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HOJE

Dia mundial da prematuridade: pela assistência adequada e proteção à vida

Por Jenniffer Silva
18 de novembro de 2019

Celebrada em 17 de novembro, data foi instituída em 2008, com o objetivo de diminuir taxa de nascimento antes de 37 semanas de gestação

Reprodução da Internet

No dia em que a menina nasceu, a m ãe a guardou em seus braços muito rapidamente, tão de pressa quanto o tempo em que pode protegê-la em seu próprio corpo. Passadas 24 horas, os passos entre seu quarto e a UTI Neonatal pareciam infinitos. Ao entrar, viu que quem a protegia já não era o seu calor, mas, incomutáveis fios presos a uma incubadora fria de onde ecoava um barulho desesperador demais para uma mãe que sonhou com uma chegada completamente diferente para a primeira filha. Seus corpos já não eram mais naquele momento apenas um, mas seu coração chorava a cada novo remédio. Cada agulha que transpassava a pele da filha era capaz de perfurar a alma da mãe.

Os momentos descritos por Bárbara Lis Machado, 26, foram vivenciados por 15 dias, período em que sua primeira filha, Maria Luiza Machado Nogueira, permaneceu internada na UTI Neonatal de um hospital em Lisboa, Portugal, após nascer de um parto prematuro com 35 semanas de gestação.

A mãe de Malu (como a menina é chamada) contou ao O SÃO PAULO que todos os dias de internação são imensamente difíceis, isso pela dor de acompanhar os procedimentos médicos, o fato de não poder ter nos braços a filha e por presenciar a mesma agonia também em outras famílias.

ACREDITAR NA VIDA

A gestação de Bárbara foi bastante conturbada. Durante o pré-natal, também realizado em Lisboa, os pais de Malu receberam um falso diagnóstico – os médicos disseram que a menina nasceria com má formação no rosto e, por isso, não teria nariz, e que possuía síndrome de Down.

Bárbara recordou, ainda, que por este diagnóstico errôneo, o esposo e ela foram orientados pelos médicos a interromper a gravidez aos 5 meses: “Foi um misto de sentimentos: revolta, indignação e sensação de descaso. Meu maior sonho era ser mãe. Meu marido e eu já tentávamos há tempos, a gravidez foi muito planejada, por isso, eu aceitaria minha filha do jeito que nascesse”.

Foi descoberto, posteriormente, que a menina, na verdade, estava sentada sobre o cordão umbilical, provocando um coágulo que impedia a passagem de alimentos, resultando em uma restrição de crescimento fetal (RCIU).

“Eu permaneci internada por 30 dias, tomando bombas calóricas para que, ao menos, o mínimo chegasse a ela, mais 15 mil calorias diariamente, sempre monitorada, injeções anticoagulantes (fármacos usados para prevenir a formação de trombos sanguíneos) eram aplicadas na minha barriga todos os dias, e quatro doses de injeção de corticóides para o amadurecimento dos pulmões dela, até a Malu nascer”, rememorou Bárbara.

PEQUENA GUERREIRA

Malu, que hoje tem 4 anos, nasceu de parto cesariana, pois, tanto ela quanto a mãe correriam risco de vida devido aos coágulos. Mesmo diante das complicações ao longo da gestação e do nascimento prematuro, Malu permaneceu internada apenas para ganhar peso e não desenvolveu sequelas graves, como se previa por seu quadro gestacional.

As únicas complicações da menina foram o atraso para aprender a andar e falar e uma fraqueza muscular nas pernas. Um dos motivos para isso, segundo Bárbara, foi a falta de fisioterapia - realizada em todos os casos de nascido prematuros no Brasil, mas não oferecida em Portugal. Esses fatores, entretanto, vêm sendo regredidos com a realização de fisioterapia e fonoaudiologia.

PROMOÇÃO DA VIDA

De acordo com um relatório organizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em dezembro de 2018, cerca de 30 milhões de bebês nascem prematuros, com baixo peso ou adoecem logo nos primeiros dias de vida, anualmente. No Brasil, 10% dos bebês nascem antes do tempo.

Essa realidade fez com que, em 2008, fosse instituído “O Dia Mundial da Prematuridade”, celebrado em 17 de novembro, com o objetivo de promover ações que colaborem para essa taxa seja diminuída.

A data foi implantada pela European Foundation for the Care of Newborn Infants (Fundação Europeia para o Cuidado dos Recém-Nascido) e, posteriormente, por outras organizações internacionais.

