SÃO PAULO

Abas primárias

Edifício Wilton Paes de Almeida

Cardeal Scherer presidiu missa pelas vítimas de incêndio e desabamento de prédio no centro da capital paulista

Por Fernando Geronazzo
12 de mai de 2018

Segundo o Arcebispo de São Paulo, a tragédia expõe grave problema habitacional da cidade 

Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na noite da segunda-feira, 7, foi celebrada uma missa na Paróquia Nossa Senhora da Conceição e Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, pelas vítimas do incêndio e desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no dia 1º. 

A celebração foi presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, e concelebrada por Dom Eduardo Vieira dos Santos, Bispo Auxiliar da Arquidiocese na Região Sé; Dom Luiz Carlos Dias, Bispo Auxiliar na Região Belém; e padres do clero arquidiocesano. Além de recordar as pessoas que perderam a vida na tragédia, desaparecidos e as famílias que ocupavam o prédio, o Cardeal rezou pelas pessoas que moravam nos imóveis próximos que foram interditados e pelos profissionais que trabalham na busca pelos desaparecidos.

Na homilia, Dom Odilo afirmou que a tragédia leva todos a pensar na realidade das pessoas que vivem de maneira precária na Capital. “É muito chocante quando pensamos que nossa cidade tem tantas possibilidades e resolve tantos problemas, porém não consegue resolver a situação de sofrimento e humilhação de tantas pessoas”, disse. 

O Arcebispo chamou a atenção para as muitas manifestações de solidariedade aos atingidos pelo acidente. “Isso, porém, não deve ficar apenas em um momento de grande comoção, mas deve se tornar algo permanente. Que nossas organizações eclesiais possam testemunhar um efetivo amor ao próximo”, conclamou.

 

PERDA DOS AMIGOS

Muito emocionado, Cosme Araujo da Silva, 54, participou da missa. Ele vive com a esposa e cinco filhos em uma ocupação na Rua Barão de Piracicaba, no centro, e conhecia muitos dos moradores do prédio que desabou, dentre os quais Selma Almeida de Silva, que estava no edifício junto com os filhos gêmeos Welder e Wender, de 9 anos. “Ela estava feliz, porque tinha conseguido uma moradia popular da Prefeitura aqui no centro e estava aguardando a liberação para se mudar”.  Ele afirmou à reportagem que havia mais pessoas no prédio que ainda não foram localizadas e que podem estar sob os escombros. “Eram pais e mães de família, trabalhadores, muitos deles sustentavam a família com a coleta de material reciclável”, relatou

Desde a tragédia, Cosme não consegue retornar ao Largo do Paissandu. “Eu cheguei ao local logo que começou o incêndio. Ainda me lembro das pessoas gritando por socorro. É muito triste não poder ter salvo meus amigos”, lamentou, destacando que Ricardo Pinheiro, cujo corpo foi localizado na sexta-feira, 4, foi um herói, pois voltou ao edifício para salvar mais pessoas e acabou ficando preso quando o prédio veio a baixo. 

Na terça-feira, 8, foi localizado o corpo de uma criança e uma ossada. Segundo o Corpo de Bombeiros, há sete desaparecidos. No entanto, há 70 pessoas que foram cadastradas pela Prefeitura como ocupantes do edifício e ainda não foram localizadas nem reclamadas por parentes. 

 

ATENDIMENTO

No fim da missa, o Cardeal também questionou até quando as famílias desabrigadas vão ficar no Largo do Paissandu sem saberem o que será de suas vidas. Ele cobrou do poder público respostas concretas para essa situação e pediu aos vereadores da cidade, na pessoa de Eduardo Suplicy (PT), presente na celebração, o empenho na busca de políticas públicas para habitação. O Vereador, que é membro da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara Municipal, garantiu que levaria o apelo do Arcebispo a seus pares e cobraria da gestão municipal uma rápida solução para a vítimas da tragédia. 

No dia 2, Dom Odilo visitou o local do acidente, onde conversou com as vítimas e os agentes que trabalham nas buscas. Em entrevista aos jornalistas, o Cardeal afirmou que a tragédia expõe um problema grave de habitação que 
assola muitas grandes metrópoles do País. Para ele, é preciso que haja uma política que garanta acesso à moradia digna com preços que sejam acessíveis também aos mais pobres. “Não temos um déficit habitacional: o que nós temos é uma distribuição inadequada das habitações. Falta uma política habitacional adequada para as necessidades da população”, disse. 

Na terça-feira, as famílias desabrigadas começaram a ser chamadas pela Prefeitura para receber o auxílio-moradia, que será pago pelo Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), do Governo do Estado. São pelo menos 116 famílias cadastradas pela Prefeitura como ocupantes do prédio. Também as mais de 94 famílias que tiveram imóveis interditados pela tragédia receberão o auxílio de R$ 1.200 no primeiro mês e de R$ 400 a partir do segundo mês. O benefício será pago por um período de 12 meses ou até a liberação do imóvel.
 

 

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