”, morto no ano passado. O livro deve ser lançado no Brasil em agosto, pela editora Zahar, que ainda não decidiu o título oficial. O jornalista pôde encontrar o Papa para lhe entregar esse livro, em uma audiência que deveria durar 15 minutos. Conseguiu, em vez disso, conversar por cerca de uma hora.

“Houve uma sintonia entre nós”, conta. O Papa pediu para vê-lo novamente. O resultado foi um novo livro-entrevista, desta vez com o bispo de Roma. E, sobre essa nova obra que fala da juventude atual, Leoncini falou com O SÃO PAULO, por telefone. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

 

O SÃO PAULO - SEU LIVRO COM O PAPA DÁ A IMPRESSÃO DE QUE NÃO QUERIAM FALAR SÓ COM JOVENS CATÓLICOS. É ISSO?

Thomas Leoncini - Este era um dos grandes objetivos: que fosse uma mensagem tanto para dentro quanto para fora da Igreja. Você, que leu o livro, o interpreta também possível para um jovem ateu ou budista?

 

ACHO QUE SIM, POR ISSO A PERGUNTA...

Para mim, uma coisa bem-feita, que deve transmitir algo de bom, deve levar esperança. Esperança para os jovens e quem trabalha com eles, para que aprendam a desempenhar um papel central. O fato de os jovens não serem livres para decidir seu destino me parece algo de outro mundo. Estão submetidos a mecanismos de subordinação. Ou você ouve o adulto que lançou você, e o segue, burocratizando seus ensinamentos, ou então terá cada vez menos oportunidades. É um grande paradoxo, porque os jovens nascidos nos anos 90, e até mais tarde, têm um potencial muito maior do que todas as gerações anteriores. Eles têm uma cultura muito mais rápida, são mais qualificados, mas se sentem enganados.

 

TAMBÉM A GERAÇÃO DOS ANOS 80?

Essas gerações estão conscientes de que foram ridicularizadas. A sua e a minha geração, nascida nos anos 80, ainda tinha a esperança de que, seguindo um certo caminho profissional lógico, pudesse encontrar uma estrada bem definida. Já quem está crescendo hoje, a quem se destina este livro, está realmente perdido. Eles sabem que essa lógica das gerações anteriores não lhes trará nada e, portanto, a esperança é cada vez menor. Vivem vários “inícios” intermináveis e quase nunca encontram conclusões lógicas. Há uma constante de novas iniciativas que não dão aquilo que você espera. Hoje, esse grupo de pessoas tem muitos meios, pode se especializar em muitas outras coisas, mas não sabe o que fazer. É um problema muito mais grave.

 

O SEU OBJETIVO É LEVAR ESPERANÇA?

Claro. Eu sei que há aqueles que talvez o critiquem, mas o Papa Francisco é para mim o maior revolucionário vivo, do ponto de vista humano. Ele tem uma esperança de autenticidade e testemunho que nenhum outro homem de poder possui atualmente. Todos aqueles que estão no mesmo nível de notoriedade preferem se esconder de questões sensíveis, em vez de entrar nelas com profundidade. Já ele coloca o dedo na ferida. É um provocador das consciências dos poderosos.

 

ELE PEDE AOS JOVENS PARA FALAREM ABERTAMENTE…

Exatamente. Porque, para mim, ele interpretou de maneira verdadeiramente radical o Evangelho. O leva consigo na vida de todos os dias.

 

COMO SURGIU A IDEIA DE ESCREVER ESTE LIVRO? VOCÊ FOI CONVERSAR COM O PAPA SOBRE BAUMAN?

Sim, tive uma audiência privada que deveria durar 15 minutos. Aí nasceu uma sintonia, entrando no âmago dos problemas dos jovens e das gerações descartadas em geral. Os velhos estão na mesma situação: perderam a chance de decidir seu destino. São tratados como um grupo de pessoas a quem temos que dar assistência, como tivessem perdido a dignidade. Uma sociedade que não pensa no futuro, portanto nos jovens, e não aprecia o passado, eliminando os velhos, é uma sociedade que vai morrer.

