INTERNACIONAL

Liberdade em Silêncio

Asia Bibi

Por Marcio Martins
05 de junho de 2019

Segundo estudo apresentado, 23 cristãos foram mortos por acusações de blasfêmia entre 1990 e 2017

O início da liberdade de Asia Bibi deverá ser marcado pelo silêncio. “Mesmo depois de deixar o Paquistão e reiniciar a vida ao lado de sua família, no Canadá, Asia Bibi, seus familiares, os cristãos paquistaneses e também os muçulmanos moderados deverão se manter cautelosos”, comentou o Cardeal Joseph Coutts, Arcebispo de Karachi, durante sua visita ao Brasil, em maio. O cuidado de Dom Coutts não é à toa, muito menos excessivo, afinal, mesmo com a absolvição de Asia Bibi pela Suprema Corte do Paquistão, em janeiro deste ano, inúmeros protestos foram realizados por extremistas islâmicos, exigindo que a condenação fosse mantida. 


Durante os oito anos que permaneceu no corredor da morte, aqueles que tentaram ajudá-la morreram ou precisam de segurança provida pelo Estado. Salmaan Taseer, governador de Punjab, a província mais poderosa do Paquistão, foi morto após visitar Asia Bibi na prisão. “O governador a orientou a escrever ao presidente do País pedindo que lhe concedesse o perdão. Por esse gesto, ele foi assassinado na capital, Islamabad, porque os fanáticos o acusaram de ser um muçulmano ruim, pois ninguém pode perdoar um insulto ao Profeta”, contou o Cardeal Coutts.


O advogado de Asia Bibi, Saif ul-Mallok, foi forçado a deixar o País depois que a sentença de absolvição foi anunciada, em outubro de 2018, e só retornou para participar da audiência em que o Supremo Tribunal do Paquistão rejeitou o pedido de reabertura do processo de Asia Bibi, confirmando, assim, a sua absolvição. “Sou um homem morto que caminha. Eles me acusam de ser um mau muçulmano porque eu defendi uma cristã que foi culpada de blasfêmia. Meus amigos se recusam a entrar no carro comigo, pois sentem medo de serem assassinados comigo”, diz o advogado, que também lembra o quanto Bibi sofreu durante sua permanência no corredor da morte. “Não sei como ela conseguiu resistir tantos anos em uma sala de 8m², podendo sair apenas meia hora, duas vezes por dia”, diz Saif.


Asia Bibi, mãe católica de cinco filhos, foi a primeira mulher no Paquistão a ser condenada à morte por blasfêmia, acusada por extremistas islâmicos de contaminar um copo de água ao beber nele, simplesmente pelo fato de ser cristã. Cinco dias depois do ocorrido, Bibi foi arrastada de sua casa por uma multidão e espancada na presença de policiais antes de ser presa.

 

ASIA BIBI É APENAS UMA ENTRE MUITOS ACUSADOS DE BLASFÊMIA NO PAQUISTÃO

No Paquistão, além da Asia Bibi, 224 cristãos foram vítimas da Lei da Blasfêmia desde sua aprovação em 1986. A afirmação é de Cecil Shane Chaudhry, diretor executivo da Comissão Nacional de Justiça e Paz (NCJP) do Paquistão, que esteve com a ACN neste ano. Segundo estudo apresentado, 23 cristãos foram mortos por acusações de blasfêmia entre 1990 e 2017. Além disso, a Comissão documentou mais 25 casos de cristãos em julgamento. “A Lei da Blasfêmia é uma ferramenta poderosa que os fundamentalistas podem exercer em detrimento das minorias. Muitas vezes, essa lei é utilizada como meio de vingança pessoal e, quando as acusações são feitas contra os cristãos, toda a comunidade sofre as consequências”, disse Chaudhry.


Foi o que aconteceu em março de 2013 num distrito cristão em Lahore, depois que o jovem cristão Sawan Masih foi acusado de ter insultado o Profeta Maomé. Uma multidão de 3 mil muçulmanos incendiou todo o distrito. Foram destruídas quase 300 casas e duas igrejas. Enquanto os 83 instigadores do ataque foram todos libertados, Sawan Masih foi condenado à morte em 2014, e ainda aguarda a realização do processo de recurso.


As acusações contra ele foram trazidas por um de seus amigos muçulmanos, Shahid Imran, após uma discussão entre eles. Dois dias depois, apareceram outras testemunhas, que nem sequer estavam presentes no momento do suposto insulto. 
Enquanto isso, a esposa de Sawan está criando os três filhos sozinha. “Eu não sei por que eles acusaram meu marido. Só sei que o homem que o denunciou era um amigo dele com quem havia discutido. Sawan é inocente!”, informa a esposa.

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