SÃO PAULO

CRIMES CIBERNÉTICOS

Crimes cibernéticos

Por Nayá Fernandes
28 de julho de 2019

o elemento mais vulnerável é o ser humano

Você já pensou que a sua cafeteira que funciona via wi-fi ou a máquina fotográfica com que compartilha diretamente as fotos da sua viagem nas redes sociais podem estar coletando seus dados e ouvindo suas conversas na cozinha ou enquanto você limpa a casa?
Se as inovações tecnológicas facilitam o dia a dia e tornam muitas atividades mais práticas, como pagar um boleto ou chamar um táxi, elas, por outro lado, potencializam a ação de criminosos que usam esses meios para a aplicação de golpes cada vez mais difíceis de serem identificados. 
Durante a 11ª edição do Mutirão Brasileiro de Comunicação (Muticom), que aconteceu em Goiânia (GO) entre os dias 18 e 21, houve uma palestra com Sabrina Leles, delegada titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (DERCC) de Goiás. Em sua fala, a Delegada mostrou os diversos crimes envolvendo o mundo virtual com o uso dos smartphones, computadores e tablets, alertando os participantes sobre os riscos e como evitar problemas.
O Muticom  reuniu mais de 600  pessoas de todo o País, entre eles, bispos, sacerdotes, religiosos e profissionais da comunicação.

ENGENHEIRO SOCIAL

Sabrina Leles explicou em detalhes as principais armadilhas que envolvem a internet e deu exemplos de como as pessoas, sobretudo crianças e adolescentes, acabam caindo nesses golpes. 
O criminoso que atua pela internet é chamado de engenheiro social, pois, além de ser um hacker, ele faz minuciosos estudos sobre os comportamentos das pessoas antes de agir criminalmente, ou atua de maneira personalizada, ganhando a confiança delas para obter as informações que deseja.
“O engenheiro social sabe que o elemento mais vulnerável é o ser humano”, disse a Delegada, ao contar uma história que exemplifica tal realidade. “Um hacker conhecido entre as empresas foi proibido de entrar na sede do Google e todos, inclusive os seguranças, o conheciam e impediam que ele se aproximasse. Um dia, porém, ele pediu ao segurança permissão para usar o banheiro e lhe foi permitido. Lá, deixou um pen drive que logo foi encontrado por um funcionário, que o levou consigo. Quando o funcionário colocou o pen drive num dos computadores da empresa, foi constatado que o hacker havia invadido todo o sistema imediatamente.”
O caso, contado para alertar sobre a fragilidade do ser humano, mostra como os engenheiros sociais usam motivações emocionais para convencer usuários das redes de algo que eles não são. Por isso, os mais vulneráveis acabam sendo as crianças e os adolescentes, que devem ser constantemente monitorados pelos pais e responsáveis, por não terem, na maioria das vezes, maturidade emocional para lidar com pessoas preparadas para enganar e ameaçar e que fazem o que for necessário para atingir os seus objetivos.
“O mais comum é a falta de atenção, de vigilância que os próprios usuários da internet e das redes sociais apresentam ao utilizar esses aplicativos. Ao expor suas vidas, seus locais de moradia, trabalho, escola onde os filhos estudam, fornecem dados que colocam a própria vida em risco. O criminoso está atento aos detalhes”, alertou Sabrina.

