SÃO PAULO

AMPARO MATERNAL

Amparo Maternal comemora 80 anos de proteção e promoção da vida

Por Fernando Geronazzo e Flavio Rogério Lopes
30 de agosto de 2019

Maior maternidade de assistência pública do Brasil, que em agosto comemora 80 anos de existência

“Nunca recusar ninguém.” Este é o princípio que move o Amparo Maternal, maior maternidade de assistência pública do Brasil, que em agosto comemora 80 anos de existência.

Inaugurado em 1939, o hospital surgiu com o desejo de amparar e dar assistência a todas as gestantes em situação de risco e vulnerabilidade social na cidade de São Paulo. O médico obstetra Álvaro Guimarães Filho, a religiosa franciscana Madre Marie Domineuc e o então Arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar D’Affonseca e Silva, foram os defensores dessa causa e fundaram a instituição localizada na Vila Clementino, na zona Sul de São Paulo. 


Para celebrar o aniversário, houve uma missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo, na sexta-feira, 23, na Paróquia São Francisco de Assis, na Vila Clementino. Participaram administradores, funcionários, voluntários, benfeitores e mães, bebês e gestantes que vivem no centro de acolhida mantido pela instituição. Também estava presente a Irmã Anita Gomes, da Congregação das Irmãs Vicentinas de Gysegem, que foi responsável pela instituição por 34 anos. 

MUITO A AGRADECER
Na homilia, Dom Odilo ressaltou que o Amparo Maternal tem uma bela história, pela qual há muito a agradecer e pedir – tantas são as graças necessárias para levar avante essa missão. “São 80 anos de uma história que é expressão de caridade, de cuidado solidário e, também, da Providência de Deus, pois o Amparo Maternal sempre viveu e contou com a ajuda do povo de São Paulo”, afirmou.


As histórias que a instituição conta ao longo dessas oito décadas mostram todos os aspectos da condição humana e tudo que pode ser realizado quando as pessoas se sensibilizam em relação às necessidades do próximo, especialmente da mulher e do nascituro. “Sempre haverá a necessidade de acolher e amparar com caridade e ternura essas mulheres, mesmo quando o poder público faz a sua parte”, afirmou o Cardeal.

CORAÇÕES ABERTOS
O Arcebispo enfatizou, ainda, que, mesmo quando o Estado realiza tudo que é de sua responsabilidade, ainda falta o cuidado humano e próximo que a comunidade pode oferecer. “O Estado não é pai, mãe ou irmão... É uma estrutura que faz a sua função como instituição. Porém, não basta isso na nossa vida. Precisamos do calor, da presença e das expressões humanas, do carinho e do afeto. Isso só é possível quando existem corações abertos, de pessoas que vão ao encontro dos outros em suas necessidades”, completou. 
Dom Odilo agradeceu a todos que dedicaram a própria vida ao serviço do Amparo Maternal ao longo das gerações de crianças que vieram ao mundo por meio dessa instituição. Ele também destacou que seria possível criar uma cidade com as centenas de milhares de pessoas que ali nasceram. 

TESOURO ESCONDIDO
Ao refletir sobre o Evangelho do dia, no qual Jesus compara o Reino de Deus a um “tesouro escondido no campo” e a uma “pérola de grande valor”, o Cardeal Scherer convidou todos a descobrir o tesouro escondido no Amparo Maternal: “Por que vale a pena dedicar a vida a um serviço como este? O Amparo Maternal não é simplesmente uma obra assistencial. Nele há muitos tesouros, o tesouro das crianças que nascem, das mães que ali são acolhidas, das pessoas que ali estão com grande caridade, dos benfeitores”. 
Por fim, o Arcebispo encorajou os que estão à frente da instituição a transmitir seu legado para as próximas gerações. 

FIDELIDADE AOS VALORES 
Para Fernanda Allucci, diretora-executiva do Amparo Maternal, ao comemorar 80 anos de atividade, o hospital fortalece o seu propósito de ser referência na excelência da assistência ao parto humanizado e continuar elevando os serviços de nascimento na rede da saúde pública brasileira. 


