NACIONAL

Educação

Alfabetizar é preciso

Por Nayá Fernandes
08 de setembro de 2018

Diante dos altos índices de analfabetismo, 8 de setembro é dia de desafio e esperança no Brasil

Reprodução da Internet

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 20% da população mundial é analfabeta. Diante disso, a Organização das Nações Unidas instituiu em 1967 o Dia da Alfabetização, comemorado sempre em 8 de setembro.

Embora a situação da educação no Brasil tenha apresentado melhorias significativas nas últimas décadas, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12,8 milhões de brasileiros acima dos 15 anos não são alfabetizados. Isso sem contar os chamados analfabetos funcionais que, segundo pesquisas, chegam a 75% da população.

Mas o que é alfabetização? Segundo o dicionário Aurélio, alfabetização é o ato de ensinar os códigos alfabéticos e numéricos e tornar o indivíduo capaz de ler, escrever e interpretar o que lê ou reexplicar o que leu com suas próprias palavras.

 

ANALFABETISMO FUNCIONAL

Analfabetismo funcional é a incapacidade de captar integralmente o sentido do que se lê. Mesmo capacitados para ler frases ou trechos curtos, os analfabetos funcionais não conseguem decodificar e explicar letras, números, dados ou mesmo sentenças curtas. Em outras palavras, são capazes de ler o que está escrito, sem, contudo, compreender o que é dito.

Segundo os dados do Indicador Funcional, resultante de um estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro (PIM), pela ONG Ação Educativa em parceria com o Ibope Inteligência, apenas 8% da população brasileira entre 15 e 64 anos é plenamente capaz de entender o que lê e expressar-se corretamente.

Segundo o indicador, existe uma escala de classificação de alfabetismo: analfabeto (4%), rudimentar (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%). O índice de leitura do brasileiro também é preocupante. Dados mostram que o brasileiro lê, em média, apenas 1,7 livro per capita por ano, um número menor do que o de países vizinhos mais pobres.

Faculdades e universidades têm oferecido, como disciplina complementar, cursos de Português para alunos de diferentes áreas. A iniciativa é uma maneira de auxiliar os jovens que ingressam no Ensino Superior a recuperar possíveis deficiências do Ensino Básico, Fundamental e Médio.

 

EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

Diferentes grupos, instituições e movimentos auxiliam na tarefa de alfabetizar adultos. É o caso do Movimento de Educação de Adultos (Mova). Duas turmas funcionam nas dependências da Paróquia São Luís Maria Grignion de Montfort, da Região Episcopal Brasilândia, no Jardim Rincão.

Maria do Carmo Ferreira Braga, 63, trabalha como facilitadora no Mova há 25 anos. Ela é professora de artes plásticas e comerciante. “Comecei na Ação Educativa Católica e, na época, há mais de 20 anos, existia um grupo chamado ‘Projeto’ que recebeu verbas da Alemanha para começar uma escola na Paróquia. Com o tempo, o formato foi mudando, com várias fontes de financiamento. Fiquei quatro anos trabalhando sem receber nenhuma ajuda de custo, e a Paróquia também cedia o espaço de maneira totalmente gratuita. Depois, começamos a receber uma ajuda de custo para levar adiante um projeto”, explicou Carminha, como é conhecida.

Com cerca de 40 alunos matriculados, que têm idade entre 40 e 70 anos, ou mesmo, em alguns casos, com idade mais avançada, as aulas acontecem de segundafeira a quinta-feira, das 19h30 às 22h, e o ensino oferecido corresponde ao Ensino Fundamental, até o 5º ano.

“Os alunos têm dificuldade de participar, mas quando vêm, estão por inteiro. Os mais jovens por causa do trabalho, e os mais velhos por questões de saúde. Mas a ideia do Mova é não discriminar ninguém e integrá-los o máximo possível”, continuou Carminha.

A educadora salientou que a Paróquia sempre cedeu o espaço e ofereceu a todos uma ótima estrutura para as aulas, desde o começo. A experiência de educação de jovens e adultos se repete, e muitas paróquias e comunidades cedem ambientes para atividades que têm como fim a educação.