PORNOGRAFIA INFANTIL 

Uma criança de 11 anos participava de um jogo na internet com outras cinco amigas do colégio em que estudavam. Um dia, recebeu uma mensagem de alguém dizendo que poderia ajudá-la a passar de fase se ela desse a ele o seu endereço de e-mail e senha. A menina concordou e, a partir daí, para que ele devolvesse a conta de e-mail, começou a pedir fotos de suas partes íntimas. Depois de várias tentativas para parar com a chantagem, a menina disse que ele – o criminoso – poderia ficar com a conta e foi ameaçada que teria todas as fotos que ela enviou publicadas no Facebook. Nesse momento, a menina pediu ajuda ao irmão de 13 anos, que contou tudo aos pais. Eles, imediatamente, procuraram ajuda na delegacia e o crime está sendo investigado.
O fato foi contato pela Delegada que assessorou o Muticom e retrata uma realidade cada vez mais crescente com o acesso de crianças às redes sociais: os crimes relacionados à pedofilia e ao compartilhamento de fotos das partes íntimas das crianças e adolescentes. 
Em 1º de novembro de 2017, uma série de reportagens sobre o tema, feita pelo site G1, revelou que uma em cada cinco crianças e adolescentes que usam a internet no Brasil diz ter visto imagens ou vídeos com conteúdo sexual. Destas, 18% receberam esse material por meio de mensagens e nas redes sociais.
Em geral, as crianças demoram a perceber que há algo errado nos pedidos feitos pela internet e, quando isso acontece e elas pensam em contar para os pais, são ameaçadas, pois, na maior parte dos casos, já forneceram muitas informações de sua vida para o criminoso.
A maioria dos profissionais sugere aos pais que prestem atenção às mudanças de comportamento dos filhos, sobretudo quando eles ficam muito tempo sozinhos e não querem sair de casa, ou começam a usar roupas que cobrem o corpo. “Precisamos começar a inverter os comportamentos: não deixar as crianças e os adolescentes ficarem em frente à tv para jogar, por exemplo, e usar o celular para ver o jogo de futebol. O incômodo será, sem dúvida, menor do que aquele de ver seu filho ou sua filha ameaçados por um curador de um jogo que incentiva o suicídio”, continuou Sabrina.

EMPRESAS AMEAÇADAS 

A Kroll, uma divisão da Duff & Phelps que trabalha globalmente em gestão de riscos, publicou, em 18 de abril de 2018, uma reportagem em que fala sobre como grandes empresas são ameaçadas e sofrem rombos milionários devido a crimes cibernéticos. 
“Um diretor financeiro de uma empresa de grande porte recebe um e-mail urgente do CEO. Na mensagem, enviada diretamente de seu endereço corporativo, o CEO solicita uma transferência eletrônica sigilosa de alto valor para a conta de uma empresa no exterior. Destaca ainda a prioridade e relevância do procedimento, sob pena de colocar a oportunidade de uma aquisição a perder. O diretor prontamente realiza o pagamento e, inadvertidamente, transforma a empresa em mais uma vítima de um golpe que está se tornando frequente também no Brasil: o ataque de hackers por meio do Business Email Compromise. O CEO não tinha nem conhecimento desta ordem, o potencial parceiro não existia e o montante provavelmente nunca mais será recuperado, causando prejuízos de milhões de reais.”
O exemplo mostra como também um grande empresário pode cair nesse tipo de golpe. O Relatório Global de Fraude e Risco 2017/2018 da Kroll mostra que o Brasil continua vulnerável aos crimes cibernéticos corporativos, com 89% dos executivos afirmando que já sofreram com esse tipo de ocorrência, índice um pouco acima da média global, que é de 86%. 
“Há casos reais em que as invasões e roubo de dados da empresa vinham acontecendo há mais de três anos, mas a violação da rede só foi descoberta depois de uma auditoria interna e análise forense dos computadores”, informa à reportagem.
A Kroll, que atua no mercado há mais de 40 anos, explica que, além dos investimentos em ferramentas, é preciso ampliar a segurança cibernética corporativa promovendo uma mudança cultural entre empresários e colaboradores das empresas. Processos, serviços de segurança e rotinas precisam ser revistos, com a definição de políticas claras. 

DICAS DE SEGURANÇA AO USAR AS REDES 

  •  Evite compartilhar vídeos ao vivo em lugares não seguros;
  •  Não use a mesma senha para acessar diferentes redes ou sites;
  •  Ative a confirmação em duas etapas em aplicativos como Uber e WhatsApp;
  •  Evite contato pessoal com pessoas desconhecidas;
  •  Desligue o localizador do celular, a não ser que esteja numa situação de risco ou isolamento;
  •  Monitore, constantemente, o conteúdo acessado por crianças e adolescentes. 

APRENDA A FAZER A VERIFICAÇÃO EM DUAS ETAPAS 

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