 

FOI NESSA CONVERSA QUE VOCÊS PENSARAM EM UM LIVRO?

Nós ficamos juntos por mais de uma hora, conversando sobre todos os temas de “Nascidos Líquidos”. Nasceu um relacionamento autêntico e ele me disse que me chamaria de novo. E assim fez. A partir daí, falamos sobre a necessidade de ter um projeto que se concentrasse em jovens e velhos.

 

QUAL É O PARALELO ENTRE “DEUS É JOVEM” E O SEU LIVRO ANTERIOR, “NASCIDOS LÍQUIDOS”?

A centralidade dos jovens. A recuperação deles do descarte, de todas aquelas gerações descartadas, e o fato de unir no mesmo tema dois personagens extraordinários, Francisco e Bauman. O elo é a proposta de renovar o diálogo entre jovens e velhos de maneira construtiva. O jovem tem que ensinar o velho tanto quanto o velho tem que ensinar ao jovem. Cria-se uma relação de crescimento e evolução. Como diz o Papa Francisco, esta é a chave para revolucionar a sociedade. Ele diz no livro que duas gerações de descartados podem salvar o mundo. E é verdade. São certamente duas gerações abandonadas a si mesmas.

 

ESSE DIÁLOGO INTERGERACIONAL É A IDEIA CENTRAL DO LIVRO?

Claro. A troca entre gerações de descartados. Juntos, eles podem dar um tapa na cara dessa cultura do “usa e joga fora”. Agora está pior ainda: tudo parece supérfluo. O jovem, muitas vezes, sequer é usado, explorado... sequer é considerado. Não o querem nem de graça.

 

ESSA PROPOSTA TAMBÉM RESOLVERIA O PROBLEMA DO MEDO DE ENVELHECER?

Também. Os jovens que hoje estão com 20 anos têm necessariamente mais medo de envelhecer. Não por culpa deles. Falando com o Papa, pensamos que, ao contrário dos que hoje têm 50, 60 anos, essas gerações já são escravas da cirurgia plástica, da estética, mas perderam a responsabilidade. Eles se tornaram escravos da obsessão estética, numa tentativa de fugir de um destino já marcado pelo descarte. Enquanto isso, a geração intermediária faz isso como uma rivalidade para com os mais jovens. Querem estar à altura e ter uma beleza física padronizada.

 

POR QUE O TÍTULO “DEUS É JOVEM”?

Francisco disse que estamos descartando uma geração de jovens que, na verdade, assemelha-se com a imagem de Deus. E falando disso, ele afirmou: “Deus é jovem.” Eu perguntei: “Pode-se dizer que Deus é jovem?” E ele confirmou, porque os jovens estão do mesmo lado de Deus e devem recuperar sua centralidade na vida comum. Esta foi uma frase tão forte, e, dita pelo Papa, é uma revolução, na minha opinião. Em um artigo maravilhoso para um jornal argentino, o famoso teólogo Víctor Codina diz que nesse título já há uma revolução, pois a Igreja não deve esperar que as pessoas vão até ela para assistir alguma coisa, mas para viver algo, e para fazer parte. E a ideia de jovem, no nosso imaginário, é exatamente essa. O jovem é uma figura ativa que pode fazer tudo e se curar das feridas quando cai.

 

NA REUNIÃO PRÉ-SINODAL DOS JOVENS EM ROMA, DIZIA-SE QUE ELES VIVEM UM FORTE INDIVIDUALISMO, MAS TAMBÉM QUEREM A COMUNIDADE. CONVERSOU SOBRE ISSO COM O PAPA?

Sim. É como a busca da liberdade, de um lado, e da segurança, do outro. Quanto mais livre você é, mais você perde a segurança. Quanto mais seguro você é, menos livre. Neste caso, é a mesma coisa. A única maneira de viver e poder ganhar alguma coisa é confiar única e exclusivamente no individualismo. Os jovens de hoje são perfeitos nisso, porque têm competências e habilidades. Porém, existe a natureza humana: sem uma comunidade, você não se sente ninguém. Você não se sente amado.