 

PROJETO ÂNCORA

O Projeto Âncora começou em 1995, inspirado na Escola da Ponte, iniciativa de Educação em Portugal. “Eu e meu marido demos início ao Projeto Âncora, eu arquiteta, ele empresário. No fim de 1996, começamos a receber crianças a partir de um ano e meio na entidade e a oferecer atividades circenses para as crianças do Âncora, e com isso acertamos em cheio. O circo é lúdico por si só, seu espaço circular já é um convite à cooperação, as atividades privilegiam o trabalho coletivo e a disciplina. Tudo é uma grande brincadeira, e como tal, muito séria”, explicou à reportagem do O SÃO PAULO, Regina Celi de Albuquerque Machado, fundadora do Projeto.

Em 1999, em contato com Maria Amélia Pereira, fundadora da Casa Redonda, eles definiram qual caminho educacional seria seguido no Projeto Âncora. “Passamos sete anos frequentando a Casa Redonda diariamente. E quando, há quatro anos, tornamo-nos também uma escola de Ensino Fundamental, essa pedagogia continuou a nos inspirar e alimentar”, continuou Regina.

“Acredito que a criança traz dentro de si os recursos para o seu processo de desenvolvimento físico, emocional e mental, que brincar socializa e é o modo privilegiado de como a criança se apropria do mundo”, disse Regina.

O Âncora foi eleito, em agosto de 2016, uma das 12 escolas mais inovadoras do mundo por um levantamento que rodou o globo, feito por educadores da Fundação Roberto Marinho e seus parceiros, Sesi Nacional e Instituto Inspirare. O levantamento virou uma série do Canal Futura, “Destino: educação – Escolas inovadoras”, com 13 episódios, e um livro com o mesmo nome.

 

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DA SOCIEDADE ALFABETIZADA

⇒ As sociedades letradas nasceram entre os séculos V e VI a.C., concomitante ao surgimento do pensamento lógicoempírico na Grécia.

⇒ Os livros começaram a difundir-se após a invenção da máquina de impressão tipográfica, inventada pelo alemão Johann Gutenberg na década de 1430.

⇒ Após as revoluções francesa e industrial, no século XVIII e início do século XIX, a alfabetização se tornou indispensável para a sociedade em geral e difundiu-se na Europa.

 

PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E BASE NACIONAL COMUM

O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece que, até 2024, todas as crianças sejam alfabetizadas até o 3º ano do Ensino Fundamental. Um total de 77,8% das crianças, até 2014, tinham aprendizado adequado em leitura dentro desse prazo; 65,5%, em escrita; e, 42,9%, em matemática.

A Base Nacional Comum Curricular estabelece conteúdos e competências que todo estudante deve dominar na Educação Básica. A Base será referência obrigatória na elaboração dos currículos de escolas públicas e particulares de todo o Brasil.

Além de dar visibilidade a conteúdos essenciais, a Base determina o que os alunos devem saber a cada ano de escolarização. Desse modo, ajudará professores e escolas a organizar a progressão das aprendizagens em todo o território nacional.

Outro programa que busca diminuir os índices de analfabetismo no País é o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic). A ação é um compromisso formal assumido pelos governos federal, estaduais, municipais e do Distrito Federal para assegurar que todas as crianças estejam alfabetizadas até os 8 anos de idade, ao fim do 3º ano do Ensino Fundamental. Isso implica uma articulação entre todos os secretários estaduais e municipais de Educação, com o objetivo de ofertar cursos de formação continuada a professores alfabetizadores, com tutoria permanente e auxílio de orientadores de estudo.

 

——  ALFABETIZAÇÃO NO BRASIL ——

1549 | Quinze dias depois de os jesuítas chegarem ao Brasil, em 1549, já funcionava uma escola de ler e escrever, que se pode entender como uma das primeiras iniciativas para a alfabetização no Brasil. 

1554 | Em 1554, com a intenção de ensinar e catequizar os indígenas que viviam neste planalto de Piratininga (atual cidade de São Paulo), os jesuítas constroem a primeira escola, feita de pau a pique (técnica de construção com barro, bambu e palha).

