SÃO PAULO

FÉ E POLÍTICA

Cardeal Scherer realiza encontro com políticos católicos

Por Daniel Gomes
13 de dezembro de 2019

Parlamentares pediram mais formação sobre a Doutrina Social e maior proximidade da Igreja

Luciney Martins/O SÃO PAULO

O Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, realizou um encontro com parlamentares católicos, especialmente os com mandato de vereador na cidade de São Paulo, no sábado, 7, na Cúria da Região Episcopal Ipiranga. 
“Somos católicos. Aqui hoje não se fala em partido político, em peleias ideológicas. Convidamos que se sintam filhos da Igreja, leigos católicos que têm o desejo de fazer a sua parte na vida pública e dar expressão àquilo que é próprio da motivação que vem da fé, da nossa ética católica, do nosso compromisso, como cristãos, de ajudar a melhorar o mundo, a cidade e a sociedade como um todo”, afirmou o Arcebispo, no encontro que também teve a participação de todos os bispos auxiliares da Arquidiocese e de Dom Edgard Madi, Bispo Maronita no Brasil. 

MOTIVAÇÃO
O colóquio foi inspirado no “Encontro de católicos com responsabilidades políticas a serviço dos povos latino-americanos”, realizado em abril, em Assunção, no Paraguai, pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e a Pontifícia Comissão para a América Latina (CAL), com bispos e políticos do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai. 
Três vereadores paulistanos estiveram no encontro em Assunção – José Police Neto (PSD), Ricardo Nunes (MDB) e Paulo Frange (PTB) – e de lá saíram com o compromisso de promover um evento similar na cidade de São Paulo.
Police Neto explicou que a proposta principal é refletir sobre a presença e a missão do leigo católico na política e o aparente distanciamento entre a Igreja e a formulação das políticas públicas que incidem na sociedade.  

A SERVIÇO DO BEM COMUM
Durante o colóquio, foi exibido um vídeo do Papa Francisco sobre a missão dos leigos católicos na vida pública, no qual o Pontífice aponta que a política é uma alta forma de caridade e serviço que visa ao bem comum. Ele também alerta para a pouca representação política dos católicos nos países do Cone Sul e afirma que a missão primordial dos leigos é transformar a sociedade a partir da fidelidade ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja.
Após o vídeo, Dom Odilo ressaltou que a Igreja Católica é composta pela comunhão de todos os batizados e não somente pelos ministros ordenados, sendo os leigos chamados especialmente a testemunhar a fé na vida cotidiana, incluindo o mundo da política.
O Arcebispo também partilhou com os participantes alguns dados da pesquisa do sínodo arquidiocesano de São Paulo, em que se infere a percepção de que a ação da Igreja ajuda a promover uma sociedade melhor. Outro dado é que para 63,1% dos entrevistados, o católico deve se interessar pela política, mas quando questionados se participam de algum trabalho ou ação comunitária no bairro onde vivem, 84,73% responderam que não. 

PEDIDO POR MAIS ORIENTAÇÕES
Um dos pedidos dos parlamentares que participaram do colóquio foi o de que a Igreja os oriente melhor sobre o agir do católico na política. 
O vereador Paulo Frange, por exemplo, afirmou ser indispensável que a Igreja converse com os políticos sobre as questões relativas à bioética,  como o aborto, eutanásia, distanásia e fertilização in vitro: “A Igreja tem grandes valores e pessoas que estudam esses assuntos e que poderiam compartilhar conhecimentos conosco”.
Também o vereador Fernando Holiday (DEM) disse que, diante de pautas legislativas sobre a defesa do nascituro e prevenção ao suicídio, “teria me ajudado muito se eu tivesse encontrado na Igreja um apoio intelectual”. Ele sugeriu que a Arquidiocese dê sugestões em projetos de lei e até colabore com subsídios na parte técnica desses textos. Similar pedido foi feito pelo deputado estadual Gil Diniz (PSL). 

AO LADO DOS PADRES E FIÉIS
Para o deputado federal Carlos Zarattini (PT), a Arquidiocese deve propiciar a aproximação dos políticos com as comunidades, para que eles conheçam mais de perto os problemas. “Infelizmente, como a visão negativa sobre a política é predominante, as comunidades hoje preferem não se relacionar com os políticos”, lamentou. 
Essa maior proximidade também foi defendida pela vereadora Juliana Cardoso (PT), a fim de superar o estigma de que só há políticos corruptos, e para ajudar na construção de políticas públicas voltadas às necessidades de cada comunidade. 
O também vereador petista Antonio Donato pediu que a Arquidiocese estimule as paróquias a discutir a atuação política dos leigos. 
Ao O SÃO PAULO, o vereador Police Neto defendeu que as ações dos políticos sejam debatidas com a Igreja, para a promoção do bem comum em diferentes áreas, como saúde e educação, e, também, como forma de melhor instruí-los sobre a Doutrina Social da Igreja. 

PARTE DO CORPO MÍSTICO DE CRISTO
O deputado federal Enrico Misasi (PV), que esteve no evento realizado em Assunção, defendeu que se ofereçam mais formações para os católicos na política: “Formação da razão, fortalecimento da vontade, formação espiritual, frequência aos sacramentos, tudo isso para que nós, que somos chamados a uma vocação específica, tenhamos esse suporte por parte da Igreja”.
Para Misasi, essa presença da Igreja não necessariamente precisa ocorrer por meio de um ministro ordenado. “A Igreja Católica é o corpo místico de Cristo, do qual fazem parte os batizados em geral e não só os da hierarquia. Então, a Igreja, também na política, se faz presente onde qualquer um de nós, batizados, esteja”, disse à reportagem. 
Outros parlamentares que participaram do colóquio foram os deputados estaduais Ênio Tatto (PT) e Reinaldo Alguz (PV), os vereadores da capital paulista Alessandro Guedes (PT), Caio Miranda (PSB), Eduardo Suplicy (PT), Gilberto Natalini (PV), José Turim (Republicanos) e Ricardo Nunes (MDB), além do vereador Clayton Machado (PSDB), da cidade de Itapetininga (SP).

PRESENÇA DA FÉ CATÓLICA NO ÂMBITO PÚBLICO
Ao concluir o colóquio, o Cardeal Scherer exortou os políticos a ter a preocupação primordial com o bem comum: “Não estejam nem tanto preocupados em promover o bem eclesiástico. Vocês, como políticos católicos, são a presença do Evangelho e da fé católica no âmbito público, para promover a justiça social, a dignidade humana, a solidariedade social, o respeito à dignidade da pessoa, além de promover a superação daquilo que agride a convivência humana”, afirmou.
O Arcebispo manifestou o desejo de realizar mais um encontro com os políticos no primeiro semestre de 2020.

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