 

QUANDO VOCÊ PERGUNTOU A FRANCISCO QUAL ERA SEU MAIOR MEDO QUANDO JOVEM, ELE TE FALOU DISSO...

Ele me olhou nos olhos e me disse: “Eu tinha medo de não ser amado.” Captou a chave do problema central de ser humano. Ele foi capaz de entender com precisão cirúrgica a chave para toda a psicologia e as ciências sociais de hoje. A construção de uma comunidade nasce porque o ser humano precisa se sentir apreciado e amado. Mas, ao mesmo tempo, nesta sociedade, como posso construir algo? Apenas com individualismo. É cada vez mais paradoxal.

 

QUAL É O PESO DA TECNOLOGIA NESSA DINÂMICA?

O Papa diz que a tecnologia é uma bênção, porque permitiu ver algumas realidades que não podiam ser vistas. Eu sou ainda mais favorável à tecnologia. A tecnologia permite construir e acelerar os tempos. Isso nos dá a oportunidade de “errar com pressa”, e cometer erros é essencial para poder fazer as coisas. Pode-se fazer mais coisas a uma velocidade enorme. Infelizmente, a internet começou como uma revolução democrática e virou uma ignição para o totalitarismo. O que começou como “façamos bem ao mundo” tornou-se “façamos um perfil no Facebook”, onde o individualismo pode ter exposição máxima. É onde posso banir e eliminar todo estranho que chega, todo estrangeiro que me pede amizade e onde, sobretudo, posso me iludir pensando que sou igual a todos os outros. Posso pensar que os outros têm o mesmo problema que eu e, portanto, que podemos criar uma comunidade.

 

ISSO É, DE FATO, UMA ILUSÃO...

Este é o maior erro de quem analisa a internet, se não o entende. Porque ninguém na internet tem os mesmos problemas de outra pessoa. São como gotas de óleo na água. Eles nunca serão uma comunidade, porque eles demandam da política e do público a solução de problemas privados. E os problemas privados são completamente diferentes entre as pessoas. Existe essa grande ilusão, em nível social, que a internet criou. Ela passou de “uma praça para todos” ao isolamento. Perguntam-me: a web é positiva ou negativa? Por um lado, é extremamente positiva, na capacidade de se liberar de percursos pré-estabelecidos. No entanto, se você a analisa em nível social, em grupos e comunidades, estamos muito longe do que deveria ser – e do que muitos acreditam que seja.

 

O QUE ACHA DO PRÓXIMO SÍNODO DOS BISPOS, ISTO É, SOBRE OS JOVENS?

Acho que o Papa Francisco teve uma ótima ideia. Realmente, os jovens têm que dizer tudo o que pensam, porque há uma pessoa que os entende. Ele compreende o drama que os jovens estão vivendo, como categoria. Também acho que os jovens tenham que fazer bagunça, isto é, falar e fazer ao mesmo tempo. A situação está ficando pior e os jovens precisam começar.

 

FRANCISCO E BAUMAN TÊM IDEIAS PARECIDAS? O PAPA É MAIS OTIMISTA?

Bauman me disse: “Sou pessimista, é verdade, mas no curto prazo. Mas sou otimista no longo prazo.” Ele disse tudo. Disse o quanto são importantes aqueles que têm agora 20 anos de idade. Eles têm mais inteligências hipertextuais, criam novas sínteses de significados, porque cresceram com a internet. Há grande esperança. O grande risco é que eles acabem sem lugar. Bauman e Francisco têm características humanas muito semelhantes, mais do que ideias parecidas: pensar sobre a fragilidade e a incerteza, porque é a única maneira de realmente construir uma revolução em uma sociedade incerta; o respeito absoluto pelas diferenças; e uma grande inteligência e cultura. A maioria das pessoas pode explicar os processos quando eles terminam. Eles dois descrevem os processos ainda enquanto os vivem. É uma coisa dificilíssima, porque quando você entra demais em um tema, perde o sentido da realidade. Eles nunca perderam.

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