1880 a 1920 | Entre 1880 e 1920, aprender a ler era sinônimo de possibilidade de aquisição de novos e variados conhecimentos e escrever era muito mais um ato de boa caligrafia que um meio de se comunicar.

1882 | Em 1882, foi instaurada a Lei Saraiva, que impedia o voto de analfabetos. Como na época a população era de 80% de analfabetos, houve um movimento para a alfabetização

1930 | Quando foi fundado, em 1930, o Ministério da Educação (MEC) era Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, e além da educação, desenvolvia atividades pertinentes à saúde, ao esporte e ao meio ambiente.

1932 | Em 1932, um grupo de intelectuais, preocupados em elaborar um programa de política educacional amplo e integrado, lançou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.

1934 | A primeira biblioteca infantil do Brasil foi fundada em 1934, por Cecília Meireles (1901-1964), no Pavilhão Mourisco, no Rio de Janeiro. Em 1934, com a nova Constituição Federal, a educação passou a ser vista como um direito de todos, a ser ministrada pela família e pelos poderes públicos.

1961 | Com a aprovação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1961, os órgãos estaduais e municipais ganharam autonomia, com diminuição da centralização do MEC.

1971 | Em 1971 o ensino passou a ser obrigatório dos 7 aos 14 anos.

1980 | No fim da década de 1980, o analfabetismo chegava a 25,41% e 19,9% da população não conseguia concluir os anos iniciais do Ensino Fundamental.

1996 | Uma nova reforma na educação brasileira foi implantada em 1996. Trata-se da mais recente LDB, que trouxe diversas mudanças nas leis anteriores, com a inclusão da educação infantil (creches e pré-escola).


 

PROFESSORA DE CORAÇÃO

Kamila Gomes Fonseca é professora da Rede Municipal de Ensino de São Paulo desde 2006, quando começou como estagiária.

“Ao longo destes anos, percebi que alfabetizar vai além de ensinar as palavras. Cada criança tem o seu tempo, e entre tantas metodologias, acredito que a melhor é aquela que faz a criança ter mais vivências significativas, ou seja, que a possibilite conhecer o mundo da palavra pelo seu próprio mundo”, disse.

Professora na Educação Infantil, Kamila acredita que é essencial possibilitar que as crianças conheçam o mundo da palavra de forma lúdica e tenham um ambiente com letramento.

 

BIBLIOTECA EM CASA

Lydia Silva Gonçalves, 79, mora na Estância Santa Cruz, na cidade de Itanhaém, litoral paulista. Sua garagem transformou-se numa biblioteca improvisada que, além das tantas histórias contadas nos livros, carrega em si a história de Lydia, que em 2016, prestou vestibular para começar outra faculdade, desta vez, de Direito

Analfabeta até os 65 anos, Lydia disse em uma reportagem publicada pela revista Família Cristã, que “começou a viver depois que aprendeu a ler”. Ela ia a pé até o asfalto, a uma distância de pouco mais de dois quilômetros da sua casa, pegar um ônibus até o centro da cidade de Itanhaém. Lá, ela fez Educação de Jovens e Adultos (EJA) para concluir o Ensino Médio e terminou sua primeira graduação, em Pedagogia.

“Tudo começou quando pedi para uma amiga ler o contrato para tentar recuperar algumas terras que eram do meu pai. Mas o contrato dizia que metade das terras iriam para o advogado, se eu ganhasse a causa. Fiquei extremamente chateada e, a partir daquele dia, prometi que não iria mais ser enganada por ninguém”, contou.

Quando terminou a graduação em Pedagogia, a estudante foi convidada para ocupar uma cadeira na Academia de Letras de Itanhaém. Atualmente, Lydia, mãe de cinco filhos, ministra palestras para adolescentes, jovens e adultos, cuida da casa, do quintal e da biblioteca que funciona na garagem de sua casa e é aberta ao público.

Informações e doações: (13) 3429-3228.

 

Fonte: MEC
 
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