A Diretora acrescentou que, ao longo dessas oito décadas, a instituição enfrentou crises e adversidades, mas que reúne vários atributos positivos, dentre os quais a capacidade de manter a coerência entre sua missão, seus valores e a prática.

Referência em atendimento humanizado

A maternidade, hoje administrada pela Associação Congregação de Santa Catarina, é referência em atendimento humanizado. Atualmente, realiza uma média de 560 partos por mês, dos quais 71% são partos naturais. A qualidade de seus serviços médicos é aprovada por 97% das pacientes e todos os atendimentos realizados são 100% gratuitos, feitos por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).


O hospital tem atualmente 104 leitos e o Centro de Parto Normal conta com sete quartos de pré-parto, parto e pós-parto imediato. As cirurgias cesarianas, os procedimentos ginecológicos e os atendimentos de gestação de alta complexidade, quando necessários, são realizados no Centro Cirúrgico da Maternidade, onde há três salas cirúrgicas e quatro leitos na Recuperação Pós-Anestésica.

NFRAESTRUTURA


Para assegurar a saúde dos recém-nascidos em situação de urgência, o Amparo Maternal possui 28 leitos de atendimento neonatal, sendo dez de UTI Neonatal. Outros 70 leitos estão no Alojamento Conjunto, sistema hospitalar em que mãe e bebê permanecem juntos 24 horas por dia, no mesmo quarto, desde o parto até a alta hospitalar. 


A instituição conta, ainda, com Pronto Atendimento Obstétrico, que, desde o início dste ano, registrou média de 1,7 mil atendimentos por mês, número que vem crescendo ano a ano. Já o atendimento ambulatorial oferece consultas médicas articuladas com a rede básica de saúde. O hospital também realiza exames laboratoriais e de diagnóstico por imagem.


Nathália Moura de Mello e Silva é médica intensivista neonatal no Amparo Maternal desde 2010 e atualmente é diretora técnica do hospital. “Eu deixei hospitais de ponta para trabalhar aqui, com o objetivo de estruturar a unidade neonatal, criando protocolos, organizando as estatísticas e outros dados que, na época, não existiam. Hoje, não deixamos nada a dever a um hospital particular”, destacou. 

ÍNDICES POSITIVOS 


A Médica chamou a atenção para os índices positivos do hospital. “Nós temos qualidade de nascimento de primeiro mundo, com índices ínfimos de mortalidade neonatal, infantil e materna. Isso, graças a um sério trabalho realizado nessa instituição.”


A maternidade estimula o aleitamento logo na primeira hora de vida do recém-nascido, prática que gera diversos benefícios, como uma melhor imunização do bebê e redução do risco de mortalidade neonatal. Em 2019, o hospital registra a média de 98% de neonatos amamentados na primeira hora de vida e 94% de aleitamento materno exclusivo na alta. Esses são apenas alguns dos esforços do Amparo para melhorar indicadores que são urgentes para a Organização Mundial da Saúde (OMS), como a redução da taxa de mortalidade materna. 


Dados do Ministério da Saúde registraram mais de 64 mortes para cada 100 mil nascidos vivos no Brasil em 2016, e 47 para cada 100 mil nascidos vivos no Estado de São Paulo. O hospital atualmente apresenta a razão de 6,9 mortes para cada 100 mil nascidos vivos, o que revela o êxito de seu modelo assistencial. Outro dado a ser destacado é que, em 2018, apenas 5% dos nascidos vivos na instituição necessitaram de internação na UTI Neonatal.

VOLUNTARIADO


Desde 1985, o Amparo Maternal conta com o auxílio de cerca de 120 voluntárias. Dessas, 40 são as doulas, mulheres que permanecem com as gestantes antes, durante e após o parto, orientando e proporcionando conforto físico e emocional. Além disso, a instituição oferece, periodicamente, curso de formação de doulas para quem deseja iniciar essa atividade tão nobre.


Há, ainda, 26 voluntários que colaboram no Centro de Acolhida, abrigo provisório mantido em parceria com a Prefeitura de São Paulo. Nele, gestantes em situação de vulnerabilidade e risco social, como moradoras de rua e refugiadas de outros países, podem residir por um período determinado e participar de ações pedagógicas, artesanais e motivacionais, realizadas diariamente pelos voluntários.