Em 2019, o tema global da data é “Nascido cedo demais: prestando os cuidados certos, na hora certa, no lugar certo”.

TOMADA DE CONSCIÊNCIA

É considerado um parto prematuro quando o bebê nasce com menos de 37 semanas de gestação. Maria Augusta Bento Cocaroni Gibelli, médica neonatologista e diretora da UTI Neonatal do Hospital das Clínicas, explicou que existem categorias que deliberam quais os cuidados necessários que esses recém-nascidos precisarão.

Crianças nascidas entre 34 e 36 semanas entram na categoria dos prematuros tardios. Neste caso, o tempo de internação será um pouco maior do que os que nascem com 37 semanas completas, devido às dificuldades para a amamentação.

Já os prematuros com menos de 34 semanas precisarão de cuidados específicos, por meio de uma equipe multidisciplinar, pois além da dificuldade na amamentação, apresentam problemas no sistema respiratório. O mesmo ocorre com o grupo de prematuros extremos, aqueles que nascem entre 24 e 26 semanas.

A neonatologista disse sequelas como doença pulmonar, devido ao alto volume de oxigênio recebido (acontece quando o bebê poderá necessitar de assistência até os dois anos de vida) e a hemorragia ucraniana, responsável por provocar paralisia cerebral e problemas visuais e auditivos são os mais comuns.

Para evitar o parto prematuro, é necessário que a mães realizem regulamente o pré-natal, capaz de detectar fatores de risco como hipertensão e diabetes. Quando não for possível evitar o nascimento antes das 37 semanas, muito comuns em gestações de gêmeos, trigêmeos e quadrigêmeos, a médica aconselhou que a família procure uma maternidade que tenha referência em UTI Neonatal.

Em São Paulo, as maternidades de referência destacadas pela neonatologista são o Hospital das Clínicas, a Santa Casa de Misericórdia, Hospital Universitário, Escola Paulista de Medicina, Maternidade da Vila Nova Cachoeirinha, Maternidade de Interlagos e Maternidade Leonor Mendes de Barros.

DOAÇÃO DE AMOR

Na Dinamarca, em 2013, um pai se sentiu incomodado ao ver seu filho prematuro sozinho na incubadora. Após algumas pesquisas, costurou um polvo de crochê afim de presenteá-lo e para que o bebê tivesse naquele pequeno espaço físico uma companhia.

A equipe médica autorizou e percebeu que o quadro clínico do recém-nascido progrediu, com a presença do polvo. Os médicos pediram a ele que outros polvos fossem costurados e entregues a todos os bebês internados. O fato fez surgir o projeto “Octo”.

Quatro anos mais tarde, em 2017, Luciana Trentin soube da iniciativa, entrou em contato com o grupo da Dinamarca para mais informações e formou no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, a “Octo Brasil”.

Ela, que atua como coordenadora, enfatizou que todo o trabalho é feito de forma independente, o que permite que cada estado implante o projeto em sua localidade. O grupo do Rio de Janeiro contribuiu com a formação sobre os critérios e padrões para a produção dos polvos.

Nada do que é feito pelos voluntários tem qualquer valor financeiro e nada é vendido, o princípio fundamental do serviço é a doação.

COMPANHIA QUE SALVA

Na capital fluminense, 19 hospitais foram contemplados com os polvos e até junho deste ano, já foram doados 840 kits, costurados pelas mãos de 99 voluntários.

Luciana esclareceu que a confecção do polvo deve ser feita com linha de algodão, esterilizado, os tentáculos não podem ultrapassar 22 centímetros, os pontos devem estar bem fechados e todos os detalhes devem ser costurados, nunca colados.

 O grupo se reúne todo segundo sábado de cada mês para entrega dos polvos produzidos e dos materiais para novas confecções. E este ano, foi convidado pela Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro para atender todos os hospitais do Estado.

“O projeto não ajuda somente o bebê. As pessoas acham que o polvo é só um brinquedo, mas ele ajuda para que o prematuro não puxe os fios dos aparelhos, que fique mais calmo e, com isso, ganhe peso mais rápido, diminuindo inclusive o tempo de fitoterapia. A família se sente mais acolhida também, nós temos muitos relatos de mães e pais dizendo que se sentem mais tranquilos em saber que o filho não está mais sozinho na incubadora. É uma corrente do bem”, concluiu Luciana.

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