Vidas transformadas pelo encontro

Dia 7 de agosto de 1975. Essa data está marcada na memória de Rita Maria Lima Pereira, 79, pois foi quando ela começou a trabalhar no Amparo Maternal como coordenadora da lavanderia, função que exerceu por 36 anos. “Fui convidada pela Irmã Anita Gomes. Eu não sabia nada sobre uma lavanderia hospitalar, mas, após uns dias de treinamento no Hospital São Camilo, eu já estava apta para esse trabalho. Lavávamos cerca de 2,5 mil quilos de roupa por dia. A pobreza era grande, mas o amor era muito maior”, relatou. 


Mesmo trabalhando na lavanderia, Rita Maria tinha contato com as mães acolhidas na maternidade, chegando, inclusive, a fazer três partos. “Como a lavanderia era perto da internação, certa vez eu encontrei uma moça que estava aguardando e que gritou que a criança estava nascendo. Só foi o tempo de eu pedir que ela deitasse para eu pegar o bebê em meus braços até que a enfermeira chegasse”, contou.

LAÇOS 
A ex-funcionária define o Amparo Maternal como um lugar de respeito à vida. Ela relatou que conheceu muitas mulheres que, além de ser ajudadas para ter os filhos, receberam ajuda para ter condições de criá-los, sendo encaminhadas a moradias e empregos, inclusive na própria instituição. “Eu tive muitas funcionárias na lavanderia que foram mães acolhidas pelo Amparo. Duas delas hoje são enfermeiras no Hospital São Paulo, graças ao incentivo que receberam aqui para estudar.”


Ao longo desses 36 anos, Rita Maria também criou laços com vários “filhos” do Amparo Maternal e fala deles com muito orgulho. “Um se formou em Educação Física, outro cursou Engenharia, há também um farmacêutico e muitos outros que são pais de família com suas responsabilidades. Essas crianças são os frutos do Amparo Maternal”, afirmou. 

ESCUTA QUE SALVA
Cláudia Lorenzi Iorio, 65, é voluntária no Centro de Acolhida há 16 anos, no grupo da Pastoral da Escuta. Ela recordou que, nesses anos de serviço, conheceu muitas mulheres em situações de desespero, que chegaram até a pensar em não ter os filhos ou mesmo entregá-
-los para adoção. “Conseguimos ajudar muitas delas a tomar consciência do significado da maternidade e a decidir por acolher a vida nova que estavam gerando. Nós vemos exatamente isso, a transformação dessas meninas pela maternidade. Isso é muito gratificante.” 


Ainda segundo Cláudia, muitas dessas mulheres necessitavam apenas de acolhida, alguém que lhes mostrasse que são amadas e não estão sozinhas. Em outras palavras, as voluntárias buscam ser a família que elas não tinham e a Igreja que não conheciam. “Buscamos pôr em prática os ensinamentos de Jesus”, concluiu.

VIDA NOVA
Caroline Rodrigues Moreira, 25, deu à luz sua quarta filha, Isadora Rodrigues Firmino, no Amparo Maternal, há pouco mais de um mês. Ex-usuária de drogas, ela chegou a morar nas ruas e foi acolhida por alguns meses pela Missão Belém, até ser encaminhada para o Centro de Acolhida do Amparo.


“Eu fui muito bem acolhida aqui, não me falta nada. Somos cuidadas com muito amor e carinho”, afirmou a jovem, que, além de fazer o pré-natal e o parto no Amparo Maternal, participa de atividades de profissionalização. Graças à ajuda das voluntárias, ela pretende concluir o Ensino Médio, conseguir um emprego e ter condições para criar Isadora e seus outros três filhos, que hoje moram com a mãe dela. 


Para Caroline, o Amparo Maternal lhe devolveu a esperança. “Desejo sair daqui uma nova pessoa. Aqui eu encontrei verdadeiras mães que nos acolhem com muito carinho”, concluiu. 

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